terça-feira, 17 de janeiro de 2017

"A gaguez pega-se por ouvir outros a gaguejar"

É verdade que quando ouvimos uma pessoa a gaguejar podemos ter tendência a fazê-lo, porém não ficamos gagos. 

Existem vários factores de risco que têm um papel fundamental na gaguez, como factores genéticos, neurológicos, do ambiente social e familiar. O facto da Joana (Paixão Brás) ser uma pessoa que gagueja pode influenciar a Isabel e a Luísa tendo em conta estes factores. Também teremos de ter em conta que a gaguez afecta mais os meninos que as meninas (mais ou menos, numa proporção de três a quatro meninos para uma menina).

gaguez


GAGUEZ 

A gaguez é uma perturbação da comunicação, que está incluída nas perturbações do Neurodesenvolvimento no DSM-V (Diagnostic and Statistical Manual Mental Disorders) caracterizada pela interrupção do fluxo do discurso, através de repetições, prolongamentos e/ou bloqueios (por vezes, acompanhada de outros movimentos associados, piscar de olhos, movimentos atípicos com o corpo, entre outros). Associados a estes comportamentos físicos, temos os possíveis sentimentos por parte de quem gagueja. Vergonha, frustração, raiva e em alguns casos, uma sensação de isolamento, nem que seja pelo sentimento de incompreensão, reforçado pelo enorme desconhecimento da maior parte da população em relação a esta condição.

De forma generalizada, a gaguez surge entre os 2 e os 4 anos, depois de a criança já ter começado a falar. Em 80 % dos casos desaparece pouco tempo depois, estimando-se que 4% das crianças atravessem uma fase em que repetem ou prolongam sons, ou que fiquem 'presos' quando tentam falar. Ao aparecer na infância (aproximadamente, 5 % das crianças) pode, posteriormente, prolongar-se e agravar-se durante a vida adulta, tornando-se assim crónica (1 % da população mundial). Desta forma, aos 3 anos é normal existirem algumas hesitações ou repetições na fala, essencialmente quando a criança quer construir uma frase mais complexa, dizer uma palavra mais difícil, quando quer contar muitas coisas ao mesmo tempo, quando está entusiasmada com alguma coisa ou quando tem de falar rapidamente. Por isso é importante dar atenção às crianças em que isto acontece. Dar atenção é parar, olhar bem para a criança e ouvi-la. Não a interromper, pedindo que fale devagar ou terminando as palavras pela criança. É preciso esperar, dar tempo. 

Quando a criança está a adquirir a linguagem também é natural que a sua fluência ainda se esteja  a desenvolver. Podem verificar-se maias pausas, mais silêncios, hesitações ou as repetições serem mais prolongadas, principalmente na altura do boom linguístico (aproximadamente aos 3 anos). Também aqui cada criança é única, sendo que umas apresentam um discurso mais fluente que outras. Ao longo do desenvolvimento da linguagem, a criança vai praticando e desenvolvendo a fluência.

A gaguez pode aparecer isoladamente, não existindo mais nenhum problema de desenvolvimento, ou aparecer em conjunto com outras dificuldades da linguagem, fala, processamento auditivo central ou em crianças hiperactivas.  

Durante o período de aquisição e desenvolvimento da linguagem podem surgir dois tipos de gaguez: a gaguez fisiológica (também designada de disfluências normais do desenvolvimento) e gaguez de desenvolvimento.  Na gaguez fisiológica ou natural espera-se que haja recuperação espontânea no espaço de seis a doze meses. Se a partir daí a criança não recuperar, podemos estar perante uma gaguez de desenvolvimento.

A gaguez é involuntária, não havendo controlo sobre a própria fala. No entanto, sabemos que, normalmente, a gaguez não aparece quando a criança canta, faz teatro, fala em coro ou fala com objectos inanimados ou animais.

Na maior parte das crianças a gaguez aparece antes dos 10 anos, sendo mais comum entre os 2 e os 7 anos de idade. A criança começa, de forma gradual ou súbita, a repetir os sons iniciais, as palavras no início da frase e as palavras mais compridas mas ainda não tem consciência da sua dificuldade. À medida que a gaguez evolui, as disfluências ou interrupções tornam-se mais frequentes e a gaguez ocorre em palavras ou frases mais significativas. 
Quando começa a ter consciência que gagueja, a criança começa a ter medo de falar, e por isso evita gaguejar, pode manifestar tensões ou tiques nas várias partes do corpo, na tentativa de marcar o ritmo da fala com o corpo (pestanejar, piscar, fechar os olhos, evitar o olhar, tremer os lábios, mandíbula ou língua e ter movimentos tensos com a cabeça, braços, dedos, pernas ou bater o pé).


CAUSAS 

Existe uma imagem estereotipada de que a gaguez terá origem na ansiedade e no nervosismo. Contudo, a ansiedade e nervosismo são consequências da gaguez e não causas.
Investigações nas áreas da genética, neuro-imagem e coordenação motora têm vindo a demonstrar que poderemos estar perante uma perturbação causada por um problema de integração dos ‘circuitos neurológicos’. Circuitos que transformam a linguagem em  suaves movimentos motores sincronizados (fala). Sabemos ainda que muitas das pessoas que gaguejam poderão ter uma predisposição genética. Estes factores em conjunto com o desenvolvimento da criança e o meio ambiente, poderão explicar o início e permanência deste quadro clínico.


ESTRATÉGIAS PARA AJUDAR A CRIANÇA

- Falar de uma forma relaxada e suave;
- Esperar 1 ou 2 segundos antes de responder a alguma pergunta da criança;
- Introduzir no próprio discurso algumas pausas, que se revelam de grande eficácia na modelagem do discurso da criança.

É muito importante para a criança que gagueja, sentir que as pessoas com quem se relaciona, com quem comunica, têm disponibilidade para a ouvir. É fundamental que ela compreenda através do comportamento verbal e não-verbal dos pais que não há pressa, que há tempo para comunicar e por este motivo é valioso que pais ou figuras substitutas promovam um período regular, criem uma espécie de rotina, uma ‘hora’ em que mais nada importa, a não ser ‘estar’ com a criança. Dar-lhe atenção exclusiva, sem divisões e tornar esse tempo, seguro, construtor de uma relação mais forte e estreita que permita à criança perceber que aqueles que são os seus modelos, as pessoas que mais ama, gostam de brincar, falar ou simplesmente de a ouvir.

Resumindo, quando pedimos à criança que fale devagar, com calma, estamos a dizer-lhes que não fala bem, como se errasse quando fala. Estamos assim a não permitir que ela fale de forma natural e espontânea. A partir daqui podem surgir mais disfluências, aparecer o medo de falar espontaneamente e um novo modo controlado e tenso de falar.


MITOS SOBRE A GAGUEZ
A criança gagueja porque pensa mais rápido do que fala.  
A criança começou a gaguejar desde que apanhou um susto.
Quem gagueja é menos inteligente.
A gaguez não se pega por ouvir os outros a gaguejar. 
Ajuda dizer: "tem calma, respira fundo, fala devagar, pensa antes de falar".
A gaguez desaparece com o tempo, é melhor ignorar. 



Quando a criança apresenta alguns ou todos estes sinais, os pais deverão procurar um profissional (terapeuta da fala) especializado em gaguez, para que este forneça estratégias e determine qual o melhor tratamento. 



Referência
(20/20 Co-anchor John Stossel joins the Stuttering Foundation to lead this year’s awareness campaign. His new book, Myths, Lies, and Downright Stupidity – Get Out the Shovel – Why Everything You Know is Wrong, is being released today – Stuttering Foundation)

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