segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

À minha amiga que perdeu a bebé, antes que ela nascesse.

Escrevi, há um ano e meio, esta carta à minha amiga que perdeu a bebé. Há uns dias essa amiga deu a cara, pela primeira vez, para falar publicamente sobre este assunto, ainda tabu na nossa sociedade. Não queremos falar da morte, fugimos dela a sete pés, não deixamos que os outros façam o luto, não sabemos enfrentar uma mãe e um pai que perderam um filho, antes dele nascer. E começa logo nos hospitais, com o pessoal de saúde, muitas vezes com pouca sensibilidade para o tema. Não há sequer infraestruturas para que uma mãe que tem de passar por um pesadelo destes não tenha de estar lado a lado com mães que acabaram de ter os seus filhos. Ouvem chorar, ouvem o milagre da vida acontecer, mas vão para casa sem os seus bebés, com o colo vazio. Depois, amigos e família, que se apressam a dizer que tinha de ser assim, que a natureza é sábia ou que não tarda muito virá aí outro bebé... 

É certo que neste blogue celebramos a vida, desanuviamos com disparates, mas sinto necessidade de chamar a atenção para esta questão também, que se tornou minha, há ano e meio. 

A história da minha amiga e a história de muitas outras mulheres, aqui

A carta que lhe escrevi há um ano, longe de saber todos os pormenores. 

Corajosa, Manuela. 

Alice dos nossos corações.


"Vivi, no final desta gravidez, um sentimento contraditório enorme. Uma amiga perdeu a bebé, já com 26 semanas de gestação. Não conheço a dor de perder um filho. Quando recebi a notícia, a sentir vida a pulsar dentro de mim, no meio de pontapés e mais pontapés, foi desolador. A vida e a morte, ali, frente a frente. E eu, do lado bom, da sorte, da felicidade, da vida...

Escrevi-lhe um texto e resolvi agora publicá-lo também aqui, para as dezenas de mulheres que têm de passar por esta dor e que dizem ser muito difícil de sarar. Uma dor tantas vezes incompreendida pelos outros, como se um filho não fosse sempre um filho... 

"Quis estar contigo hoje, dar-te aquele abraço, umas festinhas, partilhar as minhas lágrimas e o meu olhar de dor contigo, falar-te baixinho, passar-te a minha força. Não pude estar presente - já não estou autorizada a fazer viagens de carro para longe sozinha e não consegui companhia. 
Mas quero que saibas que me despedi da tua filha, daqui. Abracei-te mil vezes e pedi que a tua tristeza desaparecesse, todos os dias, um bocadinho mais. Não sei o que é estar aí, nesse lugar, no teu lugar. Nem me consigo colocar na tua pele, de tão grande que é o aperto. Nem estou perto de imaginar que dor é essa. Felizmente. Infelizmente para ti, tiveste de ser tu a passar por ela. "Acontece muito", "a natureza é sábia": vais ouvir de tudo e nada vai parecer amenizar essa dor. Chora, revolta-te, manifesta-te, grita, pergunta porquê, porquê tu, porquê a tua A. Faz o luto. Pede ajuda. Pede abraços. Pede silêncio. Vive, mesmo que pareça que nada faz sentido. Não faz sentido. Mas estás cá. Eu estou cá e cá estarei para te ouvir, quando quiseres. Cá estarei e o meu coração - e o que bate dentro de mim - será sempre um bocadinho teu."


Força, força a todas as lutadoras desse lado. Algumas delas - porque sentimos que é preciso dar rosto à perda gestacional - partilharam as suas histórias connosco, neste post: Bebés que não chegam a nascer.

Se precisarem de ajuda, não hesitem em contactar o Projecto Artémis.


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19 comentários:

  1. Tive uma perda gestacional com 6 semanas.
    Nada comparado com essas mulheres coragem!
    Mas foi a minha perda.
    Ainda não sei lidar com isto. Tenho medo de pensar no assunto. Camuflei.
    Foi a minha perda.

