quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Acabou-se a mama

Foi bom. Foi mau. Foi assim-assim. Foi terrível. Foi das melhores coisas de sempre e chegou ao fim.


Amamentar foi das melhores experiências da minha vida. A primeira vez foi mágica. Assim que puseram a Isabel da minha maca, a minutos de ter nascido, ela soube logo o que fazer. Fomos juntas até ao nosso quarto, unidas. Foi a mamar, timidamente. Os dias que se seguiram foram de preocupação na hora da mama. Adormecia. Molha pé, despe, aperta pé, mexe na orelha, mexe no queixo. O sono falava mais alto. Perdeu algum peso. Ainda no hospital, a médica que lhe deu alta sugeriu suplemento. Tive dúvidas, mas quis confiar em mim, no meu instinto. Não dei. Estava bem, não parecia ter fome. 

Já em casa, a subida do leite. Horrível. Dores e mais dores. Parecia que ia rebentar e ela não dava vazão. Vidrinhos no peito, dores lancinantes quando mamava e antes e depois. Pedia ao pai da Isabel para me apertar um pé com toda a força possível. Só queria deixar de sentir aquelas dores. Podiam ser outras. Aquelas não. Experimentei todas as mezinhas, o saco quente, o banho, a massagem. Depois o saco frio, creme, o próprio leite, a bomba. Fiz de tudo. As dores eram enormes. Ninguém me tinha avisado que podia ser assim. Não sabia. Doeu mais do que o parto. Chorava a dar de mamar. Aquele momento supostamente tão lindo, tão próximo, era um inferno. Mas ia passar. Tinha de passar. Eu só perguntava "isto vai passar, não vai?". "Vai, isso passa", respondiam. Um mês. Um mês inteiro com dores na mama esquerda. Naqueles momentos lembro-me de pensar nas mães que desistiam. Percebi. Percebi tão bem. 

Passou.
Um mês depois, amamentar era bom. Era um momento só nosso, mágico. As dores tinham ficado no passado. Valeu a pena. A satisfação dela a mamar compensava tudo. Finalmente tudo corria bem.

Depois vieram as cólicas a mamar ou o que era aquilo. Contorcia-se, chorava, tinha fome mas causava-lhe dor. Até parecia que ouvia o som do leite que lhe chegava ao estômago. Foi difícil. Tinha de me levantar, tentar distraí-la e lá ia mamando. Malditas cólicas. Passaram as cólicas. Voltou a mamar bem. Mas foi sol de pouca dura.


Biberão. Esse grande "aliado" quando fui trabalhar, no dia em que fez três meses, revelou-se o maior inimigo da amamentação. Deixava leitinho e bebia no biberão. Acontece que se começou a habituar ao facilitismo do biberão, a mama dava muito mais trabalho... Prestes a fazer 4 meses, preferia o biberão. Pedi conselhos, liguei para o SOS Amamentação, pediatra, tudo. As reservas de leite congelado estavam a acabar. Sabia que se não mamasse, dificilmente a bomba iria ajudar tão bem na produção de leite. Comprei suplemento, pelo sim, pelo não. Não queria deixar de ter leite. Não depois de tanto esforço. Não depois de ser o nosso momento. Uns dias a tirar pouco, a tristeza a apoderar-se. Mamava bem durante a noite e de manhã. Às vezes à tarde também. Fiz de tudo. Comecei a conseguir produzir mais leite para ela mamar e para guardar. Dei-lhe algumas vezes suplemento, porque tinha fome e descongelar ia demorar muito tempo. Chorar com fome, não! Queria ouvir aqueles sons de prazer a mamar, qualquer que fosse o leite.
Até que fui à clínica Amamentos pedir ajuda. Tinha ela 4 meses. Melhorou. Ficou a mamar muito melhor. Estava fartinha da bomba, mas continuei a tirar leite mais um mês para a minha ausência. Por ela, tudo. 


Até aos 9 meses mamava de manhã e à noite e ao fim-de-semana sempre que queria.


Aos 9 meses e 3 dias foi a última vez. Ausentei-me um fim-de-semana e quando voltei ela não quis. Não conseguia. Pareceu-nos doente, fomos ao hospital: pneumonia. Internada 5 dias e sempre a recusar a mama. Tentei tirar leite, mas nada de jeito.

Nova consulta com uma especialista, procurei ajuda, comprei uma máquina nova. Banhos com ela, pele com pele, danças, brincadeiras e nada. Não consegui fazer com que ela quisesse mamar de novo.

E esta semana decidi: chegou ao fim a nossa maminha. Foi bom, não me posso esquecer daqueles olhos a olharem bem nos meus, daquele mimo todo, daquela cumplicidade. Foi também mau, mas consegui superar sempre as dificuldades.

Decidi não continuar a tentar, bem comigo e até com um certo alívio porque não vou arrastar mais esta situação. Pus definitivamente um ponto final. Uns dirão que foi cedo, outros que já foi muito bom. Para mim, nem sempre foi bom, foi bom, foi mais ou menos, foi das melhores coisas e já tenho saudades. Pode ser que com um(a) maninho(a) ela queira voltar a mamar, quem sabe? Não me importava mesmo nada. 

