segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Quando é que me esqueci de que ela é pequenina?

Não sei se foi por estar cansada, com o desafio de estar pela primeira vez tantos dias sozinha com as duas, ainda por cima adoentadas e mais carentes (falei sobre isso aqui). Não sei se foi da quadra natalícia, que mexe muito comigo e me deixa um bocadinho triste (falei sobre isso aqui). 

Dei comigo à procura de uma resposta que me fizesse sofrer um bocadinho menos e que me fizesse voltar a olhar para a Isabel com o respeito que lhe tinha quando ela era bebé. Dei comigo a perceber que a ando a tratar com demasiada rigidez e autoridade (não confundir com coerência e disciplina, porque isso acho que é preciso), com brutidade, até, como se ela fosse um adulto a precisar de um abanão e de um puxão de orelhas (e eu acho que nem os adultos devem ser tratados assim...). Dei comigo a ter a certeza de que estou a exigir demasiado dela, a mandá-la calar, a pedir-lhe que pare de fazer birra, vezes sem conta.  

Eu não estou a ser a mãe que quero ser. Nem a mãe que ela precisa que eu seja.  

E, para que possa afastar a culpa de mim, e com ela levar a mágoa e a tristeza de não estar a ser quem quero ser, nem a construir a relação que quero com a minha filha, tive de fazer alguma introspecção e procurei fotografias dela quando ela era bebé. Tentei perceber onde e quando deixei de vê-la como uma bebé e passei a vê-la como alguém que tem perfeita noção do que está a fazer. Quando comecei a vê-la como manipuladora. Quando comecei a gritar com ela, a achá-la chata e até a ter raiva dela (ou de comportamentos dela).

Não tenho ainda respostas para tudo, mas fez-me bem chorar, descomprimir e voltar a apaixonar-me pela minha filha. Andava numa fase de algum desencanto, mesmo que com o coração a transbordar de amor e a ficar surpreendida com a inteligência e sentido de humor dela (o injusto que isto é, quando ela, mesmo com a minha gritaria, me adora a todos os instantes e me desculpa na hora).

Talvez tenha sido quando se começou a expressar melhor, a falar melhor. Talvez tenha sido quando começou a franzir o sobrolho e a dizer frases completas e bem estruturadas, a queixar-se, a zangar-se. Quando começou a fazer birras a sério, a bater e a dizer que não quer, que não gosta. Ela reproduz tudo o que vê, é muito autónoma e está naquela fase em que quer fazer tudo sozinha e diz mil vezes que é crescida e isso fez-me vê-la como alguém realmente muito desenvolvido e crescido. 

Ela nem três anos tem. É a minha bebé, a minha filhota. Está a processar tudo a mil à hora, não tem o cérebro desenvolvido o suficiente para conseguir articular a frustração. Está a conhecer os limites, a testá-los. Ela não nos quer mal, não nos quer chatear. Ela é uma querida. E eu amo aquelas pestanas, aquela gargalhada, aqueles olhinhos de bambi ternurentos. E, no fundo, aquela teimosia ainda lhe vai dar muito jeito no futuro. Espero que saiba valer a sua vontade, debater e argumentar, pela vida fora. Acaba por ser esse o treino agora. 

Via-a tão pequenina naquelas fotografias e no meu colo e vejo-a agora, tão desafiante e tão minha. Quero-a assim, aceito-a assim. E quero ajudar a fazer dela uma miúda e uma mulher segura, carinhosa, feliz.




(Isabel com 6-8meses) <3

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27 comentários:

  1. Acho que o primeiro passo é sempre esse Joana, o de pararmos e refletir/sentirmos o que é que está a acontecer, o porquê e o que podemos e queremos fazer diferente. A mim, ajuda-me olhar para a minha filha e, no lugar da birra, ver a manifestação de uma frustração e com calma e empatia procurar ajudá-la a lidar com a situação. Não é nada fácil, sobretudo quando estamos cansadas! Não quero gritar, não quero ameaçar, bater, castigar, então o que fazer quando a paciência e a empatia fugiram? Há situações em que desato a rir à gargalhada de tanto caos e gritos (dela) :) Parabéns pela forma como vês as tuas filhas ;)

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  2. Podia ter sido eu a escrever isto. Tenho sentido isto com a minha filha de 3 anos, sem tirar nem pôr. Custa muito.

