quarta-feira, 15 de julho de 2015

Mas... o que é isso da Disciplina Positiva?

Comecei a tomar contacto com "isto" da Disciplina Positiva através duma amiga minha (obrigada CP), juntei-me a um grupo sobre isso no Facebook, fiquei mais curiosa ainda e comecei a ler um livro sobre isso. Algum tempo depois apareceu a Natália, fundadora inicial desse grupo, que além de bastante solícita, sempre muito informada nas respostas que dá a todas. Achei que poderia ser interessante para todas nós. 


Por que é que estou a entrevistá-la sobre Disciplina Positiva, Natália? Porquê a si? Vá, isto é uma maneira pseudo-discreta para pedir que se apresente e para dar motivos às outras mães para confiarem em si.

Imagino que me esteja a entrevistar porque leu algo que escrevi em resposta a alguma questão sobre educação ou porque mais recentemente ouviu algo que disse num vídeo ou num áudio que publiquei. E, além disso, imagino que outra razão  possa ser o facto de eu ser mãe de 4 filhos e de ter adquirido algum conhecimento sobre Disciplina Positiva e outras abordagens que podem fazer sentido às pessoas, mesmo sem saber o que significam ao certo. A curiosidade e a vontade de educar os filhos para um mundo melhor poderia ser igualmente uma razão. Não sei como é que as pessoas me encontram, mas espero que seja útil e, se gostarem da minha forma de estar e de não julgar, se calhar até ficam com uma ou outra ideia de como poder alcançar o sonho de educar os filhos da forma como idealizam em vez de cair em padrões de como foram educadas e que, no fundo, não querem repetir.

Sei que a Natália não acredita em "certificados", mas pode mencioná-los? Assim talvez consigamos chegar a mais mães que leiam a sua conversa com mais atenção. O que me diz?

As minhas qualificações mais importantes são os meus 4 filhos, o meu marido e outras pessoas chegadas que me ensinam a manter uma relação com eles de forma autêntica e compassiva, sempre que me é possível. E, provavelmente, os mais de 11 anos de parentalidade e comunicação não-violenta que tenho estudado na "escola da vida". Além disso, "formei-me" (são formações para  voluntariado e sem reconhecimento oficial de alguma "autoridade", acho eu :)) para ser moderadora da Attachment Parenting International (mais recentemente chamam isso de Parentalidade por Apego em Portugal, mas há anos dizíamos Educação Intuitiva) e  também da Liga La Leche. Também tenho estudado e vivido isto da comunicação não-violenta (com a BayNVC e com a "minha" professora Sarah Peyton www.empathybrain.com). Sou também educadora parental de Disciplina Positiva e estudei um ano num seminário avançado com o autor do livro Playful Parenting (Educar a brincar). Fiz mais coisas, mas enumerá-las, a meu ver, não prova nada. Por isso, comecei a fazer recentemente áudios e vídeos para que as pessoas me possam ver e ouvir, decidir se gostam de mim e das coisinhas que tenho para dizer. No fundo, quero que as pessoas descubram por elas próprias se aquilo que eu lhes apresento faz algum sentido.




Por que é que as pessoas associam a disciplina positiva àqueles "hippies que mesmo que mesmo que a filha bata, dizem que está tudo bem, apesar dela continuar a bater" (a frase é de alguém que nunca leu sobre isto)?

Na minha opinião, é pelo  desconhecido nos causar, muitas vezes, desconforto que resistimos essas coisas, por não sabemos o tipo de problemas que poderia causar. As pessoas tendem a associar a palavra "disciplina" a coisas más (eu associo à  imagem de um militar que grita para um grupo de soldados ;)) e, frequentemente, essas associações estão relacionadas com "algo que tem que ser aprendido de forma dura" e com a disciplina física (a tal palmada que não faz mal a ninguém por ex). No mundo da parentalidade parece haver muitos "extremistas": há os que defendem a não-violência e há os outros que acreditam que só com violência é que se chega ao destino.. Sendoo destino um adulto funcional e inserido na sociedade, digo eu.

O que é, afinal, a disciplina positiva? E por oposição a quê?

A Disciplina Positiva é uma abordagem que combina a amabilidade com a firmeza e que se baseia no respeito mútuo, no envolvimento das crianças na resolução de problemas e que se foca no desenvolvimento de pessoas capazes.

A Jane Nelsen (que escreveu grande parte do livros sobre a Disciplina Positiva, alguns em conjunto com a  Lynn Lott) fala em 3 abordagens principais de parentalidade. A Severidade que é o controlo excessivo, a Permissividade que significa a ausência de limites e a Disciplina Positiva baseia-se na firmeza com dignidade e respeito.





