segunda-feira, 14 de maio de 2018

Devíamos pedir autorização para lhes mudar a fralda.

No vídeo que se segue, a especialista em educação sexual Deanne Carson referiu que, para se mudar as fraldas aos bebés, se deveria pedir autorização (enquanto se falava sobre tentar construir uma cultura que atente ao consentimento, num canal australiano). Mesmo que estes ainda não verbalizem, podemos estar atentas à sua linguagem corporal e prosseguir apenas depois de haver espaço para o fazer. 





Mesmo que o cabelo e o aspecto da senhora não puxe pela credibilidade por parte de algumas de nós (o que também não está certo), o que será que podemos retirar daqui? Obviamente que não é para aceitar tudo o que se lê na internet (mesmo as coisas que a Joana e eu escrevemos), no entanto, podemos - se tivermos disponibilidade para nos questionarmos sobre as coisas - pensar um pouco sobre isso. 

Isto leva a muitas outras conversas em que, em resumo, os "filhos não nos pertencem". Eles não são nossos e claro que me leva a pensar novamente nisto de fotografar a miúda e de a publicar nos posts e de a associar a publicidade paga, claro que sim. Acima de tudo, acho que devemos ter tempo para pensar e para discutir para que as nossas decisões sejam conscientes. Parentalidade consciente, ao invés de reagir automaticamente, porque às vezes o que nos surge automaticamente não é o que queremos mesmo fazer. O meu instinto, por exemplo, quando a Irene faz birras, é levantar a mão para lhe bater. E tenho trabalhado muito para encontrar alternativas e soluções.

Voltando à vaca fria:

Quando se pensa pela primeira vez nalguns assuntos, o nosso reflexo poderá ser rir, gozar com o assunto ou com o cabelo da senhora, escrever comentários negativos à blogger que escreveu o post (eheh), etc. O ideal, será que, algures ao longo da semana surja o pensamento e que nos debrucemos um pouco. 

O que é que esta senhora quer dizer? Parece-me ter um intuito muito bom. As crianças têm de ser tidas em conta como pessoas e não como "empecilhos". "Ai não queres? Queres, queres!". Há vários exemplos de que a nossa cultura tende grandemente a não ouvir e respeitar as crianças como quando insistimos que dêem um beijo a alguém quando não querem ou em abraçar quando uma criança também não quer ou dar a mão quando a criança não quer, etc.

A criança tem direito a não querer. A criança é pessoa. E nós, por muito que queiramos algo, não temos o direito de lhes impingir nada que não seja "para o bem delas". Não são nossa posse. E mesmo a forma como lhes "impingimos" tem de ser respeitadora, como gostaríamos que tivessem feito connosco. 

A maior parte delas é muito clara em expressar as suas vontades e muitas de nós (é um caminho) não somos muito boas a ouvi-las (especialmente quando estamos mais cansadas), mas é um exercício que devemos fazer. Tentar colocarmo-nos no lugar dos nossos filhos. E também no de todas as outras pessoas com quem tenhamos uma relação, para tentar perceber "de onde vêm as coisas". Estamos habituados a, quando não cabe, tentar enfiar na mesma e logo se vê. A, de olhos fechados, dobrar um bocadinho mais e, se partir, compra-se outro. No entanto, quando educamos uma criança e lhe estamos a mostrar o que é amor, não podemos entrar num "logo se vê". Não dá para comprar outro ou, mesmo fazendo outro, este vai continuar a existir por aí... 

Pedir autorização para mudar a fralda parece ridículo. Há uma parte de mim que até escreveu este tema numa lista de temas para fazer stand-up em breve, mas deixei que a ideia me caísse. O que este ritual "vou mudar a tua fralda, ok? ensina à criança e habitua os pais a fazer é dar um tempo para que a criança faça contacto visual ou reaja de alguma forma ao que foi dito. De mal não me parece haver nada. Honestamente. 

De bem? Acho que poderá relembrar os pais que a criança não lhes pertence. E que lá por estar mais "vulnerável" por ser pequenina , o nosso dever é protegê-la e não sobrepormo-nos a ela ou aproveitarmo-nos disso para fazer da parentalidade uma missão mais fácil... Aparentemente, como é óbvio. Dá muito mais trabalho ter trabalho (era mesmo isto que queria dizer). Claro que lhe vamos mudar a fralda, mas há formas e maneiras. Se, por alguma razão, a criança estiver numa fase em que não gosta que lhe mudem a fralda, é arranjar estratégias para que ela fique confortável e não mudar-lhe a fralda rapidamente borrifando-nos para o que é que ela nos está a dizer. Eles têm sempre razão, podemos é não estar a perceber. 


