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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Afinal Havia Outra - Juramento de Mãe



Meus filhos,

Prometo solenemente consagrar a minha vida ao vosso serviço – mas não abusem. Atempadamente ensinar-vos-ei a cozinhar, limpar, passar a ferro e preparar umas torradinhas com leite quente para o vosso querido pai, que já sabemos que não dorme direito sem a sua preciosa torrada.

Darei aos meus pais o respeito e conhecimento que lhes são devidos – porque agora tenho um filho com o meu feitio exato e não é fácil gerir tanta energia e actividade. Benditos paizinhos que eu tenho.
  
Exercerei a minha arte com consciência e dignidade – porque tomar conta de vocês dois e manter-vos limpinhos, cheirosos, bem alimentados e educados é uma verdadeira arte.

A saúde dos meus filhos será a minha primeira preocupação – e por isso já somos conhecidos no atendimento urgente pediátrico do Hospital. Porque uma unha encravada também é motivo de preocupação.

Mesmo após a vossa adolescência respeitarei os segredos que me tiverem confiado – e prometo nunca contar às vossas namoradas as vezes que vierem a fazer xixi na cama.
 
Manterei por todos os meios ao meu alcance, a honra e as nobres tradições da profissão de mãe – os cabelos despenteados, o vício do café, as raízes por pintar, as unhas por fazer,...

As outras mães serão minhas irmãs – Sai um “Amén, sister!” para todas as mães que tentam domar as mini feras nos espaços públicos sem causar uma cena.
 
Não permitirei que quaisquer considerações alheias mal intencionadas se interponham entre o meu dever e os meus filhos.

Guardarei respeito absoluto pela vossa Vida desde o seu início, mesmo sob ameaça e farei uso dos meus conhecimentos para vos educar livres e felizes.

Faço estas promessas solenemente, livremente e sob a minha honra de MÃE.




A Rita Ferreira Bastos tem 28 anos, é do Porto e é mãe do Dinis (3 anos) e do Duarte (7 meses). 

 Sigam a Rita no instagram

 

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

QUEREMOS PILAS!!

Se a mãe é que sabe eu também sei. O meu nome é Joana da Silva (sim também sou Joana e uso o "da" para dar um toque de chiqueza ao meu nome plebeu) e dada a minha veia altruísta venho preencher uma lacuna gravíssima no blog. Peço já desculpa por uma ou outra palavra ofensiva mas a minha linguagem assemelha-se à de um encarregado provinciano. Aguentem. Se querem floreados vão ao Mercadito da Carlota.

Ora bem.. por onde começar... Chega de pipis! É preciso pilas no blog!!!!

Não é o filho da Joana, é um miúdo random.
Sou mãe de um menino de 8 meses e aqui ninguém me ajuda!! O meu filho tem uma pilinha e eu pouco percebo daquilo (apenas na ótica do utilizador..). E sei que há mais de vocês por aí! Aqui só se fala de vestidos e ganchinhos e batons e o caralho... (desculpem)... Por isso mães de meninos não desesperem, chegou a Joana da Pila (haha brincadeirinha... é da Silva..) para vos auxiliar!

Adoro ser mãe de um menino! Mesmo.  Adoro os pontapés na cicatriz da cesariana que me ajudam a abrir a pestana quase todas as manhãs. As sapas (vulgo estaladas) de cada vez que fica excitado por ver o candeeiro do teto a acender. Adoro os jatos de urina como o geiser de Paço d'Arcos que atingem a parede que nem pinturas rupestres (é arte caraças!). E já nem falo dos meus bíceps à culturista por ter de carregar constantemente o equivalente a dois garrafões de água... A sorte é que o miúdo é giríssimo! E a primeira palavra foi mamã! Aliás não se cala com isso. Chama mamã à cadela, à parede, ao Sr. Alfredo da mercearia, ao piaçaba... Fofo mas fofo.

Este blog é muito giro e tal mas lá está... ajudinha da boa está omissa... Quem me aconselha?!?! Quem partilha das mesmas dúvidas, receios e problemas??! Quem me diz o que faço com a sua cabeça gigante e torta cujo cabelo não dá para disfarçar a não ser que no futuro o deixe andar à Marco Paulo versão anos 80??!? (se fosse menina era mais fácil não é??!!) Ninguém! Por isto tudo e por não terem de passar pelas mesmas provações que eu, vim em Vosso auxilio!