Todos os pais conseguem por em prática os pilares da disciplina positiva? Mesmo os mais enervados? Mesmo os mais cansados? Mesmo os que trabalham muito? É só uma questão de querer muito?

Bem, eu quero muito acreditar que sim,  que mesmo em circunstâncias difíceis é possível aplicar os conceitos da Disciplina Positiva. Digo isso porque a Disciplina Positiva protege os pais do cansaço extremo e permite guardarmos os nossos escassos recursos para quando forem mesmo necessários. A Disciplina Positiva defende que as crianças devem ser autónomas e encorajadas a contribuir para o bem-estar da família e para terem consideração por outros seres e também para com o planeta, diria.

Vejo a DP como um conjunto de linhas orientadoras e ferramentas que facilitam a vida à todos. Ajudam os mais enervados manterem a calma (por gritarem e ralharem menos), aos cansados permite encorajar os filhos a ajudar e fazerem o que sabem fazer sozinhos, aos que trabalham muito dá umas ferramentas valiosas para que possam aproveitar o tempo que têm de forma positiva (porque oferece boas ferramentas de gestão de tarefas e de conflitos e ensina  cooperação e o respeito mútuo). Quanto a ser uma questão de "só querer muito" não tenho bem a certeza, porque  acredito que, para atingirmos algo, às vezes é necessário orientação, suporte e dedicação, mas para isso estou cá eu e imagino outras pessoas que possam ajudar a manter o foco naquilo que queremos atingir. 

Contudo, o primeiro passo terá que ser dado pelos pais e depois sim poderá tornar-se numa viagem em conjunto com outros pais e com a minha ajuda da minha, se for desejado.

Falhar não é fracasso, certo? Na disciplina positiva pode-se pedir desculpa e tentar de novo, certo?

Na Disciplina Positiva vemos os erros como oportunidades de aprendizagem, focamo-nos numa possível solução em vez de apontar o dedo e procurar o culpado. Aliás, reconhecer perante os nossos filhos que erramos, ensina-lhes muita coisa importante, como por exemplo que os adultos não são perfeitos e que, muitas vezes, temos o poder de emendar os nossos erros, assumindo responsabilidade pelos nossos actos e aprender com isso.

Pode dar alguns exemplos de como aplicar a disciplina positiva para resolver as seguintes situações? Claro que tudo depende da idade das crianças.





- A criança que, no supermercado, não para de apontar para tudo e fazer birra caso a mãe não lhe dê as coisas para a mão.

Aconselho a ferramenta chamada "Escolha limitada". Pode dizer à criança que pode escolher entre duas coisas: ou brincar com o brinquedo ou ler o livrinho que trouxe (não se esqueça de ir prevenida). Às vezes deixava que os meus filhoa vissem fotos no telemóvel, durante as compras. Se os filhos querem ajudar nas compras, acho que é algo a encorajar, de forma adequada à idade. Quando uma criança pede coisas que não estão na lista, isso pode ser uma boa justificação. Ex.: a criança quer gomas, nós olhamos para a lista e dizemos "Ohhh não tenho aqui gomas na minha lista, eu acho que só compramos essas gomas para as festas de aniversário...e quando é que fazes anos? Ah já só faltam 3 meses e quantos anos fazes...". Com alguma sorte a criança ficou distraída ;)

Também quero chamar à atenção para o facto de que o tipo de relação que pais e filhos têm, tem muito a ver com este tipo de comportamento. Por isso, se quer mudar algumas coisas mais enraizadas na sua dinâmica familiar, mais vale pensar em investir um tempinho para participar num workshops ou num curso virtual para aprender algumas ferramentas novas e receber eventualmente orientação personalizada para que a mudança seja duradoura e à medida da sua família.

- A criança que não empresta os brinquedos a ninguém e que "tira os brinquedos de todos os outros".

Conheço poucos adultos que me fossem emprestar o portátil ou telemóvel, muito menos num parque público ou numa instituição (digamos no hospital ou na sala de espera nas finanças) ;).

Há muitas formas de lidar com uma situação destas, depende um pouco da personalidade do adulto e se o mesmo se sente capaz de optar por uma brincadeira ou se está numa situação desconfortável - pode estar rodeado de pessoas estranhas e querer ficar bem-visto. Aos olhos da Disciplina Positiva a partilha não é algo que se deva esperar antes dos 3 anos de idade e meso depois a aprendizagem da partilha é complexa e exige tempo e passos pequenos. Podemos modelar a partilha (e se pensar bem não é algo que as crianças observem com muita frequência) por exemplo na mesa ou durante o dia com outros membros da nossa família.

