domingo, 20 de setembro de 2015

Sim, sou muito ansiosa.

Vocês já repararam que a Joana Paixão Brás e eu somos muito diferentes nalgumas coisas. Apesar de, em teoria, concordarmos com o estilo de educação que queremos dar às nossas filhas, a Joana é livre e eu aprisiono-me. 

Não me lembro de ser de outra forma. E confesso que, até ter a Irene, adorava sê-lo. Quem assiste, vê apenas o quão intenso é tudo para mim, o quão rápido funciona a minha cabeça, o quanto "sofro". Mas eu sentia-me forte. Forte sempre que contrariava os meus receios. Ser ansiosa e subir a palco para fazer stand-up, por exemplo, era muito difícil para mim, mas retirava um prazer maior do que se me acobardasse.  Na faculdade, começava a estudar para os exames com um mês de antecedência e na semana anterior relaxava. Dava-me gozo ver toda a gente de pantanas e eu já estar resolvida. Senti, desde sempre, que a ansiedade fazia parte da minha personalidade. E sempre tive a dúvida: serei assim ou estou assim?

"Por que é que hei-de ser diferente se tudo me corre bem?" É verdade que evito imensas coisas por receios que não consigo visualizar (e, por isso, tornam-se monstros). Se calhar é por isso que não gosto de sair à noite, de levar o carro para Lisboa, de fugir à minha rotina, de experimentar comidas novas, de sair para fora da minha zona de conforto...  Até nascer a Irene, até viver com o Frederico (para ser mais honesta ainda), a ansiedade trazia-me problemas, mas sinto que também me trazia soluções. 

Sempre vi a minha ansiedade como um caminho para a eficácia. Nunca reparei que me estava a aprisionar, achei apenas que era diferente de toda a gente. Aquela "toda gente" que adora passear, ir para sítios com barulho, viajar e conhecer coisas novas. 

Nunca senti falta dessas coisas porque nunca me diverti quando as fiz. Ficava demasiado nervosa, não retirava prazer. Cheguei a ficar uma semana "em casa" quando fui a Malta e quando fui a Berlim também não conseguia passear sozinha. Do que tinha medo? Não sei. Tentei contrariar-me ao ir, mas não consegui mais do que isso. 

Estava conformada com a minha maneira de ser. Tinha já encontrado os meus truques para não sofrer com isto e já tinha arranjado formas de pensar que me permitiam não ver o quanto isto me estava a prejudicar. Por ser articulada e aparentemente confiante também ninguém me confrontava com isso. Acabava por mentir aos outros tão bem quanto sempre me menti. 

Agora é diferente. Está a ser. 

Com a Irene e o Frederico apercebi-me do quanto a minha ansiedade me prejudica e à minha família. Impossibilitava-me de olhar para a minha filha e de perceber o que se passava, antes de lhe tentar impingir 42 mil soluções que me vinham à cabeça. Ia deitá-la 43 vezes por dia, sem que ela tivesse sono e não conseguia porque não conseguia acalmá-la por eu não estar calma. A quantidade de regras que impunha ca em casa por causa do barulho só por ter receio que ela acordasse. O Frederico deu em doido, praticamente não o deixava sair do sofá durante as sestas dela sem o fazer sentir-se culpado por poder acordar a miúda. Quem está de fora apercebe-se de que isto poderia ser menos difícil se eu tivesse outra postura e tem também muitas dificuldades em compreender que não é uma escolha. O meu cérebro está habituado a funcionar assim. Por muito que o meu outro lado queira que as coisas mudem, também não sei como hei-de mudá-las. Gostava de ser menos ansiosa? Sim, mas como? Não me vou embuchar em comprimidos, tenho medo. Parte dos motivos que leva as pessoas a serem ansiosas (não sou psicóloga) é a vontade que têm em controlar tudo. Medicar-me está fora de questão. É importante "estar acordada" durante o meu processo de mudança, tenho mesmo de falar com o meu cérebro. 

Chorei muito com a Irene, o stress passava pelo leite e ela ficava stressada também, tivemos muitas mais dificuldades "que o normal" por este meu handicap. Sinto que não senti nada por ela quando ela nasceu porque a ansiedade também me tirou isso (apesar de saber que é muito comum e falei disso aqui). Nunca consegui ser racional em discussões, muitas das vezes ficava estupefacta com as coisas burras que me saiam da boca só por não conseguir pensar. Tenho imensas dificuldades em ser optimista, mas sem saber explicar porquê. Fui o meu maior obstáculo nos maiores desafios da minha vida. 

As coisas tinham que mudar.

Não é esta a mãe que eu quero que a Irene tenha. Não quero que ela fique com este ritmo de cabeça, com esta sensação de inquietude constante, quero que ela saiba apreciar silêncios quando está com outras pessoas e que consiga não achar estúpido ver um por-do-sol. Não lhe posso fazer mal, sou a pessoa que mais a ama. Agora é o momento para me tornar melhor. Afinal, a vida é longa também para crescermos, certo?

