quarta-feira, 4 de abril de 2018

Ela rejeita-me.

Tantas vezes que ouvi isto. Tantas vezes que vi isto. Desde que ela nasceu que a nossa relação não foi simples. Ou eu estava à procura de sinais de que as coisas não estivessem a correr bem por não me achar merecedora de tanto ou efectivamente passámos por dificuldades juntas. 

Desde ela só chorar quando estava no meu colo e no do pai ficar calma (que é normal também pelo pai não ter leite e, por isso, ela não ter que pedir), desde a não conseguir adormecê-la e ser sempre um choro despegado, desde a rejeitar a mama durante o dia e só mamar a dormir (ali por volta dos 3 meses), desde a não gostar muito de andar ao colo comigo, a não tolerar muito bem o marsúpio, a não comer sopa comigo, etc. 

Talvez porque achei que não devia ser mãe e tinha metido na cabeça que não ia ser. A nossa cabeça consome-nos de variadas maneiras. Tanto pode acrescentar como retirar e a minha tem um prazer mórbido de retirar, talvez para depois, pelo menos, ter o conforto de me dizer: "eu já sabia". Assim parece que as coisas doem menos. 

Hoje em dia a história é a mesma, mas conto-a de maneira diferente. A Irene, seja por que razão for não gosta do meu cheiro. O meu cheiro natural, parece-me, não lhe agrada (ahah isto assim isolado, parece ser o post mais estúpido de sempre). Tenha eu lavado os dentes ou não (comer picanha e depois ir cantar músicas para a caminha dela talvez não seja porreiro), ela diz-me sempre que não gosta. 


Podia chorar muito com isto, podia ser mais uma coisa para me martirizar, mas não tem sido. Comecei a contar uma história diferente em que eu não seria o problema, mas em que a realidade é como é porque sim. Uma frase que tenho ouvido muito e que cada vez me diz mais é "Está tudo certo!".  O que tenho contado a mim própria sobre isto, sendo que prezo a minha higiene e, por isso, não será por não estar "limpa" (pá, estou a reler o post e só me rio) é que, por ser uma pessoa algo ansiosa, o meu cheiro, o meu suor terá componentes diferentes do suor de uma pessoa que apenas se tenha cansado. É um cheiro de "perigo". Lembro-me de o sentir quando a Irene passava o dia todo sem mamar. Eu andava num pânico constante e o meu cheiro, ao final do dia, o meu suor, era completamente diferente. Agora deve sê-lo na mesma (apesar de andar muito mais calma, continuo a ter os meus desafios) e, por não ser tão evidente, não o sinto. 

A Irene quer dormir (gosta de dormir, tenho sorte e acho que também ajuda não usar a cama como punição de alguma coisa, mas como um momento de miminho) e a mãe, deitada a seu lado, cheira-lhe a "perigo", a "medo", a "ter que fugir". A brincar, a brincar (ou não, ahah) somos animais e os nossos corpos também têm a sua forma de comunicar e o meu comunicar-lhe-á o contrário das festinhas no cabelo. 

Seja isto tudo uma fantasia ou não, fico contente por não ouvir no "não gosto do teu cheiro" um "não és boa mãe", mas sim apenas "não gosto do teu cheiro". 

É preciso ter o sono em dia para conseguir fazer estes raciocínios. E sei que muitas de vocês não têm, por isso quis partilhar convosco para ver se vos dava um empurrãozinho só a mudar o ângulo das coisas. 

Nem acredito que escrevi na internet algo que dê a entender que cheiro mal... enfim! 

Tomem uma fotografia minha em que estou muito bonita para ver se compenso (ignorem o facto de terem tido que me cortar a testa para parecer da espécie humana e também de parecer que tenho dois cotos em vez dos braços completos): 



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21 comentários:

  1. Acho muito corajoso este tipo de post. E só posso agradecer que tenha coragem de os escrever.

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  2. Ola Joana, a proposito deste assunto gostava muito de te mandar uma mensagem, mas ja mandei msg para o.blog, em 2016, nao responderam. Mandei mail, nao responderam.... como faço?

    Beijinhos, Rita

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    1. Olá Rita :)

      Se calhar ainda não chegámos ao teu e-mail. Enviaste há muito tempo? Reenvia, pff!

      Obrigada e beijinhos

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  3. Algo vai mal nessa cabeçinha. . A Irene já está crescida, está na hora de tratar de ti. Um conselho de uma mãe que não dormiu bem durante 3 anos e que ao fim desses 3 anos terríveis precisou de ajuda. Agora passados 5 anos do nascimento do meu piolho ele está óptimo e a mamã a fazer o desmame de anti depressivos.. Bingo para as duas

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    1. Lá porque foi o seu caso, não significa que as outras mães também precisem de ajuda. Até porque a Joana parece estar a auto-ajudar-se (?) na perfeição. Por isso o seu comentário é só venenoso.