Em nome de todas as mães de rapazes que não fazem ideia do que é um fofo ou um cueiro, que compram roupa para as crias on-line na Vertbaudet porque é super prático, que dormem com o livro do Dr. Mário Cordeiro (ámen) na cabeceira (comprado on-line), obcecadas com comida saudável porque somos o que comemos e o caraças e que papas é que não tem açúcar e toma lá com estes legumes biológicos na sopa que te fazem bem e não vale cuspir foda-se, revolto-me aqui e agora!!

Queremos pilas no blog!

Assinem a minha petição para mais pila e poderão ver esclarecidas as vossas dúvidas mais pertinentes numa rubrica mensal ao jeito da revista Maria como:

- Como fazer uma crista no cabelo do bebé de forma a disfarçar as orelhas à Dumbo (nas meninas põe-se uma fitinha e já está não é?? Sabem lá as Joanas (as outras) o que são dificuldades...);

- Como vestir ao bebé um body do Continente (on-line) de forma a que ele ajude na limpeza do soalho flutuante do lar;

- O mito da girafa Sophie VS O que é mesmo bom para os dentes é a correia do carrinho de passeio;

- Como equilibrar o biberão apoiando uns livros no tabuleiro da cadeira da papa e encaixar a tetina na boca do bebe de forma a ele beber o leite sozinho (hands free) enquanto depilam as sobrancelhas antes de irem para o escritório (tenho esta proeza patenteada);

- Será que o meu bebé é impotente?

Estou aqui para vos ajudar! Sou altruísta a esse ponto!! Votem em mais pila! Encham a caixa de comentários a solicitar a minha consultoria!

As pilas unidas jamais serão vencidas! (epá eu tenho é mesmo jeito para a politica pá... estou-me a estragar...).


________

Este texto foi escrito voluntariamente pela leitora Joana da Silva :)

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Malabarismos de uma mãe de três.

"Manhã fantástica: a Ema tinha dormido a sua primeira noite no quarto dela e eu só tinha tido que acordar umas cinco vezes para lhe pôr a chucha, já estavam todos na minha cama a beber o leite, a Ema tinha mamado, já tínhamos tirado umas fotos giras para mandar ao pai, as roupas estavam a postos, os sapatos e bibes também.
Eis que o sr. Enzo se lembra de morder a irmã (Lia) no ombro. Começa o pesadelo... A Lia grita e começa a chorar e a tossir. Vejo que vai vomitar e largo a Ema que ficou com as calças meio vestidas para puxar a Lia para o chão. Vomita-me o chão todo ao lado da cama. Boa!!! Agora tenho um filho por vestir, uma meia vestida e outra vomitada... Vou buscar uma toalha a correr pois vi que o malabarismo que fiz a apanhar vomitado com uma toalhita não era suficiente! Ponho a toalha ao pé da Lia enquanto puxo as calças da Ema para cima e ralho com o Enzo. Levo a Ema para a caminha dela, dou instruções ao Enzo para se vestir e vou com a Lia para a banheira. Lavo a Lia e vou vesti-la. O Enzo grita que precisa de ajuda. Vou ajudar. Deixo a Lia vestida e calçada e vou buscar o balde e a esfregona. Subo com isso, passo no WC deles e preparo as escovas e copos para que escovem os dentes. Ponho-os a escovar os dentes e vou limpar o chão. Descubro que tenho que arredar a cama para limpar bem o vomitado. Fixe! Só pesa uns trezentos quilos!!! Acabo de limpar e consigo enfiar as minhas calças. Vou ajudar a acabar de escovar os dentes e a pentear. Visto-lhes os bibes. Tento vestir-me e vêm chatear porque decidiram pôr luvas e não conseguem... Ajudo a pôr as luvas. Acabo de me vestir (acho eu) e mando-os descer. 
Tenho que acabar de vestir a Ema que, entretanto, adormeceu.
Visto-a. Ponho-a no ovinho. Desço com o ovo. Subo para ir buscar as mochilas. Ponho no carro as mochilas, o xarope da Lia, as fatias de bolo que o Enzo quer levar às educadoras. Mando-os vestir os casacos. As luvas atrapalham. Ajudo. Lembro-me de subir para ir buscar um casaco para a Ema. Ponho o saco dela no carro. Mando os outros dois para o carro. Ajudo-os com os cintos. Entretanto discutem nem sei porquê. Lembro-me de ir buscar um casaco para mim. Ponho a Ema no carro. Entro fecho a porta de casa e cai a maçaneta. Boa! Lembro-me que preciso do carrinho da Ema. Ponho no carro.
Entro no carro e finalmente descanso 2 segundos. Maquilho-me e arranco.... Chego à escola e chove torrencialmente.  Toca a tirar os mini chapéus de chuva deles para irem todos contentes com as suas luvas e mochilas e brinquedos e bolos e xaropes... 
Como é bom ser mãe! 😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍


Ah... e tive tempo de escrever isto tudo enquanto espero para a Ema levar as vacinas. Que estavam marcadas às dez! Só tem 45m de atraso. Quando sair daqui ainda tenho que ir ao Pingo Doce e tentar lembrar-me de tudo o que preciso e não tive tempo de apontar!
Qual Shawn T. qual quê! Isto é que é exercício!"



Obrigada, Carla pela partilha! Se quiserem partilhar os vossos textos connosco, já sabem - amaeequesabeblog@gmail.com,com o título "Afinal Havia Outra."

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

As Marias - Três é a conta que Deus fez

Até há umas semanas, ter duas filhas deixava-me preenchida - mais do que isso, realizada. Dava por mim muitas vezes a olhar para elas enquanto brincavam e a pensar que ver aquelas duas crescer, e envelhecer junto delas, era a maior felicidade que esta vida me poderia dar.  Mas um dia, há bem pouco tempo, um teste de gravidez deu positivo e eu fiquei sem tapete. “Então mas agora vou ter mais um filho?”. “ Como é que isto aconteceu?”, mandava para o ar enquanto o pai ria, sem tirar os olhos de mim – provavelmente com os nervos. “Mas eu tomei tudo direitinho, nunca me esqueci”. Pois foi, tudo direitinho. O problema é que também tomei direitinho um antibiótico que, provavelmente, fez curto-circuito com a pílula… A verdade é que vem aí o terceiro filho. E escusam de fazer esse ar de surpreendidas, porque de certezinha que já leram nas revistas. Aliás, estas descobriram antes da maioria das minhas tias-avós. Até porque no início só contei a três pessoas. Estava a tentar mentalizar-me – e, honestamente, a tentar convencer-me de que era uma boa notícia. O pai repetia-me que sim, mas para mim não foi imediato. Foram semanas atribuladas, com pensamentos e estados de alma contraditórios.

Agora, as minhas 16 semanas de gravidez falam-me em forma de cliché e dizem-me que este é “o melhor presente” que podíamos ter recebido. Que “três é a conta que Deus fez”. Às vezes, encaixar num cliché é bom, é confortável. E a verdade é que o meu coração de mãe de duas sofreu um novo estímulo e dilatou mais um bocadinho. E à medida que a barriga cresce – e se ela cresce! - o meu coração cresce com ela, numa harmonia que me diz que “está tudo bem”, “vai correr tudo bem”.

Continuo a ter pesadelos com o final da gravidez, o parto e o pós-parto. E não sinto saudades dos primeiros meses, das fraldas e das noites mal dormidas. Mas já não é nisto que penso em primeiro lugar quando, a meio do dia, sem razão aparente, me lembro de que estou grávida e sorrio – às vezes só para dentro, outras para fora, feita tonta.