Fotografia The Love Project


Não é de confundir com permissividade. Autoridade não quer dizer respeito. Há coisas e coisas. Eu não deixo que a Irene atire coisas para o chão agora aos 4 anos depois de já saber que não é para se fazer. Cria-se um problema que vou tentando resolver de várias maneiras e chateio-me, claro. Porém, quero ensinar-lhe que o corpo dela é dela. 

Houve uma vez em que fui fazer uma ecografia endovaginal em que têm que por o aparelho dentro de nós e não me pediram licença. Comicamente disse: "é assim? nem um sff ou um jantarinho?". 
O nosso espaço íntimo é mesmo o nosso espaço ÍNTIMO e ele existe desde que eles são bebés. Não vejo problemas em mostrar-lhes, desde cedo, que eles é que mandam nisso. Claro que se "disserem" que não, não vão andar o resto do dia com a fralda por mudar. Ser mãe é também ser muito criativa.
Arranjar soluções. Contornar os problemas. Fazer com que os nossos filhos estejam confortáveis. 

Sei que parece ridículo. A sério que sim, mas acho que prefiro ser ridícula, ter este tipo de situações em conta e pensar nelas do que por considerar totó à primeira não deixar espaço para introduzir mudanças ou novas perspectivas na maneira como educo a minha filha. 

Quero que ela saiba que o corpo dela é dela. E que ela tem todo o direito de dizer que não ou que quem não lhe pergunte o que ela quer não está a agir correctamente. É cedo quando se muda a fralda? Sim e parece parvo, mas pode ser o início de tudo o resto estar mais esclarecido para ambas as partes e mal não faz. 

26 comentários:

  1. Quando não se tem mais assunto para encher dá nisto

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  2. Entrar a falar do cabelo, não, pois a Joana também pintou o seu de cor de rosa e ninguém a criticou.
    Agora,quanto ao pedir autorização ao filho para mudar a fralda.
    Sério!!!!!! Onde vamos parar!!!!!!!!!

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    1. Eu não disse que ela não era credível para mim :) Tudo depende de como tenha interpretado o que disse. Se quiser perceber melhor convido-a a ir aos meus stories em @joanagama no instagram

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    2. Estamos perante a Super Nanny das fraldas, conversar com um filho é normal, mudar a fralda é obrigatório.
      A minha filha quando vai a consultas no hospital tem sempre estagiários e o médico é que lhe pede se pode ser observada por eles ela nunca se importou porque nunca se fez um drama sobre o seu corpo, agora o importante é alertá-la para outras questões relativamente ao corpo dela.

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  3. Na loucura dos dias, e principalmente quando há mais filhos, não há grande tempo para o diálogo. O melhor que consigo é correr atrás da miúda, a fingir que não a consigo apanhar, para tirar o cocó. E é bom que não esperneie enquanto troco para não ter de sacudir o pó ;-)

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    1. Oh! E quando não querem tomar os medicamentos de madrugada? O sono, a impaciência, o desespero ahhhhh!

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    2. 3 filhos? Não há medicamentos de madrugada!!!!!!

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  4. Joana no mundo em que vives existem unicórnios? Senta aqui à minha beira e conta-me sobre esse maravilhoso lugar!

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    1. ahahah Expliquei melhor nos stories ahahah mas isto é um comentário giro!! ahah

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  5. Completamente de acordo. Não exprimir verbalmente o intuito/intenção, mas a linguagem corporal diz muito e o contacto visual, com a criança, claro que sim. Quanto à ética social, sou apologista que existindo regras em sociedade, há que respeitá-las. Comigo é asdim. Sou eu queos educo. Eu tb tenho de cumprimentar pessoas de quem não gosto. O mundo funciona assim. Não somos selvagens. Mas claro, os filhos não são propriedade privada. Eu gosto do vosso blog e página mas nunca exporia os meus filhos como vcs o fazem. Isto não é uma crítica. É apenas a minha opinião e forma de estar na vida. Acima de tudo, porque me coloco na pele das vossas filhas. Eu não gostaria de certeza que os meus pais se expusessem da forma como vcs as expõem. Apenas isso. Muito provavelmente vão achar o máximo mas vocês devem estar preparadas para que elas exijam que vcs apaguem o blog ou eliminem as imagens.