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  3. Gosto tanto deste post,Joana.
    Também tenho um filho com quase 3 anos, e às vezes também me "esqueço" que é ainda um bebé... Andreia

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  4. Querida joana, como a compreendo. Os meus filhos tem um ano e meio de diferença. O menino nasceu ainda ela era uma bebé. Mas agora (ela ja tem 20 anos) noto que quando ele nasceu, embora dissesse que ela ia ser sempre o meu bebé, a passei a tratar como a "crescida" porque o mano era o bebé. Era muito dura com ela, nao admitia birras, choros, chateava-me com ela por nao dormir a noite toda (confesso que muito toldada pelo cansaço), muitas vezes senti essa raiva de que fala, achar que ela chorava para me manipular, quando na verdade, ela chorava porque tambem era bebe,tambem queria colo, mimo, queria ser tratada como a pequenina que era.
    Hoje em dia, olho para trás e vejo o que aproveitei com o meu filho bebé daquela idade e vejo que não aproveitei nada disso com ela quando tinha aquela idade, porque a via já como criança e não bebé e tenho mesmo pena.
    Acho que é muito importante respirar o e perceber que os bebés (que é o que sao nessa idade) choram, fazem birras e nao e por maldade nem para manipular, é preciso respirar fundo, fazer programas só as duas, dar-lhe mimos só a ela durante 1h todos os dias, deixando a luisinha ao cuidado do pai, para lhe mostrar que ainda é a bebe da mae. A Isabel so vai ter essa idade uma vez. Quando der por ela, ja vai ser grande, querer o espaço, independencia e a joana vai querer abraca-la e beija-la muito e ela nao vai querer! Aproveite agora!
    Beijinhos grandes e lembre-se: quem dá o que tem, a mais nao é obrigado!

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  5. No fim quem sofre são sempre os mesmos...

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  6. Como agradeço profundamente este posto nesta altura! Acabei de ter o meu segundo filho e temo (tanto, tanto) exigir do primeiro mais do que está ao seu alcance dar e fazer do alto dos seus pequeninos três anos. Vou lembrar-me do que li sempre que me sentir tentada a mais um 'pára com os pés', 'agora não posso', 'não faças disparates'... Obrigada Joana.

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  7. E para a ajudar ainda mais nesta fase deixo lhe um livro que ando a ler "Educar com mildfulness" que comprei no continente, pois apesar de não ter filhos sou educadora de infância numa sala de 2 anos e muitas vezes me debato com as questões que a Joana falou e dou por mim a refletir muito sobre elas. Parabéns pelo blog e por tentar todos os dias ser uma pessoa melhor

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    1. É da Mia! É uma das minhas resoluções para 2017, ler esse livro! 😘

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    2. Quero! Please. Prometo que o estimo bem.

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    3. Sabes Joana, tive o prazer de trabalhar com a Mia, há muitos anos atras , numa multinacional sueca em que ela era a responsável de recursos humanos ... do te posso dizer que tenho uma profunda admiração e respeito por ela , é que por vezes duvidamos se será mesmo assim , se ela também consegue por em pratica aquilo que anuncia , e garanto te que SIM !!!
      A Mia escreve tudo aquilo que por em pratica e é uma mulher fantástica , fazes muito bem em ler o livro .
      Beijinho

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  8. Pensei nisto ontem à noite quando a Constança adormeceu no meu colo e a foi colocar na cama dela... Tão bebé ainda... Tão pequenina... E toda minha :) fiquei com ela ao colo mais um bocadinho e acho que fez muito bem às duas...

    beijinhos

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  9. Não está sozinha, ao ler o seu texto revi-me completamente nele, palavra por palavra, até e que leu o meu pensamento.por vezes sentimos que estamos ao exaustas que olocamis tudo em causa, mas ser mãe é isto mesmo , se qssim nao acontecesse é que era de estranhar! Boas festas e tudo de bom

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  10. Não gostei de ler algumas partes... Penso como irá lidar a Isabel quando tiver acesso a essas mesmas frases. :-(

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    1. Do que mais me custou foi quando ela chamou manipuladora à filha.

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    2. Ela não chamou manipuladora à filha. Não percebi nada disso assim. Ela estava a enumerar as coisas que lhe passaram pela cabeça. Quem nunca pensou que os filhos os estavam a manipular, endrominar, que atire a primeira pedra. Quem nunca teve raiva/ vontade de os mandar janela fora que atire a primeira pedra. Daí a dizer-lhes/fazer isso, vai uma longa distância! Obrigada, Joana pela partilha. Tenho a certeza de que a sua filha vai adorar saber que a mãe dela fez esta reflexao para melhorar.

