terça-feira, 25 de agosto de 2015

Não devia ser permitido filhos doentes!

Não consigo imaginar. Não quero. Cada vez que me meto, por segundos, na pele das mães que estão a atravessar doenças graves dos filhos, uma angústia apodera-se de mim ao ponto de ficar mal disposta e não conseguir comer. Se já quando a Isabel esteve uma semana internada com pneumonia (que nunca mais tenha de passar por nada igual), foi uma experiência-choque para todos...

Não devia ser permitido.

Tentei manter a calma, mas não foi fácil. Queria que ela mamasse e ela rejeitava. Na poltrona, ali ao lado, ouvia cada respiração dela mais sôfrega e o meu coração mirrava. Pela primeira vez não tive coragem de estar ao lado dela, quando foi picada. Achei que lhe ia estar a passar mais ansiedade. Ficou o pai. Eu fiquei do lado de fora da sala, a chorar muito, a ouvi-la gritar. Não foi melhor. Quis estar ao lado dela a sossegá-la com a minha voz, a fazer o que tem de ser feito, a ser mãe. A partir daí não desgrudei enquanto não a vi ficar melhor. Estive ali, durante a noite, a dar-lhe colo e aconchego sempre que precisava. A arder de febre, a chorar com dores. Lá percebemos que algo a estava a incomodar. Era o catéter. Fomos mudar o catéter, nova picadela. Dessa vez não fugi e falei-lhe com a voz mais calma que me ouvi na vida.

Ter um filho doente, faz doer-nos, além da alma, o corpo. Também nós ficamos doentes, mas fingimos que não. Fingimos que temos super-poderes e até chegamos a acreditar nisso. Mas, se pudéssemos, desmoronaríamos que nem uma torre de cartas. Não podemos. Nós não. E ficamos ali, firmes, fortes, a dar-nos a cada segundo. A tentar apaziguá-los. A tentar esconder-lhes a dor. A ser palhaços, para eles se distraírem. A pedir que sejamos nós e não eles. A querer trocar, sem hesitar um segundo.

Ter um filho doente, seja com uma pneumonia ou uma simples virose, faz-nos ser Mães. Mães daquelas que afastam os lobos nos sonhos deles. Mães com maiúscula. Mães feitas de camadas, impermeáveis, indestrutíveis. Mesmo que tenhamos uma lágrima prestes a sair.

Tê-los a arder em febre, no nosso colo, moles, com um choro em gemido que dificilmente conseguimos confortar, é dilacerante.

Passa. Não sei se nos torna mais fortes, como diz o ditado. Nem tudo o que não nos mata nos faz bem. Mas isto é ser Mãe. É ganhar calo. É estar. É pôr o coração ao alto e acreditar que tudo vai passar. Pensar que eles vão ficar mais fortes. Que faz parte. Não tarda muito, esta fase passa. Virão outras, das cabeças partidas. Nunca mais teremos descanso. 

*imagem WeheartIt


Ser mãe é conviver com o risco, toda a vida. Aguentemo-nos. Finjamos que temos super-poderes para que ao menos eles acreditem. 


7 comentários:

  1. Que texto mais bonito. Não sou mãe mas quero sê-lo, mesmo que tenha de fingir que tenho super-poderes, como a Joana diz. Parabéns pelo vosso blog! Adoro, são autênticas!!!!

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  2. Compreendo tão bem Joana, também passei pelo mesmo, filhote internado aos 11 meses com pneumonia. E sim também fiquei do lado de fora a chorar e a ouvir os gritos dele ao ser picado (umas 10 x porque não conseguiam apanhar uma boa veia). Aos 2 anos e meio novo internamento desta vez com gastroenterite aguda, mais de 8 dias com diarreia e vômitos e nada de melhorar, desidratou. Novamente a ser picado, desta vez consegui acompanhá-lo, não foi fácil mas lá consegui. Neste segundo internamento veio o outro lado, como manter uma criança de 2 anos e meio, cheia de energia para dar e vender sossegada? Sim porque este menino mesmo doente tem energia. Como fazê-lo entender que não podia correr, brincar, fazer traquinices quando tinha um cateter no braço ligado a uma garrafa de soro, pendurada num suporte? Pois bem aquele suporte caiu algumas vezes ao chão e o meu medo era o que o cateter saísse e ele tivesse de ser novamente picado. Não aconteceu, que bom. Este fim de semana teve febre, chegou quase aos 40º de temperatura, uma virose. Já ganhei calo, não o suficiente, nunca ganharemos o suficiente para lidar com as doenças dos nosso filhos. Fico sempre de coração apertadinho. Tem 4 anos e meio, mas doença têm sido mais espaçadas, já ganhou defesas. Começam outras preocupações, na semana passada foi ao seu primeiro passeio, 3 horas de viagem, longe do meu olhar e do olhar do pai. Ambos de coração apertado o dia todo, ambos angustiados e ansiosos para que o dia passasse depressa e o nosso menino regressasse a casa. Regressou feliz e a contar o que viu no passeio. Respirei de alivio, correu tudo bem. Tantas fases virão, e nunca, nunca mais teremos descanso. Resta-nos isso mesmo aguentarmo-nos.

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  3. Ser mãe de um filho com uma doença grave é viver com o coração apertadinho 24 horas por dia 365 dias por ano. É derramar lágrimas sempre que nos dão uma má notícia. É trazer o nosso filho para casa com aspiradores de secreções e sondas nasogastricas e fazer o papel de enfermeiros sempre que ele necessita. É olhar para médicos, enfermeiros, terapeutas e auxiliares como se fossem parte da familia. É ver o hospital como a nossa segunda casa. É saber que desde pequenos temos de lhes incutir que vivem com uma doença que os pode matar. É pensar todos os dias por quanto tempo o vamos ter ao pé de nós. É levantar a cabeça e acreditar que tudo vai correr bem e nunca, mas nunca deixar de lutar.

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    1. Que a vida seja generosa consigo! Fiquei com as lágrimas nos olhos a ler o seu comentário! Não sei se é o seu caso, mas tocou-me! Se é, então muita força. De vez em quando grite, grite e chore naqueles poucos segundos só nossos (no banho p.e.) porque também faz bem e descarrega!
      Que Deus a acompanhe e ajude nessa tão difícil jornada!
      São estas crianças que fazem parte das minhas orações - todos os dias -
      AND

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    2. Um grande beijinho, Tónicha! Força!!

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  4. Há dúzias de formas de chorar por um filho com uma doença. Viver um dia de cada vez e renovar a esperança a cada despertar. Desistir, nunca! http://alimonadadavida.blogspot.pt/2015/05/ha-duzias-de-formas-de-chorar.html

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    1. Não poderia estra mais de acordo consigo. Viver um dia de cada vez e aproveitá-lo ao máximo e o nosso lema e a nossa máxima.

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