Também pode ajudar ter brinquedos que são para partilhar e outros que claramente que não. É igualmente importante aprender a respeitar que algo pertence a alguém e que não o podemos ter tal como é valioso saber partilhar. Mas tudo ao seu tempo e com a devida e necessária maturidade. Partilhar é um conceito complexo e podem-se partilhar mais coisas do que só brinquedos, não se esqueça de ensinar ao seu filho a partilhar sentimentos ou acontecimentos.


- A criança que não quer dar beijinhos aos outros familiares quando os vê.

Aconselho a ferramenta de oferecer uma alternativa (eu pessoalmente acho importante ensinar aos meus filhos que eles são donos do seu corpo e não têm que deixar, à partida, ninguém fazer nada que não queiram...e convido-o a pensar uns anos mais à frente quando, por exemplo, a sua filha já é uma adolescente e um rapaz pede beijos ou algo que ela no fundo não quer dar/fazer). Podia dizer, por exemplo, "Não precisas de dar beijinhos, mas podias dar uma festinha ou dizer olá (agora imagino familiares e amigos a derreterem-se igualmente com uma festinha do que com um beijinho). Forçar não me parece ser uma opção, por isso resta-nos pedir para a criança cooperar ou oferecer alternativas aceitáveis.


- A criança que não pára de chamar pela mãe enquanto a mãe não lhe responder e vai subindo o volume.

Dependendo da verdadeira disponibilidade da mãe, que tal prestar atenção ao que a criança precisa e depois continuar a fazer o que estava a fazer? Se for um problema constante ou muito recorrente aconselho a olhar para a razão deste tipo de comportamento e observar mais de perto a dinâmica familiar.


- A criança que não quer ir dormir e que faz uma birra enorme.

Agora teria que saber mais detalhes... Por exemplo, será que a criança está com muito sono e passou da hora de deitar? Será que a criança tem medo e não quer ficar sozinha? Geralmente há ferramentas que facilitam as rotinas, mas muito depende da idade e do tipo de desafios.



No entender da Disciplina Positiva, o que são birras?

A meu ver, uma birra é a expressão de frustração, de uma maneira algo infeliz. Na Disciplina Positiva defende-se que qualquer comportamento é, no fundo, um pedido para ser amado. Por isso, da próxima vez que o seu filho faça uma "birra" imagine que ele vestido tenha uma t-shirt a dizer, em letras grandes  "Só quero ser amado!"

Por que é que o castigo não funciona?

O castigo funciona (geralmente a curto prazo, porque a longo prazo causa danos indesejáveis para a maior parte dos pais), mas vem a com um preço que nem toda gente está disposta a pagar. O preço do castigo a curto prazo é uma disrupção imediata da proximidade e de diminuir ou até eliminar a vontade de cooperar por parte da criança. Qualquer bom comportamento que venha a seguir a uma palmada ou um castigo está baseado em medo de violência ou de retirada do amor parental. A mensagem dada a curto e a longo prazo é a de que o comportamento é mais importante do que a relação e que não queremos saber o que se passa com a criança, mas sim que só queremos que se porte bem. Assim, ensinamos valores que a curto, médio e longo prazo causam mais problemas do que resolvem.



O que faz uma palmada? Mesmo os "enxota pó" das fraldas são de evitar ou dar-lhes um incentivo para se desfocarem das situações é aceitável?

Uma palmada pode fazer muita coisa, dependendo do tipo de relação que existe entre o palmador e o palmado ;). E também importa se é a primeira palmada ou a milésima. Eu acho que a pergunta "O que vai aprender com esta palmada?" mais interessante para ser sincera, mas também sei que quando estamos sem recursos (exaustas e sem paciência), não é disso de que nos vamos lembrar.  Se calhar, podemos antes pensar a) o que podemos fazer se não queremos dar palmadas ou incentivos e b) o que podemos fazer se o fazemos na mesma? Neste caso eu ia responder que ter ideias e ferramentas para saber como lidar com situações difíceis sem recorrer a palmadas e incentivos exige alguma aprendizagem e estudo.  Mas vale a pena porque são ferramentas que ajudam a fomentar relações duradouras e saudáveis que se baseiam em respeito mútuo e assim tornam-se num modelo de estar na vida para os nossos filhos. Quanto aos casos em que já aconteceu, temos a oportunidade de aprender (e ensinar) como ser responsável pelos nossos próprios actos e em vez de dizer "A culpa de te ter dado uma palmada foi tua porque te portaste mal", podemos dizer "Peço desculpa por ter te dado uma palmada, no fundo nem acredito que isto melhora a situação e também não quero que aches que não te amo. Estou cansada e está calor e se calhar preciso um copo de água e duma uma pausa, podes ajudar-me?"