    Obrigada a todas elas pela partilha, tão mas tão corajosa ❤

    Filipa

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    Respostas
    1. Seja com 6 semanas ou 26 semanas era o seu bebé.
      Com 6 semanas não é “obrigada” a falar do assunto porque supostamente menos pessoas o saberiam. Há quem diga que é melhor assim. Fingir que não se passou nada. Por mim não concordo, mas é apenas a minha opinião. Eu perdi um filho com 23 semanas e espalhei a notícia desde o dia que fiz o meu teste de gravidez com 4 semanas. Foi assim da primeira gravidez ( que perdi) e depois do meu filho que nasceu na gravidez seguinte. Sempre achei que queria que todos soubessem para o bem e para o mau. Queria que todos percebessem quando andava feliz porque estava grávida mas queria também que todos percebessem a razão de estar triste quando perdi o meu primeiro filho. Foi mais fácil asssim fazer o meu luto. E seguir com a minha vida ( sem nunca esquecer aquele primeiro filho que perdi.)
      Muita força Filipa.
      Vá ao fórum da Ártemis. Vai lá encontrar muitas mais mães que perderam os seus filhos em diferentes etapas da gravidez. Não é obrigada a participar. Mas por vezes ler outros testemunhos faz-nos sentir menos sozinhas.
      Um beijinho nesse coração sofrido

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    2. Filipa, tive 4 perdas antes das 10 semanas em dois anos e pouco...os estudos todos inconclusivos, aparentemente nenhum motivo! Tive a sorte de ser acompanhada por um excelente profissional que nunca me deixou desistir e sempre me apoiou, de ter companheiro 5estrelas que esteve sempre comigo em todos momentos! Hoje enquanto lhe respondo tenho a minha princesa nos braços e por isso lhe digo: se é isso que quer não desista!!!! Abraço 🤗

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    3. Obrigada pelas vossas palavras de conforto!
      Aos poucos vou lidando com esta situação. Sei que com o tempo sei que tudo vai ao seu lugar.
      Quero acreditar que serei capaz de voltar a tentar!
      Sou acompanhada e ajuda sem dúvida!

      Beijinho no coração ❤
      Filipa

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    4. Beijinho Vânia! Toda a felicidade do mundo e obrigada pelas palavras!

      Filipa

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  2. Por aqui acompanhei alguém que "perdeu" a filha no dia previsto do parto... eu espectadora... grávida de 2 semanas... fiquei sem chão... não sabia como a reconfortar... ainda hoje passado um ano sempre que estamos juntas não sei... ajudei a sempre a fazer o luto e a avançar...
    A todas as mães e pais, que passaram por qualquer tipo de perda... um abraço forte❤

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  3. Hoje uma amiga enviou me este link.

    Esta história é quase idêntica a minha história.
    Perdi o meu bebé com 21 semanas de gestação.
    É verdade no hospital não sabem lidar com o que nos está a acontecer. Desde mal tratada pela equipa médica que me atendeu até que alguém com sentimentos me ajudou é apoiou. É me levaram para um piso onde não há bebés.
    Esta minha amiga estava grávida.Gosto de acreditar que hoje a bebé dela tem um bocadinho de mim.
    Infelizmente há um mês atrás tive outro aborto mas desta vez porque havia uma má formação.
    Um dia vai chegar a minha hora, não vou desistir.

    Raquel

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  4. Perdi os meus primeiros bebés às 8 semanas e quem me acompanhou referiu "é absolutamente normal na primeira gravidez! Só à terceira perda é que vamos investigar o que se passa!" "é a natureza a fazer o trabalho!". E pensei " terceira vez?!" De facto a sensibilidade por vezes não é a melhor... Mudei de obstetra no dia a seguir e não passei nenhuma segunda ou terceira vez pelo mesmo. Hoje tenho dois amores que me preenchem e completam a 1000% mas a recordação continua cá. A imagem da ecografia vive diariamente na minha cabeça e no meu coração. Resguardei-me no pensamento que "a natureza sabe o que faz" e ajudou-me a ultrapassar. Mas a verdade é que nunca se esquece, aprende-se a viver com isso! Um beijinho para todas que viveram ou vivem com este sentimento. Cada dia que passa é muito melhor que o anterior!

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  5. Perdi uma gestação gemelar as 23 semanas. Duas meninas. Entrei no hospital com um barrigao e saí de lá vazia de corpo e de alma. Acordar no dia seguinte com a mama do lado a fazer CTG é uma lágrima rolou cara abaixo. Chorei muito mas baixinho. Ouvi coisas duríssimas como foi melhor assim, já viste a trabalheira que isso ter. Enfim. Depois disso uma perda as 6 semanas. Muito mau fisicamente mas menos duro para a alma. Depois disso nasceu a minha princesa Lúcia que também é de março de 2014 e aí quem quase morreu fui eu. Infeção no útero pós cesariana, histerectomia, peritonite, muitas transfusões de sangue. Mas cá estou eu a contar a história, muito feliz com este final.

