sábado, 28 de fevereiro de 2015

Afinal havia outra (#11) - Ter um filho em Angola

Estava eu entretida a ler o vosso post fantástico quando começo a sentir uma certa vontade de escrever qualquer coisa com impacto suficiente para ir parar ao vosso blog.
 

"Vou escrever sobre o terror do meu parto!!!!
Hummm
É tão negativo e isto (a maternidade, leia-se) até é uma coisa bem fixe."

...

"Vou escrever sobre os primeiros meses!!!!!
Fraldas. Biberões. Choros indecifráveis. Entreter bebé que não dá feedback. Hormonas ainda meio loucas e deprimidas.
BOOOOOOOORIIIIIING!"

...

"Vou mas'é ter juízo, curtir o meu tempo livre a ver mais blogs e facebook (oh yeah!!!!! Cultura para cima!!!!) com o terrorista a dormir e deixar de me sentir a Shakespeare do momento."

Mas foi mais forte do que eu!!!!

"Calmaaaaa! Vou escrever sobre ter um filho em Angola!!!!"

Pois... é o caso!
Será suficientemente interessante?

Por aqui vive-se sem luz a maior parte dos dias, dependente do tanque de água, com medo das picadas dos mosquitos e a rezar para que as diarreias (porque as há de tempos a tempos) sejam ligeiras e pacíficas.

Então como é que é viver em Angola com um bebé desde os 4 meses?

Vive-se...

A primeira vez que pus a rede mosquiteira no meu filho fiquei em pânico. "Ai porque vai dormir mal! Vai-se sentir preso! Vai acordar e berrar porque vai ficar assustado com a rede!" Mimimimimi...
Nada. Pacífico.
Dormiu tranquilo. A rede mantém-se. Já tem uns valentes buracos graças a um gatinho maravilhoso que achou que era uma brincadeira gira, mas todos em lugares estrategicamente bem colocados para poderem ser "tapados".

O repelente... esse chateia-me um bocadinho porque a maior parte dos repelentes não faz porcariazinha nenhuma. Aliás, estive mesmo para empregar a outra palavra pior que porcariazinha, mas o vosso blog é tão mimoso que achei que não ia ficar bem. Continuando...
Os repelentes que repelem realmente os mosquitos dizem que é para maiores de 2 anos. Os outros... dá-me a sensação que os mosquitos ainda se lambuzam depois da picada. O ideal? Não sair com o puto depois das 17h. É! Não dá, não dá! Paciência. Mas tentamos manter este horário à risca.

Claro que entretanto tenho um artista que para além de saber fazer o som de não sei quantos animais sabe como se afastam moscas e mosquitos. A seguir ao "Então como é que faz a vaca?!" vem logo o "Então como é que se mata um mosquito?". É. Qualquer criança que cresça em Angola sabe como se mata um mosquito. (palmada no ar caso não saibam)

E qualquer criança que cresça em Angola sabe como é que se dança. Mas dançar a sério. Não são esses saltinhos e ondulações dos bebés normais. O meu filho levanta a perna e dança kuduro na perfeição. "Não faz isso Bela, não faz isso Bela, não faz isso B-B-B-Bela!" e é vê-lo a levantar a perna e a girar. Uma delícia.

E quando falta a luz?! "Lú lú lú lú!" E lá trepa ele por mim acima só para ter mais uma viagem ao quintal para ir ligar o gerador. E como é que se explica a uma criança de 1 ano que o gerador às vezes avaria e não há mesmo luz? Nem televisão? Nem Panda???!!!! Não conseguimos explicar. É escusado.

E a água? A água é um problema porque não é potável. No meu caso instalei uns super mega filtros, mas... a maior parte das pessoas não tem. Como é que fazem com bebés que adoram beber toda a água do banho? Dão com água fervida. Ou água engarrafada. Ou...
Não. É mesmo só uma destas opções.
Ou então já têm filhos com estômagos de aço como o meu que no outro dia ligou a mangueira (sem água filtrada) que estava apontadinha para ele e bebeu ali umas valentes litradas de água cheia de bichinhos e girinos e porcariazinhas que rimam com cólera, mas safou-se bem. Valente do miúdo que nem um cocó mole teve (sim, qualquer post de maternidade deve ter a palavra cocó incluída! Desculpem lá!)

