segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Como lido com as birras?

Sim, "a procissão ainda vai no adro". 
Sim, "vai piorar". 
Sim, "ainda vou morder a língua".
Sim, "tenho de esperar pelos dois anos. E pelos três."
Sim, "vou ver como elas mordem quando vier a irmã."

Sim, admito que ainda não sei nada. Sei pouco. Que cada criança é uma criança. Que cada um gere as crises familiares à sua maneira, de acordo com o que sabe e acha melhor. Mas, assumindo que não tenho experiência nenhuma com uma criança de dois anos e três anos (só tenho a experiência de uma criança de 22 meses), posso dizer-vos como lido com as birras da Isabel.




Não a ignoro.
Não grito.
Não desato à gargalhada. 
Não fico em pânico.
Não fico envergonhada.
Não lhe bato.
Não a imito, a gozar.
Não a ameaço.
Não faço birra.
Não lhe digo que ela é feia, nem má, nem um terror, nem que está impossível.
Não a ponho de castigo.

Respeito-a. Encaro como uma fase normal. Dura, difícil para nós, mas principalmente para eles. Para mim, fazer birras é bom sinal. É um sinal saudável de que ela tem emoções, vontades e necessidades. Está a desenvolver a sua personalidade e não sabe expressar-se de outra forma. O único entrave às vontades dela está a ser colocado pela mãe ou pelo pai. Mandar-se para o chão, chorar, tentar bater, mandar coisas para o chão está a ser a forma - a única que ela conhece - de expressar o seu desagrado. Não é nada contra mim nem contra o pai. É a frustração a falar mais alto. 

Falo com ela de forma calma.
Ponho-me ao nível dela. 
Às vezes dou-lhe festinhas.
Às vezes isso enerva-a mais e eu paro.
Digo-lhe que vai passar.
Tento abraçá-la.
Não lhe faço a vontade. 
Converso com ela. Explico.
Tento desviar-lhe a atenção para outra coisa.

"Filha, não podemos ficar mais a brincar no parque, está a ficar frio. Se apanhamos frio, ficamos com dói-dói e atchim. Em casa, podemos encher a piscina de bolas! Fazer uma chuva de bolas. Também vai ser divertido."
Passou. Às vezes não explico minuciosamente. Digo que não pode ser, mas tento logo canalizar a atenção dela para outra coisa. 
Não ganho nada em alimentar a frustração dela. Se gritar com ela, estou a deitar achas na fogueira. Se bater, estou a destabilizá-la ainda mais. E o que eu quero? Que a estabilidade volte. Que ela se acalme. 

Há quem diga que não temos de explicar tudo. Que "não é não". Mas, para mim, isso é pouco normalmente. Não quero que me veja como autoritária. Quero conquistá-la. Quero que confie em mim. Geralmente dou-lhe exemplos e modelos, que ela, devagarinho, vai compreendendo. Não queres vestir o casaco? A mãe tem um vestido, o pai também e até podemos vestir um ao cão. Tem de ser. Chora um bocadinho, às vezes não chora, às vezes tenho de forçá-la a vestir-se, mas passa. Acaba por passar.

No outro dia, perante uma birra da Isabel no cabeleireiro, uma mãe disse-me "ui, a minha comigo não faz farinha". A minha faz. Espero que faça pão, até. Não lhe faço as vontades, não volto com a palavra atrás, mas tento ser paciente. Não ganho nada em ser agressiva. Eles são o reflexo do que vêem e do que sentem. Não vamos juntar à árdua tarefa de crescer os nossos stresses. Nós temos o dever, enquanto adultos, de tentar controlar os nossos nervos. Eles não, estão a aprender a gerir tudo.

Sim, muito provavelmente vai piorar. Sim, muito provavelmente vou morder a língua. Sim, vou descontrolar-me algumas vezes, sou humana. Mas, para já, é assim que tem sido. E, até agora, tem resultado com a Isabel.

Coragem!