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  6. Perdi um bebe já com 3 meses, por um problemas na utero. A notícia foi dada de uma maneira inacreditável: "ahh e um rapaz, mas olhe o coração não bate" o mundo caiu me nos pés.. Fiz os tratamentos para poder engravidar com segurança novamente e hoje em dia já tenho a minha benedita :D e horrível, foi horrível, mas hoje a minha benny já tem 3 meses e é o amor da minha vida.

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  7. Tive uma perda às 21 semanas. No hospital onde estive - São João, no Porto - do que percebi, têm duas alas na Obstetrícia e tentam, dentro da capacidade existente, separar os casos com bebé e sem bebé. Confirmei isso dois anos depois, quando tive a minha filha, prematura de 25 semanas, e me colocaram novamente na ala sem bebés (não tinha a minha bebé comigo, naturalmente).
    Pode haver alguma falta de sensibilidade mas não é apenas nestes casos. Faz parte dos profissionais de saúde, como forma de defesa, também. Acho que temos também de ver as coisas pelo prisma dos profissionais, que lidam com casos destes diariamente.
    Não tenho, ainda assim, qualquer tipo de queixa do tratamento que recebi, e achei-os sempre cuidadosos.
    Mas confirmo que falar sobre o assunto é algo complicado, em especial nos primeiros tempos.

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  8. Eu conheço dois casais que perderam os primeiros filhos com mais de 30 semanas de gestação. Que dor imensa deve ser, inimaginável :( Nunca tive coragem de falar sobre isso com eles, mas seria toda ouvidos se me quisessem falar dos seus bebés que nunca chegaram a nascer. Com outra amiga que perdeu com 20 e poucas semanas falei e falei muito porque vi que ela precisava e queria falar sobre o filho que nunca conheceu. Um tema muito doloroso e triste, gostava que existisse mais apoio e sensibilidade a nível hospitalar para lidar com essas situações.

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  9. Perdi o meu filho com 35 semanas! O mais difícil de tudo foi explicar à minha filha de quase 5 anos.... mas espero, assim que soubermos o que se passou (estamos à espera das últimas análises, está quase a fazer um ano) dar finalmente um irmão à minha filha! Força a todas as mães que passam pelo mesmo beijinho

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  10. Depois de 2 anos a tentar engravidar do meu segundo filho perdi-o a 2 de janeiro deste ano, às 11 semanas... muitas pessoas me disseram que er o que tinha que ser, melhor assim do que vir com problemas, a natureza é que sabe. Sofri. Muito. A minha família ajudou-me sempre a tentar ultrapassar mas as noites eram infinitas e assim o foram durante meses. As lágrimas do meu pequenino de 6 anos quando lhe dissemos que a doutora se tinha enganado e eu não estava grávida (como lhe podia explicar o que tinha acontecido?) ainda hoje me dão um nó na garganta. Hoje faço 35 semanas da minha terceira gravidez. Gravidez essa que tenho vivido com bastante pânico... por ironia do destino o meu terceiro bebe nascera por volta da altura em que perdi o meu segundo... a dor, não a desejo a ninguém. “Só” tinha 11 semanas mas era o meu bebé, tão mas tão desejado... força a todas ❤️