Entretanto, e como a amamentação não é tudo, vou continuar a ser tão boa mãe como fui até aqui. E não sou mais nem menos do que quem amamentou 30 meses ou do que quem amamentou apenas um. Nem mais nem menos do que quem odiou e desistiu, nem mais nem menos do que quem teve a melhor das experiências. Amor e cumplicidade entre mãe e filha há-os de várias formas.

 *imagem we heart it

11 comentários:

  1. Palavras tão sábias, Joana! A sério, a amamentação é das coisas que mais me assusta na maternidade. Não sei se aguento um mês inteiro de vidrinhos no peito, não sei se quero aguentar, só quando lá chegar saberei o que quero e vou fazer. Até lá, não vou comprar LA, não vou esterilizar nem um único biberão: quero acreditar em mim e que vai correr bem. Mas, se não correr, paciência! À fome é que ele não morrerá!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Alexandra, nada de medos. Vais ver que vai correr bem! Eu por acaso ia sem medos, a achar que ia ser a coisa mais fácil e natural do mundo (nunca ninguém me tinha contado que podia não ser) e afinal connosco não foi. Mas pode ser! Tenho amigas a quem não custou nunca nada! Outras a quem só custou 2, 3 dias. No meu caso eu sempre tive produção de leite a mais (cheguei a tirar, para teres uma ideia, 260ml só de uma mama...) e foi muito difícil ajustar a minha quantidade ao que ela consumia, daí também as dores iniciais.
      Se eu soubesse o que sei agora, teria logo consultado CAMS, especialistas em amamentação, para me ajudarem. Elas ajudam também a perceber se o bebé está a fazer uma pega e a corrigi-la. Teria feito também Livre Demanda desde o início (o bebé mama quando quer), que é um dos grandes pontos para o sucesso da amamentação, em vez de andar inicialmente a cronometrar tudo (3h/3h). A Isabel nunca foi de chorar a pedir mama, mas teria oferecido mais vezes no início.
      Fiz como tu, também não comprei LA e felizmente só foi necessário meses mais tarde. Acredita em ti, e alguma coisa que precises diz! O apoio e o encorajamento de outras mães e médicas no meu caso foi fundamental. Mas claro, fazer sempre o que nos vai no coração, sem culpas.
      Beijinho grande e BOA SORTE! Está quase, não está? :)

      Eliminar
    2. Joana dou estes conselhos a várias grávidas, porque era o que eu faria se fosse hoje, mas tenho a sensação de que olham para mim como exagerada. Acho que no fundo todas acreditamos que connosco a amamentação vai ser fácil e natural, o bebé vai ganhar peso com fartura, etc. Quem me dera a mim ter tido estes conselhos. Só frequentei o curso de preparação do centro de saúde e achei que tinham obrigação de falar disso e não falaram! Ainda mais a enfermeira que o deu tinha 2 filhos! Como é possível?!

      Eliminar
  2. Foi muito bom sem dúvida! Eu dei até aos 6 meses e ele deixou de querer, mas para mim foi muito bom também. Felizmente nunca foi motivo de dor pois não tive grande subida de leite. Foi motivo de stress porque ele perdeu muito peso.

    ResponderEliminar
  3. Identifico-me muito com o que escreveu, Joana. No meu caso foram 2 meses de vidrinhos. Eu tinha mais a sensação de ter canos entupidos e doía-me quando o leite saía e quando a mama voltava a encher... De 2h em 2h isto, durante 2 meses... Nem a tomar banho conseguia tirar o soutien, tal eram as dores do peso das mamas! Como disse, percebi muito bem porque razão há quem desista, nem todas temos a mesma resistência à dor. Era muito como a Joana Gama, super a favor da amamentação, e julgava quem não o queria fazer. Deixei de julgar e compreendi, o amor pelos nossos filhos não tem que ser demonstrado pela nossa dor e sofrimento. Eu não desisti, porque sou teimosa que nem uma mula, e vou a caminho dos 6 meses de bebé alimentado só a maminha, como sempre desejei. Mas tal como tudo neste mundo da maternidade, cada caso é um caso, há experiências fantásticas de pessoas que nem a subida do leite sentem, e há pessoas com mastites horriveis, nunca sabemos o que nos calha na rifa!

    ResponderEliminar
  4. Por aqui só nao consegui uma amamentação de sucesso, ao 2, porque tinha refluxo :( de resto correu sempre bem. Mastite só com o mano 3, é mesmo muito mau. Muita febre, imensas dores, de resto, e contanto c a subida do leite (custa sempre, verdade dos factos, mas a partida serão dias, ate q a produção de leite se equilibre ao consumo q o bebe lhe dá). Agora com o 4 foi ate ha um par de meses (literalmente), aos 2 anos e 3 meses. Um viciado absoluto :)

    ResponderEliminar
  5. Uiii,a mim começou logo na maternidade(c a segunda,da primeira so tive leite 2 semanas),uma greta enorme na mama direita...sempre que ela pegava saia sangue e eu com medo que ela o bebe-se!falei com enfermeiras amigas..resposta de todas..tudo o que vem da mama da mãe é bom..mesmo sangue!Tive febre..e ela sempre mamou!desistir nunca!saber que doia mas ela tinha de mamar dava-me animo para continuar!Com este nao vai ser diferente! =)

    ResponderEliminar
  6. Ótimo texto Joana! Parabéns pela sinceridade :)
    Vou recomendar a algumas amigas grávidas de primeira viagem.

    ResponderEliminar