23 comentários:

  1. Só para dizer que concordo em tudo mas o meu fillhote também só tem 17 meses, só agora começou

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  2. Adorei... a minha filha com 14 meses está a começar com as birras, mas revi me muito na tua postura... posso morder a língua sim, mas acredito que de outra forma não se educa com amor. Tudo passa! Calma e paciência.
    Beijinhos
    JoanaG

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  3. Talvez este tenha sido dos melhores textos que li aqui. Bem, pelo menos é dos que gostei mais.
    Concordo com absolutamente tudo o que dizes e acho que fazes o melhor que se pode desejar.
    Ainda não consigo fazer as coisas tão bem... Às vezes estou mais cansada, outras até estou criativa e consigo distraí-la rapidamente. Às vezes ignoro-a. Nunca quando ela está a chorar a sério. Só quando ela abre a boca e faz "Ahhhhhhhhhhhhh" e aquilo não é grande coisa.
    para já, vou lidando com as birras, uma a uma, de forma diferente. Por exemplo assim: http://www.vinilepurpurina.com/2015/11/16/como-entreter-uma-crianca-de-19-meses-na-cozinha-ou-como-me-tornei-guru-de-educacao/

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  4. Isto faz tanto sentido para mim que nem imagina! Obrigada por trazer para p blog um tema para mim tão importante. Às vezes sou olhada de lado por tentar educar nestes moldes o meu filho. Acham que sou pouco dura, que sou demasiado permissiva e eu acho que não o sou. Acho que sou calma e levo-o, à minha maneira, a superar as crises dele. Não volto com a palavra atrás, mas deixo-o expressar-se e tento explicar-lhe e negociar. As birras para mim também não são motivo de vergonha, guardo isso para outros assuntos. Não está a ser mimado, está a ser criança e a testar-nos. Às vezes quase me consegue tirar do sério, mas finjo que não e disfarço. Acho que já me viu zangada e já se apercebeu que não fico feliz, mas não descarrego nele. Até agora tem corrido benzinho. 3 anos. Claro que também pode ser do feitio dele não fazer muitas birras, mas gosto de acreditar que também tem a ver com a nossa postura cá em casa.
    Beijinhos à Isabel e à Irene e à??? bebé mais nova
    Ana F.

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  5. Concordo em absoluto. Mas tenho descoberto que EU tenho muita dificuldade em lidar com a minha frustração de não conseguir que ele pare a birra.. Caio no erro de lhe dizer: já chega, não há motivo para essa birra (em tom muito mais agressivo do que deveria..).. Outra coisa com a qual estou a ter dificuldade é lidar com a agressividade dele. Não é quando está frustrado, é quando se entusiasma na brincadeira, começa a puxar os cabelos e a dar chapadas que magoam mesmo.. Já lhe disse mil vezes que não se bate, em vários tons desde o firme mas meigo ao já desesperado "estás a magoar-me tarda nada apanhas!!"... Não faço a vontade, mas tb não lido tão bem como desejaria.. :(

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    1. Faço minhas as suas palavras!! E quando a birra é na hora de sair de casa de manhã, a dificuldade ainda aumenta mais!

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  6. Conhece os Calming Jars? Aqui funcionam às vezes! Deixo aqui várias DIY, para experimentar com a Isabel! Bjs adoro o blog!

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  7. http://www.therealisticmama.com/11-awesome-calm-down-jars/

    Esqueci-me do link! Acho que vão gostar

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  8. Tanta mãe perfeita. Parabéns!

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    1. Onde???? Ainda não vi nenhuma..........

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    2. Mas pelos vistos algumas acham que são, as donas da verdade. Boa sorte...

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    3. Já cá faltava. Não é a mãe do cabeleireiro, não?

