segunda-feira, 23 de março de 2015

Afinal havia Outra (#16) - Não é difícil ter um filho...



Não é difícil ter um filho. Dar-lhe colo, alimentá-lo, ensinar-lhe a fazer o símbolo do rock com os dedos. Adormecê-lo, levá-lo a passear, dar-lhe banho e ter a certeza que tem as orelhas limpas.

Difícil é transformarmo-nos numa família. Uma família a sério, que come à mesa toda junta, que vai a sítios, que passa férias, que vai às compras ao supermercado. Porque no início despacha-se a criança, dá-se o banho, o jantar na cadeirinha alta e cama. Só depois é que tratamos de nós. Faço o jantar, ele põe a mesa e passeia o cão. Sentamo-nos a comer, a ver televisão e a conversar.

Tudo gira em torno dela, fazemos o possível para que ela esteja satisfeita, para que durma as horas que é suposto, para que coma sempre a horas. Não almoçamos fora ao fim-de-semana como gostaríamos porque ela tem de almoçar e dormir a sesta. Não a maçamos com idas ao supermercado, a menos que seja coisa rápida, tratamos a nossa filha como se fosse uma visita de cerimónia e parece que estamos sempre desejosos que a visita vá dormir para que possamos estar descansados. Mas por outro lado é uma chatice quando a visita dorme porque depois temos de esperar que acorde para podermos sair de casa. Só que a visita veio para ficar e a vida em família nem sempre cumpre horários nem regras. E a família é constituída por três pessoas e não duas. E essa dinâmica é, para mim, o mais difícil. Vê-la como parte da família em vez de um ser planeta cujos satélites somos nós. Encontrar-me no meio desta confusão que é ter uma criança em casa, de ser mãe, de ter de dizer que não, de ter de dançar em vez de andar porque a minha filha acha que vive num musical da Broadway e que eu sou uma jukebox.

De repente, comer ao mesmo tempo que ela – ou ela ao mesmo tempo que nós, à mesa – tornou-se num dos maiores desafios da nossa vida familiar. Tão grande que ainda não conseguimos atingir o objectivo. Também ainda não dominamos a mestria de estarmos juntos também quando estamos com ela – normalmente está um com ela e o outro a tratar de assuntos, ou estamos os dois virados só para ela porque a menina precisa de atenção a todo o instante e eu não quero que ela cresça com falta de confiança.

Não é difícil pôr um ser humano no mundo, difícil é deixá-lo fazer parte da família. Isso e conseguir que tenha as unhas limpas.

5 comentários:

  1. Só me apetece partilhar vezes infinitas este texto no blog... É a realidade adversa, que nos faz crescer e evoluir.

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  2. Parabéns pelo texto, é o que acontece na minha casa, parecia que estava a ver a minha familia :)

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  3. Eu também sinto isso, e é por coisas como as que descreves que estou tão indecisa em engravidar segunda vez porque agora que o meu filho tem 5 anos e parece que o sossego voltou (apesar de nunca mais ser o que era), voltar a passar por tudo outra vez... sentir-me presa a essas rotinas e voltar a girar a volta de uma criança. Ainda por cima, nesse caso, 2 crianças... ufa! Vai ser preciso coragem :-)

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  4. Concordo plenamente. Até parecia que era eu que estava a escrever o texto. :)

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  5. Ainda hoje com 4 anos é dificil ter uma refeição em família, porque as saudades da mamã sao muitas que tenho de lhe dar o comer á boca e só no fim do 2 prato dele começo com a minha sopa fria... mimo dele? Sim, isso e so o ver durante a semana entre as 21 e as 22

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