Estúpido é aquele que, fazendo as mesmas coisas, espera resultados diferentes.

Chega de ser "estúpida". Vou fazer algo por isso. Uma amiga falou-me de uma amiga que é psicóloga e, para além disso, que se formou em hipnoterapia numa faculdade de medicina. 

"Hipnose? Estás doida! Eu? Ahahah" - disse eu, imaginando um relógio à frente dos meus olhos e a minha figura de parva a fazer de "pomba gira". 

Dei uma hipótese. 

Querem que vos conte o resto? O que vos desperta mais curiosidade? Já foram hipnotizadas? 

21 comentários:

  1. Revi-me em tanta coisa neste teu exemplo. Cheguei ao ponto de dizer que estava tão consciente que "quase sentia o cabelo a crescer", era como se tudo fosse tão pensado que se gerava uma enorme bola na minha cabeça. Ultimamente procuro lidar com isto não lidando, proponho-me às coisas e evito pensar nelas até chegar a hora para não fugir. Tenho dúvidas em relação à hipnoterapia, gostava de depoimentos sinceros se funciona porque tenho muitos nós na cabeça e sou demasiado consciente para conseguir resolver a conversar apenas, sinto que teriam realmente de me conseguir desligar alguma coisinha. Prestes a ser mãe segunda vez (Carolina, 40 semanas chegam!) parece que está tudo a crescer em mim de novo! Obrigada pela sinceridade com que falaste do assunto, sinto-me um alien tantas vezes. Beijinho

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  2. Joana não estás sozinha...sou mãe...enfermeira...mulher...dona de casa...ansiosa até dizer chega! Acho que já deixei que se enraizasse, tento ser uma pessoa/mãe melhor mas nem sempre é fácil. Tenho que voltar á poção mágica...DESPORTO a minha C. já tem quase 15 meses e está na hora!! Força aí e depois dá feedback :)

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  3. Olha e já somos... muitas! Para além de ansiosa sou hipocondríaca crónica e de cada vez que a minha filha fica doente parece que o mundo desaba em cima de mim. Pensando nisso não te parece uma autêntica loucura ter filhos?!!!
    Mas, tenho um especial prazer, em passar por situações que não controlo mas que me dão muita satisfação, como passear sozinha numa cidade que não conheço. Disso gosto muito.
    Isto tudo para dizer, que uma das formas que tenho de controlar alguma coisa que desconheço mas quero fazer é mandar uma cobaia primeiro. :D Assim sendo vai lá fazer a hipnoterapia e conta como é que foi. Se resultar contigo, sou capaz de me colocar nisso.
    Vê lá é se não funciona como os ácidos, em que uma pessoa depois quer voltar e já está transformada numa laranja...

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  4. Olá Joana,
    Há muito que não falamos, é verdade, mas queria dizer-te que estou orgulhosa que tenhas tomado esse passo! É uma oportunidade que estás a dar à tua felicidade e à da tua família. A meu ver não é a Irene quem mais sofre com a tua ansiedade (embora possa ser stressante para ela) és tu. E enquanto pessoa, enquanto mulher, cidadã, ser humano, blá blá blá mereces ter alguma tranquilidade, para que consigas, como tu própria disseste, apreciar as coisas pequenas da vida e assim tentar ser mais feliz.
    Não sei se a hipnose funcionará, nunca experimentei, mas mesmo que não funcione, não desistas! A psicoterapia faz maravilhas e, se necessário, não digas logo que não aos fármacos. Deixa que o tempo e as experiências te digam se o caminho que estás a seguir é ou não o certo, e acima de tudo, tenta, nesses momentos, desligar nem que seja só um botão do complicómetro.
    Agora vai lá ser feliz, faxavôr.
    Bj
    marta

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  5. Olá Joana,

    Parabéns pela coragem, por teres consciência, e por procurares ajuda!
    Também sou ansiosa, sou, mas agora menos, mais descontraída.
    Agora quando olho para trás vejo que exagerei...
    É todo um processo de aprendizagem de nós proprias.
    Não é facil ser assim, sofremos mais...enfim.

    Queremos saber tudo!!!

    Bjs

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  6. Olá Joana,
    Nunca encontrei nada que espelhasse tão bem a forma como me sinto. É isto, sou ansiosa e control-freak. O meu filho tem 16 meses e eu para além de super-hiper-mega protetora, sou ansiosa, muito mesmo, e sofro com isso. Sofro e faço sofrer... A família acaba por levar por tabela. Vou aproveitar esta tua motivação e acho que vou tentar resolver o meu problema também!