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    1. Claro que sim :) Às vezes quero tirar-lhe fotografias e ela não me deixa. É a vida. Não a vou obrigar. Todas educamos à nossa maneira. O importante é que todas tenhamos consciência das escolhas que vamos fazendo, que não sejam só "porque sim". Eu não obrigo a minha filha a beijar as pessoas para cumprimentar e despedir, mas obrigo a dizer adeus e a estabelecer contacto visual... lol go figure... :)

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  6. Pedir à pequenina para mudar não peço, informo que irei ajudar a mudar a fralda para que o rabito não vire um hamburguer cru :))
    Mas quanto ao resto: sim, devemos claro ensinar que o corpo é deles e que deve ser respeitado e bem tratado. Desde cedo ensinei ao meu filho mais velho a cuidar de si próprio sozinho sem ajudas e com a Carolina vai ser igual.

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  7. Há tanto para dizer sobre este post! 1o se estamos a defender que haja diálogo, apoio! Cá em casa foi o que sempre houve... Até nascer a 2a filha que ainda não percebeu o conceito da democracia como o meu 1o já percebia na idade dela. Por muita vontade que tenha de os tratar da mesma forma, à 2a é aplicado o conceito da ditadura! ;) 2o se for para ensinar que têm de proteger o seu corpo, apoio novamente! É uma conversa constante cá em casa desde sempre para o meu filho de 7 anos e a filha de 3. Se estamos a caminhar no sentido "eles não nos pertecem", desculpem, mas não concordo! São meus! Todos meus! Vou deixá los voar, sair fo ninho e partir, mas só depois dos ensinar a voar, com todas as quedas que possam estar envolvidas nessa aprendizagem. Mas sempre reforçando que são meus, pois não há nada pior que sentirmos que não pertencemos a ninguém! Que o peso das nossas escolhas e decisões só a nós interessa e influêncía... acho que isto da educação é como tudo na vida, conta, peso e medida! Sensatez! Bjinhos

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    1. Oh Claro Patrícia :) Claro que são os nossos filhos, sim! São nossos filhos e nós somos deles também. O que quero dizer é que isso não implica que mandemos em tudo o que seja deles. Não são nossa posse, é o que quero dizer :) Mas sim, estamos a falar das primeiras duas <3

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  8. Não li nem ouvi o que a senhora disse mas realmente pensar em pedir autorização a um bebé para mudar a fralda, quando este nem sequer verbaliza seja o que for, não faz sentido. Mas à medida que vão crescendo, porque não informar? Dizer, "Bebé, agora vamos mudar a fralda para ficares fresquinho" prepara o bebé para o que vai acontecer, diminuindo as hipóteses de birra. Numa criança de 2 anos e meio, ou informo ou pergunto se vamos mudar a fralda. Obviamente que se ela disser que não, não a deixo cheia de cocó, mas falo com ela e explico porque é importante mudar. No fundo muda sempre como eu quero, mas com a cooperação dela. E quem fala de fraldas, fala de tudo e mais alguma coisa. Ainda há muito o hábito de passar o dia a despejar ordens a uma criança (vai vestir o pijama!, vai lavar os dentes!, vamos mudar a fralda!, come a sopa toda!, arruma os brinquedos!) quando se nos fizessem a mesma coisa estaríamos a enervar-nos ao fim de umas horas. Da mesma forma que se desliga a televisão abruptamente e se manda para a mesa (como se aceitamos que alguém nos fizesse o mesmo...) ou se manda abruptamente de parar de brincar e ir calçar os sapatos, o que geralmente leva a birras que seriam desnecessárias se se agisse de outra forma.

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    1. Isso é tudo muito bonito, mas.... na prática as coisas não são assim. Há vezes (a maioria) que se eu não falar num tom mais elevado e mais bruto o meu filho de 3 anos não me ouve...