Não sou amiga de incentivos, pelo simples facto de colocar a motivação no exterior em vez desta ser interna. Isto é obviamente  um assunto complexo, mas de forma resumida pode se comparar ao "fazer algo de bom porque queremos fazer isso" ou se "fazer algo de bom porque queremos receber algo em troca". Eu prefiro que as pessoas actuem de forma genuína, sem quererem algo em troca.

O que devem os pais fazer para conseguir implementar as sugestões da Disciplina Positiva? O que pensar quando se erra?

O primeiro passo, no meu entender, é ter noção daquilo que é a Disciplina Positiva. Aprender os critérios e as ferramentas que a mesma oferece. Infelizmente o livro da Jane Nelsen - Disciplina Positiva está esgotado em Portugal e não me parece que vai ser re-editado tão cedo. 

Quando se erra, o melhor, digo eu, é  assumir a responsabilidade. Por isso,  procurar alguém que não nos julgue para poder expressar os nosso sentimentos e depois disso pensar numa maneira de aprender com o sucedido, pode contribuir para uma aprendizagem. Isto pode ser num grupo onde haja algum conhecimento sobre as ferramentas da Disciplina Positiva ou falando comigo, por exemplo.



Vai haver um encontro em breve, onde a Natália irá dar as suas dicas. Quer falar-nos nos detalhes e nos conteúdos? Estamos todas convidadas?

Vai haver dois eventos no mês de Julho, um é virtual no dia 18 de Julho e o outro vai ser em Oeiras no dia 26 de Julho. Vou falar dos critérios da Disciplina Positiva e de algumas ferramentas. Estarei disponível para perguntas e abordaremos situações que tenham surgido na vida das pessoas.

Estão convidados. No evento virtual há 25 lugares, mas quem não conseguir entrar pode ouvir a gravação. Em Oeiras não coloquei limite de vagas porque quero que as pessoas tenham a oportunidade de encontrar outras pessoas igualmente interessadas na Disciplina Positiva. Podem ver os detalhes dos eventos aqui.

Para além da disciplina positiva, que outras "correntes" sugere que as mães se informem ou tenham atenção?

A resposta mais sincera que posso dar é: "Investiguem SEM FALTA ;) o Educar a brincar (Playful Parenting)!"

Quer recomendar alguns livros para ler?

Infelizmente não há muitos livros em português que eu tenha lido acerca desses assuntos, eu leio muito em inglês e às vezes em alemão.


As nossas leitoras podem deixar dúvidas nos comentários que a Natália depois vem cá dar uma ajudinha? Ou, o que recomenda para que elas tenham ajuda quando precisarem?

Venho cá com todo o gosto responder aos comentários e para terem ajuda podem juntar-se ao grupo da Disciplina Positiva no facebook aqui e para ficarem informadas podem subscrever a minha newsletter aqui.

4 comentários:

  1. Excelente entrevista!Obrigado Nátalia pelas tuas explicações e parabéns pelo excelente trabalho "Joanas" que continuam a fazer, ao divulgar estas ferramentas tão importantes! Afinal de contas, é pelo futuro dos nossos filhos: Um mundo melhor!
    Fico muito contente por te ter mostrado este "caminho" e que estejas realmente a gostar, a aprender e acima de tudo a usufruir com a tua filhota!

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  2. Gostei das respostas da Natália. Firme e coerente. (Em relação à questão dos beijinhos, concordo em absoluto. Temos de parar urgentemente de obrigar as nossas crianças a beijar quem nós queremos!) Em relação ao grupo no FB tenho as minhas dúvidas. Acho melhor pesquisarem por fontes credíveis. Lá misturam-se muitas opiniões, temas divergentes e muito fundamentalismo.

    Beijinho

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    1. Quanto ao grupo do facebook, aplicamos recentemente algumas alterações e espero que alguns dos problemas sejam resolvidas desta forma. Mas obviamente o facebook tem limites. Podem sempre contactar comigo (se acharem que sou uma fonte credível) e certamente posso oferecer alternativas ao facebook. ;) Beijinhos, Natália Bravo

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  3. Identifico-me bastante com esta teoria. Anseio muito conseguir aplica-la no meu piolho :)

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