      Estou a tentar passar aquilo que tem resultado, até agora, com a minha filha. Salvaguardei uma série de coisas, o facto de ela ainda não ter sequer dois anos, a hipótese - muito provável - de vir a ter birras mais difíceis, a hipótese de me passar um dia com ela, por ser uma mãe como qualquer outra. ATÉ AGORA, tem sido assim. Se tenho tido sorte? Muita. Principalmente em conseguir manter a calma. E por conseguir ter alguma criatividade para acalmar o sofrimento dela. Não foi a minha intenção validar a minha prestação como mãe aqui. Sei que estou a fazer o melhor que sei e que consigo. Mas, quem sabe, se comigo até tem resultado (ATE AGORA) pode ser que estas dicas sirvam em alguém. Desse lado não servirão, porque já parte para tudo, pelos vistos, com cinismo, descrença e complexos (de inferioridade ou superioridade, não percebi bem). Boa sorte para si.

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    4. Até me sinto ofendida a mãe perfeita não era eu?!?! Que até tive direito a um post e tudo!!! Tenham lá calminha que a Joana fez se explicar muito bem e não foi em momento algum ofensiva! Não estressem a grávida que ela não merece!!! Sandra Gonçalves

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  9. Adorei;) Concordo,tento por em prática todos os dias! O meu príncipe tem 3 anos e asseguro: vai piorar! Mas com calma tudo passa;) Já perdi as estribeiras? Claro que sim, faz também parte do meu crescimento como Mãe.

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  10. A fase pior é dos três para os quatro. A fase da oposição. Muita coragem, paciência e nervos de ferro. Ninguém disse que ia ser fácil, mas adoro ser Mãe.

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  11. A fase pior é dos três para os quatro. A fase da oposição. Muita coragem, paciência e nervos de ferro. Ninguém disse que ia ser fácil, mas adoro ser Mãe.

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  12. Fez me tão bem ler este texto é que por vezes não sei já como lidar com as birras dos meus!!

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  13. Gostei de ler.
    Tenho uma de 7 anos que praticamente co meçou com birra quando a irmã nasceu (5 anos) por isso já se explicava e percebia bem.
    Mas a mais nova gente é assim qualquer coisa...mata-me a miúda... (24 meses)...não lido como tu mas gostava...tentp todos os dias ser melhor...mas está difícil

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  14. Cada criança sua sentença...
    Eu já tentei de tudo inclusivé palmada na fralda. O que é certo é que as birras continuam.
    Solução: tentativa erro. Começa-se de forma calma e vai-se aguentando até que a birra eventualmente acabe. Pelo meio há pais stressados, aos berros, cansados, etc...
    É esperar que a crise passe. A adolescência deve ser bem pior...

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  15. Não, Joana, a anónima viperina tem toda a razão. Não és uma mãe perfeita. Não és.
    Mas lidas com as birras da Isabel com interesse e respeito por ela, explicando o que deve ser explicado, munida de compreensão do que se passa no mundo e na cabeça dela. Tudo envolto num embrulho de firmeza e amor.
    Vezes haverá em que dás um berro interior que te abala as entranhas. Vezes haverá que reviras os olhos internamente com tanto vigor que te parecerá que batem no cérebro. Vezes haverá que vais ter de respirar muito fundo. Ir à rua. Mas vais aguentar-te, porque te vais lembrar do que ela está a passar, que ela só precisa de carinho, consistência e confiança. Precisa de apreender a exprimir as suas emoções de outra forma. Vais dar-lhe a maior arma que lhe podes dar para sua vida: o poder de se entender e de saber comunicá-lo.
    E depois haverá vezes em que falhas. Eu falho. Mas com a certeza que da próxima vez tentaremos fazer melhor. Porque não somos mães perfeitas. Nunca seremos. Mas tentamos.
    E depois há aquelas, as anónimas e as do cabeleireiro. Que não tentam ser mentecaptas. São sem precisar de tentar.

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  16. Há por ai muita besta...sem paciência e sem qualquer tipo de jeito para ser mãe!
    Conheço alguns casos...infelizmente.

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  17. Gostava muito, muito mesmo, de conseguir aplicar a disciplina positiva. Mas as birras diárias (gigantescas e mais do que uma vez por dia) de Agosto a Dezembro, foram impedindo-me de o conseguir. O desgaste é imenso, a paciência falha. Lá por casa não foram os terrible two, são os terrible three!!! Sou uma mãe imperfeita mas que tenta todos os dias ser melhor...

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