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    2. Não a conheço nem conheço o seu filho por isso não posso opinar. Mas a minha vizinha de baixo farta-se de gritar com os filhos e o resultado é eles simplesmente já nem ligarem aos berros dela. Como algumas crianças que, à força dos pais passarem o dia a dizer que não a tudo, passam simplesmente a ignorar o "não" dito pelos pais. Não são surdas, o "não" e os gritos é que perdem a força...Mas como disse, não estou a comentar o seu caso por não a conheço. Até porque também acredito que há crianças com personalidades mais desafiadoras que outras.
      Não compreendo é porque é que diz que aquilo que eu disse "é muito bonito mas na prática as coisas não são assim" se eu descrevi o que se passa, na prática, em minha casa.

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  9. Joana para mim o teu post faz todo sentido não da forma redutora como é apresentado pela psicóloga mas sim se pensarmos na generalidades de comportamentos dos nossos pequenos... no outro dia li (não sei se foste tu que publicaste) que deveríamos parar para pensar se todos os “nãos” que dizemos aos nossos filhos são realmente necessários se não o fazemos porque queremos que cumprar certas expectativas que criamos para eles... e isso fez me realmente pensar... quando engravidei da minha pequenina toda gente me dizia “não te preocupes quando ela nascer parece que engoliste um livro de instruções” mentira! Não fazia e muitas vezes não faço ideia do que faço.. para colmatar essa minha inexperiência muni me de teorias educativas que ditariam a mãe que queria ser e ter a filha que queria, ia dormir não sei quantas horas no quarto dela comer isto é aquilo luzes acesas apagadas, um sem fim de regras. O meu marido disse me muitas vezes “eles não são robôs” e ele tão inexperiente quanto eu tinha razão... o nosso trabalho é tentar perceber o que precisam de nós. Por isso parece me completamente fora de órbita pedir para mudar uma fralda? A mim não... se requer tempo ? Requer mas vale muito a pena!

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  10. Acho que dentro da medida do possível se deve dar espaço aos miúdos para cooperarem e participarem nas decisões. Não sei se pedir autorização é termo certo mas acho que se pode ir falando e alertar para o que vai ser feito e o que se espera. Isto dito, não consigo perceber como é que enquadras este respeito da criança com este tipo de blog. E digo isso sem criticismo genuinamente parece que são duas coisas completamente antagónicas porque a Irene não foi nem tida nem achada e pode perfeitamente vir a detestar que a intimidade dela (no banho, a dormir, a mamar) seja assim visível a todos.

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  11. Achei este post muito pertinente! Para mim faz todo o sentido. Para mim, "pedir autorização" para mudar a fralda significa fazer algo que é necessário mas com respeito pelo bebé/criança. No caso da minha filha, quando era mais bebé, ajudava bastante falar com ela, explicar o que eu ia fazer, brincar com ela, distraí-la com algo. E isto mesmo ela tendo meses. Eles não entendem as palavras, claro, mas vão sentindo o tom com o que se fala. Acho importantíssimo termos este tipo de cuidado, no que quer que seja. Poderá parecer ridículo ou difícil, mas os resultados que vamos vendo no médio e longo prazo são enormes.

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  12. Desde que a minha pequenita nasceu que sempre que lhe mudo a fralda a informo e a maioria das vezes quando estou a tirar a fralda peço licença. Já tinha lido sobre isto e faz todo o sentido. Nunca me saiu nada forçado, é muito natural. É algo que complementa a comunicação não verbal do ato de mudar a fralda.
    Desde cedo começou a levantar as pernitas para ajudar. Chegou a fase de se virar e a coisa tornou-te mais difícil. Óbvio que não deixo de mudar a fralda se ela não colaborar. Mas mantenho o informar que temos de mudar... já mudamos de pé ( com ela apoiada em nós), com ela virada de costas ( por estar sempre a rebolar) ou com ela sentada...

    É assim um misto de consideração por eles, com a criatividade necessária do "tem de ser..."

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  13. Alguma vez pediu consentimento à sua filha para dar beijinhos na boca? se formos a ver, é o espaço íntimo dela também. Pessoalmente nunca dei, aliás digo aos meus filhos que beijos na boca só ao pai. Até que ponto é que, banalizando esse comportamento, também não estamos a passar uma mensagem errada?
    (e não sou hater nem puritana tão pouco, é só curiosidade genuína)

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    1. Ah, no meu caso eu não dou! Quando muito, aceito quando me dá mas até ponho os lábios para dentro para não tocarem nos dela por uma questão de higiéne. Mas não proponho, não. :) Mas, mesmo propondo, se a criança der e é porque quer...

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