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    2. Algo vai mal nessa escrita porque "cabecinha" não é com Ç.

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  4. A minha filha tem uma paixão pelo pai desde que nasceu (é um pouco mais nova que a Irene). Era também no colo dele que ela acalmava mais depressa (e eu não amamentei, nem tenho essa desculpa), foi para ele que fez as primeiras coisas, e isso sempre me pareceu tão normal. Nunca achei que tivéssemos problemas ou que algo estivesse errado. Porque é que é suposto que ela me prefira a mim. Só porque sou mãe? Desde que ela saiba que gostamos os dois dela por igual, tudo bem porque gostamos mesmo.

    E um perfume não ajudaria a acalmar a Irene? :)

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  5. Joana, gostava tanto de te ajudar.... Mas nem sei o que dizer. Tens uma cabeça tão diferente da minha....

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    1. Não parece! Mas fico feliz que esteja tudo bem!

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    2. Está, está! O post é sobre isso mesmo :) Mas obrigada!

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  6. És a maior! Corajosa!

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  7. Às vezes precisamos de escrever para exorcizar alguns demónios. Esta coisa de ser mãe é tão estranha (e já vou quase há 8 anos disto) que todo o tipo de dúvidas nos aparecem. É difícil também interiorizar, pelo menos para mim, de que os nossos filhos são pessoas únicas, muitos com personalidades vincadas desde tenra idade, e devemos tentar vê-los e assim e não moldá-los ao que nós queremos que eles sejam (é tão difícil esta minha luta).

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  8. E que tal comprar uma água de colónia ou um perfume igual para a mãe e para a filha? Talvez isso ajude a filha a sentir-se mais próxima da mãe e a esquecer aquilo de que talvez não goste no cheiro natural da mãe. Faço votos de que tudo melhore e isso seja só uma fase.

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  9. Obrigada pelas partilhas interessantes e pertinentes, Joana! É isto Q me mantém assídua n'A mãe e Q sabe.

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  10. O estado de nervos impacta sim no cheiro da pessoa. Noto isso comigo e também com o meu marido: quando estamos cheios de stress (normalmente trabalho) nota-se no cheiro (fica como que azedo...)sem stress. Banho nisso e creme cheiroso, que passa ! e já agora, os meus filhos - que hoje não me largam - quando eram bébés portavam-se sempre pior, choravam e dormiam pessimamente ao pé de mim: era o cheiro a leite e a mãe. Sim, é frustrante estar meses e meses sem dormir uma noite seguida e quando dormiam só com o pai ou em casa dos avós, noite inteira ! eu é que passava por maluca.

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  11. Oh God...andavas tão normalzinha...

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  12. Joaninha filha passa a tomar banhinho q td passa... ( brincadeirinha)

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  13. Maldade gratuita é revelador de coração azedo. Lamento imenso que tenha de viver assim.

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  14. Podia ser só uma questão de alimentação. Eu noto que basicamente «destilo» o que como. O nosso cheiro muda de acordo com o que comemos. Aliás, aparentemente é comum os japoneses acharem que os europeus cheiram a leite, por exemplo, porque não estão habituados a estar rodeados de pessoas que consomem muitos lacticínios.
    Além disso, também pode ser que ajude pensares, por exemplo, que (embora sejas mãe dela) ela não tem de gostar de ti (quer «goste» quer «não goste»). Tu tens um trabalho a cumprir: estás responsável por ela e (pelo menos por enquanto, ainda) sabes melhor que ela do que é que ela precisa e o que é que ela tem de fazer e como tem de ser. (Mas também não deves deixar que isso faça com que te sintas prepotente, obviamente.)
    De qualquer forma, ela ainda é muito nova para saber «do que é que gosta». As coisas de que ela «não gosta» são só coisas cujos estímulos lhe fazem confusão, cujos estímulos ela não consegue processar bem e aceitar. Um dia vai gostar duma pessoa e depois vai aperceber-se de que essa pessoa tem um cheiro como o teu e de repente vai começar a gostar desse cheiro. Ou talvez um dia não goste duma pessoa e depois se aperceba de que ela tem um cheiro semelhante ao teu, e então passe a gostar dela por causa da familiaridade do cheiro!

    Mas efectivamente… a tua ideia foi genial! Ainda bem que te serviu totalmente de consolação.

    E entendo bem o problema. Uma vez alguém me disse que gostava do meu cheiro num momento em que eu estava suado e sujo, e eu sentia-me muito atraído por essa pessoa, e senti-me (estranhamente) muito feliz por saber isso. Por outro lado, há quem goste muito de mim mas não aprecie de todo o meu cheiro, o que me deixa (estranhamente) muito desapontado.
    Sei lá. Coisas da natureza humana.

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