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  11. Olá Joanas! Tenho um blog https://translocacaodoamor.blogspot.pt/?m=1
    Que foi criado para desabafar, tentar ajudar e procurar ajuda para tudo aquilo que estava a passar. De forma muito resumida, na ecografia das 12 semanas, na minha primeira gravidez, descubro que não estava tudo bem com o bebé. Claro que nunca podemos resumir e simplificar assim, mas o que aconteceu foi levantar dias e dias, a saber que aquela gravidez "não era viável", mas ter de esperar resultados para sabermos o que se passava. Às 15 semanas tivemos de fazer uma interrupção médica da gravidez, sabendo que o bebé tinha uma translocação cromossomica desequilibrada, herdade de mim. A minha translocação era equilibrada (daí eu não ter qualquer problema, "apenas" quando engravidasse) e não era heradada de ninguém, aconteceu na minha formação. Passar a saber isso quando se está grávida, descobrir nessas circunstâncias que não sabemos se algum dia poderemos ser mães e ouvir que temos de continuar a tentar (como isso é possível?, é o que se pensa..), é qualquer coisa de aterrador! Voltamos a tentar. Dessa vez ouvimos da médica que o bebé já não estava vivo, às 10 semanas. Acontece que dois meses mais tarde estava grávida novamente e correu tudo na perfeição! Conseguem imaginar o que se sente ao ouvir o choro do nosso filho pela primeira vez, depois de tudo isso?!? É pura gratidão! 15 meses depois da cesariana, outra cesariana, de uma gravidez que não esperávamos. Outra vez aquela maravilhosa sensação, ao ouvir a nossa filha chorar pela primeira vez! Ela tema a mesma translocação que eu. É acreditar que até ela pensar em ser mãe, a ciência tenha evoluído o suficiente para não passar ela pela maior dor pela qual já passei! Porque, mesmo que ainda não tendo nascido, um filho é um filho. E um filho não se esquece...
    Se quiserem conhecer mais a nossa história, espreitem o blog ou vejam estes vídeos:
    http://tviplayer.iol.pt/programa/a-tarde-e-sua/53c6b3883004dc006243ce59/video/593586a00cf2839000250820
    http://tviplayer.iol.pt/programa/a-tarde-e-sua/53c6b3883004dc006243ce59/video/593582ec0cf277ced301215a
    Um beijinho

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  12. Olá mamãs! Aqui a ver os vossos comentários percebo que, infelizmente, as falhas existentes no apoio ao luto nas perdas gestacionais ainda tem um longo caminho a percorrer. Sou psicóloga e em 2013/2014 fiz a tese de mestrado sobre este tema. Continuo a achar que uma perda gestacional pode ser das situações mais dolorosas que se pode experimentar. É a saudade imensa de alguém que nunca se conheceu mas que é um pedaço de si, é o colo vazio que os outros tentam justificar com coisas que não se querem ouvir,é o tempo que se precisa para viver a dor e que tantas vezes é um tempo diferente daquele que o pai precisa, é o ser mãe e ninguém mais ver esse estatuto legítimo. Durante a investigação lembro-me duma mulher em particular. Eu disse-lhe, no meio da nossa conversa, referindo-me a ela e ao marido:" E o que é que a A. mãe e o F. pai acham sobre o que vos disseram sobre perder o M.?"... Ela começou a chorar, eu fiquei aflita, mas depois percebi quando ela me disse: "Nunca ninguém se tinha referido a nós como mãe ou pai, e muito menos tinham chamado o nosso bebé pelo nome".
    A todas as MÃES, um abraço muito apertado, e se acharem que precisam de ajuda, procurem-na. Os efeitos de algo tão doloroso podem prolongar-se no tempo e assumir formas muito complexas, mas todas merecem conseguir chegar ao dia em que guardam no coração as recordações do seu bebé de uma forma mais tranquila.

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  13. Também eu perdi o meu segundo bebé às 16 semanas. O meu Tiago. É uma dor que não se explica. No meu caso, só eu e o meu marido é que sabiamos da gravidez e depois só os nossos pais é que souberam o que aconteceu. Para mim foi mais fácil fazer o luto, sem palavras dos outros ou frazes desnecessárias. Só bastante tempo depois é que comecei a falar no assunto para surpresa de muitos amigos e familiares. Nessa altura fez me sentido falar no Tiago. Mas a minha história não é só esta. Eu moro na Holanda e a maneira como fui acompanhada foi absolutamente fantástica. Com respeito, com sentimento, com tempo... Eu conheci o meu bebé e pude estar com ele nos braços todo o dia. Na preparação para o procedimento, a equipa aconselhou me a ver o bebé e eu achei isso absolutamente surreal. Eu não queria. No próprio dia, o meu marido quis ver e eu acabei por ceder e agradeço a Deus te-lo feito. Um pedacinho de gente que me cabia na palma da mão, fiz-lhe festinhas, disse-lhe o quanto o amava ao ouvido. confortei-o. Foi tão duro mas tão bonito ao mesmo tempo. É o meu Anjinho. Não precisei de aconselhamento psicologico mas ligavam me muitas vezes para saber como eu me sentia e estava a lidar com o assunto. Também em relação ao nascimento da minha filha antes desta gravidez correu tudo lindamente no hospital e o do meu filho, um ano depois desta história, que nasceu em casa, por opção (aqui na Holanda é muito normal), fui sempre muito bem tratata. Muita força para todas, para quem passou e para quem está a passar. Eu também era das que dizia coisas banais antes de me ter acontecido a mim. Força.

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