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  11. Sinto exactamente o mesmo. ..1 com 8 anos e 1 com 8m...

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  12. Possas agora fizeste me chorar😢
    A minha pequenina tb ainda não ten 3 anos e às vezes dou por mim a agir como se ela já fosse adulta!! E de facto tb não é a mãe que quero ser para ela...mas acho que ainda vou a tempo de melhorar👩💕💞
    Cátia

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  13. Ai Joana é tão difícil gerir dois filhos com idades próximas. Hoje também gritei e exigi mais do JM porque ou não quer comer, ou não quer arrumar os brinquedos, ou entorna a água depois de ser avisado mil vezes. Eu que nunca bati e não ameaço com palmadas (que nunca irei dar), até hoje o fiz... Disse que ia dizer ao pai Natal que podia vir buscar as prendas dele... Enfim, fez muitas birras, teimou muito, mas depois é um miúdo super querido e meigo. Assim que o pai chegou, peguei nele e fomos os dois ao supermercado desanuviar. Ele andou a puxar o cesto todo contente, pediu algumas coisas mas ei expliquei não não podia ser e ele aceitou super bem (um amor). Enfim, temos de ter mais essa consciência, de que são uns bebés, maiores claro, mas a precisar de toda a nossa paciência e carinho. Vou ver desse livro tambem!

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  14. Os meus filhos fazem diferença de 3 anos... O mais velho doi sempre muito meigo, amoroso e atento... Mas com a minha chegada da maternidade tudo mudou.. Começou a ficar mais rebelde, a fazer birras... E eu cansada, sem paciência... Gritava a toda a hora... Hoje, tem 6 anos, olho para ele e da-me vontade de chorar, está tão crescido... Tenho orgulho no meu rei... Muito orgulho... E pena, acho que o massacrei, acho que exigi demais do meu menino... Enfim... Mãe a tempo inteiro.

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  15. Olá, há uns 2 meses dei por mim a ter alguns dos comportamentos que relatas em relação ao meu filho (escrevi aqui sobre isso: http://automaebilista.blogspot.pt/2016/11/as-vezes-nao-sou-mae-que-ambiciono-ser.html ).
    Tenho consciência de que ele passou por várias mudanças e que isso se refletiu no seu comportamento (entrada na creche, menos tempo com o pai, menos tempo em família, menos tempo de passeios comigo). Eu, em vez de tentar elevar a minha capacidade de compreensão e de paciência, ressenti-me com a ausência do pai, comecei a ter menos tempo de qualidade com o meu filho (mais coisas para fazer em casa sozinha), comecei a estar irritada muitas vezes, com tolerância próxima do zero, comecei a gritar... E quando olhei para aquilo que "estava a ser", tentei contrariar. Isto é recente, por isso ainda não estou no meu melhor nível :), mas foi um passo importante para rever o meu comportamento e alterá-lo. Acho que é fundamental reconhecermos o que estamos a fazer menos bem e querermos mudar, e isso já o fizeste. Agora, só pode melhorar.
    Por aqui, as 2 últimas semanas foram melhores, muito melhores. Mas é como dizes, há coisas que não posso permitir, digo-lhe de forma objetiva o que não permito. Ele continua a fazer birras (menos), mas (parece-me) começa a perceber que há coisas que não valem muito a pena. Há vezes pergunta-me: estás zangada? Eu respondo: filho, há coisas que não gosto/ filho, tentei conversar contigo/filho, tentei perceber o que se passava, mas tu é que fizeste a birra, tu é que deves estar zangado... Estás zangado? Ás vezes ele responde outras abana a cabeça e cala-se.
    Gostei muito da "estratégia" de olhar para fotografias deles em bebés...

    Espero que corra tudo bem.

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  16. *às vezes pergunta-me (em vez de: há vezes) e *às vezes ele responde(e não ás vezes)... isto de escrever "a correr" dá muita asneira...
    Auto-mãe-bilista

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  17. Tenho 3 filhos. Um com 17, outro com 9 anos e uma menina com 23 meses e tb sinto que grito de mais, que exijo de mais do do meio e não tenho a paciência que devia ter com ele..

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  18. Parabéns por ter a coragem de expôr o lado "não perfeito" da maternidade e por conseguinte por se expôr. E parabéns por ter assumido a estratégia que usou para se reapaixonar. Obrigada.

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