E vais passear com ele onde?
Pois... é um problema. Nós cá em casa não somos muito fãs de praia. E as escolhas são praia, restaurantes, praia, esplanadas na praia, e.... ah, praia! Pois...
Havia um jardim fantástico, com escorregas, árvores, casinhas de plástico, baloiços, carrinhos, bicicletas, dava para todas as idades e tinha segurança. Sim pagava-se mas... ok. Faz parte. Fechou. Fechou! Assim. De repente. Sem aviso. Sem backup. Centenas de mães anti-praia ou fartinhas de praia sem opção.

Por aqui montámos uma mini piscina no quintal comprada num hipermercado qualquer e olha... tem resolvido o assunto "entretenimento" por uns tempos. Mas a piscina é mesmo mini. E esta malta cresce muuuuuito. E rápido. Por isso, acho que as Playstation vão ser uma opção aqui por estes lados.

Escola e cresches?
Tem e muitas. Mas caras! Caríssimas!!!! Com preços de fazer corar.
Eu fui burra: pus-me a pesquisar... a ver as fotos nos sites e no facebook, a apreciação de algumas mães... e fui excluindo uns, pondo de lado outros... depois via o horário, o tipo de ensino, as actividades extracurriculares... até que cheguei a 3: uma que muita gente fala mal, uma que é de uma língua que ninguém fala aqui em casa e outra que são 1800 dolares por mês.
Por isso este assunto tem sido tabu nos últimos tempos pois põe-me valentemente mal disposta.
O que é que vou fazer? Não sei. Ponto final!


E onde é que ele fica durante o dia?
Com uma babá. Que é muito comum por estes lados. O meu filho não tem avós cá. Tem uma babá a quem ele trata por mã. Que é muito carinhosa. Que vem trabalhar sempre de sorriso na cara. Mas que à primeira fralda que trocou quando o Gui tinha 4 meses se virou para mim e disse "o Gui si cagó". E eu fiquei verde. Roxa. Rosa flurescente. E depois voltei à minha cor amarelita normal e disse-lhe muito calmamente "fez cocó... O Gui fez cocó".
E assim tem sido ao longo deste ano e alguns meses: lutar contra o "si mijó", o "estou à vi", "o Gui não querO", "o Gui si páncou" e coisas do género. Mas sim... eu sei que mais cedo ou mais tarde, daquela boquinha fofinha do meu bebé, há-de sair uma atrocidade qualquer destas. É a vida. Paciência.

Por outro lado tem a vantagem de nunca ter posto um casaco mais quente do que um casaco de algodão ao meu filho. Vivemos no calor e vamos de férias ver a família em época quente. Se tudo correr bem neste próximo natal vai sentir o que é o frio. Calorento como é acho que vai gostar.

E a saúde?
Bem... eu trabalho na área da saúde. Tenho a vida facilitada e alguns conhecimentos. Mas quando ele partiu a cabeça (sim, ele é um pequeno terror com duas pernas e dois braços!), e nem houve discernimento para pensar a quem telefonar ou onde ir, fomos parar a uma primeira clínica que... "Ah, pois... aqui não damos pontos". Ok. Boa. Então e agora?
Lá fomos nós para uma segunda clínica.
Depois de passar por 4 médicos e um enfermeiro lá decidiram passar à acção. E não havia recursos materiais. Faltavam aqueles pensos que evitam dar pontos "Não temos!". E só foram à procura daquela linha absorvível porque eu fiz uma birra horrorosa a bater o pé que não voltava com o míudo para tirar pontos que não me apanhavam ali tão cedo.

Mas é o calcanhar de aquiles. A saúde. E depois ouvimos histórias... daquele e do outro que "estavam bem", "vê lá, era só uma apendicite e morreu coitadinho do pequenino", "não souberam ver que ele tinha uma sepsis"... QUERO FUGIRRRRRRRR! Mas não... depois ficamos... benzemo-nos... pedimos que seja só com os outros... e continuamos a nossa vida a pensar "quando voltarmos A CASA vai ser tudo tão mais fácil!"

(será que isto já vai na ordem do argumento do Benur?!...)

Depois tem coisas boas... bem boas. Há mais união entre o grupo de amigos. Estamos mais presentes. Temos mais tempo para saídas. Para lanches. Para conviverem as crianças todas. Há mais apoio. Passamos todos pelo mesmo. Uns com mais experiência que outros. Mas somos família. Família emprestada.