    Um beijinho,
    Vera

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  7. Olá Joana,
    Acho que praticamente todas temos ansiedade em relação a alguma coisa ou em algum momento, a diferença é perceber quando é que é um sentimento normal ou quando se torna algo mais patológico, o que me parece ser o caso, visto o impacto que mostra ter na sua vida. É um óptimo passo querer mudar. Não leve a mal o que vou dizer, mas faz-se alguma confusão quando vejo as pessoas a negarem a ajuda de medicamentos na área da saúde mental. Faz sentido um diabético ou um hipertenso dizerem que querem ficar com níveis normais sem qualquer medicamento? Pense nisso :) Ou seja, com a ajuda de um profissional veja se precisa ou não, mas deixe que seja o especialista a decidir. Tal como o diabético não produz insulina bem, nem todos produzimos as substâncias necessárias para o controlo da ansiedade.

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  8. Gostei muito desta tua partilha... eu também sou ansiosa, mas já fui muito mais. O problema agravou-se há 2 anos quando a minha filha com 15 meses lhe foi diagnosticado um pequeno problema de saúde. Piorou bastante, porque infelizmente veja muito para a frente e os receios aumentam. Agora que já está com a doença controlada, estou a aprender a viver de modo mais descontraído, relaxado.

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  9. Joana,

    Apesar de só te conhecer por aqui percebi rapidamente que algumas atitudes que tinhas e que escrevias aqui no blog não eram "normais". És control-freak sim, exagerada e ansiosa com coisas que as pessoas acham normais e naturais. Acho que fazes mesmo muito bem em consultar um especialista! E vai contando coisas, há muita gente a sofrer como tu, a ser ansiosa por coisas mixurucas e a não querer passar isso para os seus filhotes.

    Um grande beijinho,
    RMM

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  10. Olá Joana. Sou tanto assim! Muito, muito ansiosa... tanto, que tudo culminou em ataques de pânico! Não desejo a ninguém! Mas decidi procurar um bom psicólogo, que me fez perceber os meus problemas e ensinou dicas muito úteis para lidar com eles. Nunca tomei medicação e hoje sou uma pessoa mais calma. Não posso dizer que já não sou ansiosa, mas realmente percebo melhor a minha mente e muitas vezes já consigo "dominá-la". Penso que consultar um psicólogo é um bom caminho para aprender a lidar com a ansiedade, pelo menos comigo resultou :) Beijinhos

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  11. Também eu sou muito ansiosa, não consigo desligar os meus pensamentos por um segundo que seja e consigo perceber de onde vem esta ansiedade, vem já da infância.aos poucos estou a tentar mudar para o mundo se tornar mais leve! Força a todos os ansiosos eh eh

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  12. Sendo na mesma um cliché e até um bocado sádico, parece que, quando vemos que não somos as únicas, aprendemos a relativizar.
    Sempre fui ansiosa mas não o sabia definir, só mais tarde. Até começar a trabalhar, controlava o meu ambiente. Depois tudo mudou. Uma experiência profissional fantástica mas com uma exigência indescritível e muito pouco reconhecimento (nem palmadinhas nas costas, só quando saí!).
    Agora, numa fase maravilhosa pessoal e profissionalmente, sinto-me mais dona de mim e das minhas emoções. Sou ansiosa na mesma, mas estou a tentar aceitar antes de sequer tentar mudar-me.
    Obrigada à autora e às comentadoras pela partilha.

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  13. Como eu a entendo perfeitamente...
    Eu sou 1000 vezes pior, pois sofro de agorafobia desde os 18 anos :-( (vou fazer 36), e quando tive o meu piolho há 3 aninhos ainda fiquei pior, pois para além dos problemas agora tinha uma pessoa que dependia de mim,e foi muito complicado, queria tanto o melhor para ele, que tinha medo de tudo, andava doida. Agora apesar de continuar com o mesmo problema,em relação ao meu filhote, já estou bem melhor, já não sou tão "protectora", o que se torna bem mais "leve" para ambos.
    Fico muito feliz de saber que conseguiu ultrapassar essa ansiedade toda. Muito feliz mesmo. ��

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  14. Revejo-me nesta descrição a 100% até ter um segundo filho. Aí deixei de poder controlar tanto as coisas à minha volta: à família adulta obriguei que se moldassem aos horários do primeiro. Não podia fazer isso a uma criança, mudar por causa do irmão!! Quem mudou fui eu, descontrai, vi que não fazia mal se não fizesse a sesta a horas x, que às vezes não dá para o banho, que nem sempre o jantar é às 7. Embora me socorra muito na rotina pq me ajuda a controlar o que me rodeia, acho que sou melhor mãe agora que deixei de ser tão rígida. Ter um 2 filho fez com que fosse melhor mãe para o 1!!

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  15. Olá bom dia....qual o contacto da psicologa sff tive a procura mas.nao encontrei ob8

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    1. Envie e-mail para amaeequesabeblog@gmail.com pff
      Obrigada

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  16. Bom dia qual o nome da psicologa sff

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    1. Envie e-mail para amaeequesabeblog@gmail.com pff
      Obrigada

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  17. Olá bom dia! Qual o contacto da Eugénia por favor? Obrigada Vanessa Sequeira Dinis

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