segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Quando caí em mim de que era mãe.

Claro que vamos tendo muitos destes momentos ao longo de todos os dias da nossa vida enquanto mães. Acho que nunca nos apercebemos totalmente do nosso papel ao mesmo tempo que estamos completamente mergulhadas nele, tanto quanto é possível estarmos. Há coisas que são muito marcantes para todas nós: o primeiro sorriso, o primeiro dente, os sons que fazem a dormir, a mamar, as gargalhadas, as trapalhadas... 

... mas este momento, até agora, suplantou qualquer outro. Lembrei-me dele ontem, quando estava a dar-lhe mama na poltrona do quarto dela. Olhei para ela e vi-a tão crescida, já tão adulta, mas ainda agarrada ao seu coelhinho. Já tão capaz de se expressar, de dizer o que quer, o que não gosta e que nos deitemos na cama com ela para brincar: "páqui papá, páqui mamã". 

Esta foi a mesma rapariga que me fez chorar, que me fez chorar todas as minhas entranhas e o meu coração - quase como se de um "regresso ao mundo dos vivos se tratasse, com essa mesma sofreguidão - quando há uns largos meses, também naquela poltrona e também a dar mama reparei que se estava a meter comigo. 

Um ano e pouco nesta fotografia.


Brinquei com ela e pisquei-lhe duas vezes os dois olhos. E ela? Ela piscou duas vezes de volta. 

Foi aqui que a minha vida mudou para sempre (outra vez), quando senti pela primeira vez a alma bricalhona, apalhaçada e traquina da Irene. A nossa primeira comunicação mais efectiva. Eu pisquei duas vezes os olhos e ela, que nem contar sabia, fez o mesmo, sedenta por mais, mais brincadeiras, mais piscadelas de olho. 

Tenho a minha filha ao meu colo desde que nasceu, mas senti que naquele momento é que foi o meu parto, enquanto mãe. 

Ela vive, ela brinca, ela imita, ela reage, ela quis fazer-me sorrir. 

Foi a primeira vez que falámos. Claro que já há muito tempo que dançávamos as duas pelos nossos dias, comunicando de uma maneira ou de outra, mas ali vi-a. Vi, pela primeira vez, a Irene. Não sou só mãe. Sou mãe da Irene. 


*este texto é lamechinhas mas não foi escrito pela Joana Paixão Brás. 

2 comentários:

  1. Também senti i mesmo. Só quando ele começou a interagir mais me senti mãe, porque ele já é uma pessoa. Mini, mas é! E brinca comigo, já não reage só ao que eu faço, ele próprio provoca em mim reações. Foi quando o senti como pessoa, separado de mim, que o vi como filho, e a mim como mãe. Até aí éramos uma simbiose, aparentemente comandada por mim, mas que no fundo sei que era mais comandada por ele, embora sem intenção. E é um momento feliz, mas ao mesmo tempo assusta-me porque ele vai cada vez mais ser ele próprio, e não o que eu induzo nele. Perco o controlo (ou a ilusão de controlo), mas ganho o prazer de ver uma pessoa crescer. É isso para mim ser mae, criar uma pessoa. Dar-lhe alento, forca, raízes e asas. E depois ficar a ver :)

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  2. Não consigo escolher um só momento. Talvez ele tenha existido, o momento mais marcante, o primeiro em que me senti mãe de um ser humano único. Mas não me lembro.
    Sinto-me mãe sempre que a minha filha olha para mim com um ar amoroso e diz"Mamã" e abraça-me em seguida. Sinto-me muito mãe nesses momentos.
    Parece que um dia estava a tomar conta de um ser estranho, sem me sentir mãe de forma nenhuma (isto durou muitos meses) e, de repente, era mãe desde sempre. Isto é tão complexo que não consigo encontrar as palavras certas para descrever o sentimento.

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