Voltar a casa vai ser bom. Mas enquanto não voltamos vamos vivendo felizes.

Ana Feijão

12 comentários:

  1. Eu acho que não conseguia viver num sitio assim. É preciso mesmo mt coragem.

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  2. Como compreendo tudo o que conta, vivi em Luanda durante 3 anos, 3 longos anos com todas as chatices de falta de água, falta de energia, insegurança, picada de mosquitos, uma dengue no marido com corridas "à clinica" em que nem análises queriam fazer e tudo o que por aí acontece. Entretanto regressei no último Natal a Portugal. Pensamento positivo sempre, um dia tudo passará e estará de volta. Boa sorte

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  3. Obrigada às Joana pela oportunidade de partilha.

    Celita, adaptamo-nos :)
    Há muitas como eu e vamo-nos apoiando.

    Anonimo, voltou? E como foi a volta? Às vezes dou por mim com receio de voltar e sentir saudades de qualquer coisa mesmo muito importante... como por exemplo o clima!

    Beijinhos

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    1. Tenho saudades dos amigos, dos encontros ao fim de semana, a ligação como verdadeira família, mas estar em casa no nosso país no aconchego da nossa família e dos amigos de sempre é muito bom. Viva um dia de cada vez e um dia irá regressar com certeza. Desejo-lhe a maior sorte.

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  4. Eu passo pelo mesmo mas em Moçambique! Tal e qual o filme! Acabamos de passar 1 mês sem energia da rede e a minha mal falha a electricidade pede logo para ir pôr gasolina no gerador! ☺
    Boa sorte.

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  5. para se estar em Angola com ou sem uma criança, é preciso assegurar budget para as condições normais que se tem em Portugal. Se muitos Portugueses mesmo assim continuam cá, é porque o dinheiro que recebem cá compensa, este maldizer do país.

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    1. Anónimo, felizmente há bastantes coisas que compensam a nossa estadia cá. Mas se sabe sobre a nossa realidade neste país também sabe que isto está longe de ser um "maldizer". É um país em crescimento e que teve muitos anos de guerra que não lhe permitiram acompanhar o crescimento natural. E estas características de que falei estão presentes e temos que lidar com elas. Mas lidar é diferente de "maldizer"...

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  6. Ana Feijão, olá! Como me identifico! Vivemos em Talatona e o nosso Renato nasceu cá nas Girassol. Tem 19 meses. é bom sentir que não estamos sós! Beijinhos e coragem. Não sei onde mora, mas a creche do meu miúdo é bem em conta.

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  7. e eu já vou com quase 8 anos, com dois filhos (um de 6 e outro de 2) Nascidos aqui! como me identifico! Beijinhos a todas as mães de Angola.

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  8. Olá, Ana!
    Amei o post!!!!
    Eu vivia em Angola mas vim para Portugal pouco tempo depois de saber que estava grávida. Agora vou manter-me por cá até ao parto.
    O seu filhote nasceu aí? Com que idade acham - a Ana e as restantes participantes - adequado levar um bebé para Angola? Tenho andado a pensar nisto porque o pai da minha bebé continua lá e não os queria ver separados durante muito tempo.
    Não querendo ser melga, mas já sendo, não existe nenhum grupo de mamãs em Angola?

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  9. Olá a todas as participantes...
    Adorei o relato da Ana Feijão!
    Sou portuguesa, vivo em Angola há 2 anos, estou gravida, com quase 7 meses, e a pensar no parto! Preciso que alguém me oriente...
    As mamãs que tiveram os bebes em Angola, podem deixar o seu testemunho em relação às clinicas e respectivas condições…?
    Estou a pensar em ter o bebe em Angola mas por outro lado toda a gente me diz “porque é que achas que as angolanas vão a Portugal ter os bébés??”
    Obrigada.

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  10. Olá, boa tarde.

    Sou mãe de um miúdo de 3 anos, estou em Angola faz 2... e também compreendo o que diz :-)

    O meu filho partiu uma perna e teve de ser, e eu em sua companhia, internado na Multiperful.... céus... embora o atendimento tenha sido muito bom, a verade é que saimos ambos de lá com uma alergia na pele :-)

    Enfim.... Angola... Com o tempo aprende-se a gostar.

    Ana, gostaria de lhe pedir a abordagem de creches em Luanda se possivel por favor.
    Gostaria de ver este tema debatido, pois é algo que me tem vindo a preocupar faz tempo.

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