Agora, é rezar para que as minhas amigas me devolvam tudo o que lhes emprestei – e/ou dei – porque já tinha “fechado a loja”. Por enquanto, certo certo é que a criança não vai ter frio nos pés…



Catarina Raminhos, mãe da Maria Rita, da Maria Inês e grávida de 16 semanas

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Afinal Havia Outra - A minha filha nasceu com 670 gramas


"Dia 27 de Julho, depois de longos 4 anos com tentativas falhadas o teste era positivo! Não fiquei contente como esperaria, estava já muito doente e tinha de me cuidar para que a gravidez corresse sem mais precauços. Sabia dentro de mim que ia ter uma mini eu, ia ser uma menina, chamar-se-ia Bianca. 
Dia 2 de Dezembro, 23 semanas e 4 dias, fui dormir, acaricei a minha filhota e disse-lhe que a amava mais do que à própria vida. Às 2 da manhã o rebentamento de membranas, vindo do nada e levando-me ao desespero. A minha bebé, nasceu depois de 5 dias de internamento e muitos cuidados intensivos. 
Não pude tocar na minha menina quando nasceu, não a acariciei, não lhe dei a mama, não a beijei. Levaram-na para um outro hospital, abandonada, sem o carinho da mamã. Sonhei que tinha a minha barriga durante dias seguidos, estava a ser racional mas não queria acreditar que não a tinha ali, segura. Pesava 670 gr, estava muito instável, não a podiamos tirar da Incubadora, o primeiro toque foi lá dentro, a 37 graus, com alarmes, cabos, medos, incertezas e muitas lágrimas. Não queria acreditar... o meu coração estava ali, todos os dias. Não houve mais amanhã ou depois de amanhã, havia o hoje e o agora. Vivemos entre apneias, paragens cardio respiratórias, tranfusões de sangue, exames diários, olhos atentos de quem cuidava mas por vezes não deixava cuidar. Não havia colinho para adormecer, nem fraldas sujas, nem camisolas a cheirar a vómito de bebé. Havia sim um banco, uma cadeira, muito café, poucas horas de sono e muita aflição. Os nossos 110 dias foram-se vivendo ali, esperando ansiosamente a nossa ida para casa, vendo outros pais com mais ou com menos sorte que nós. A minha Xoninhas venceu todas as dificuldades, uma a uma, não deu tréguas à luta e batalhou como uma guerreira. Mostrou-me o fio condutor da vida e a certeza de que nada é certo mas que o amor, esse sim, é infinito."


Joana Costa Oliveira 


Obrigada, Joana, por partilhares connosco a tua história, neste dia mundial da prematuridade. 
❤️ Um abraço enorme a todos os pais que passaram por dias como estes. E aos filhotes. Heróis, é pouco!

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Afinal Havia Outra (#27) Cara avó com quem me cruzei hoje

Eu sei que ama profundamente a sua neta. Eu sei que ficou contente quando a sua filha lhe pediu para tomar conta dela, as creches fecham, ou não existem, ou são caras, mas mesmo que assim não fosse, tomar conta de um neto é muito bom, os meus próprios pais consideram tal coisa um privilégio que ainda não podem ter.

Também sei que nem sempre acordamos de bom humor. Tenho a certeza que aquele café que pediu era mesmo muito necessário para acordar, pôr os pensamentos em ordem e começar o dia.

A sua neta não tem mais que 15 meses, pouco mais de um ano. Acordou, tomou o pequeno-almoço e agora veio à rua com a avó. Até é criança que gosta de carrinho, acredite ou não, eu tenho quase sempre que carregar com a minha às costas porque se recusa a andar no carrinho. Está cheia de energia. No entanto, a avó teve mesmo que parar para beber aquele café. De certeza que a neta compreende, apesar de ser tão pequena. Mas passado um bocadinho começa a ficar inquieta. Pensa "Que se passa? Porque é que não estamos a andar?". A avó parou o carrinho mesmo ao pé de si, mas a menina tem o as pernas da mesa ao nível dos olhos, e a avó não está a olhar para ela.

A menina lança um som de desagrado. Não é choro, não é grito, mas não são palavras porque ainda não consegue. 

O café ainda não fez o efeito pretendido, a avó está impaciente. A menina não precisa de café, acordou bem disposta, tem 15 meses, já anda, quer correr e estatelar-se no chão e aprender a não cair. Mas a avó não está a perceber isso, e dá-lhe algo para as mãos, um pacote de açúcar, um molho de chaves.

Cara avó, lembra-se certamente de quando os seus filhos eram pequenos. Nada fica muito tempo nas mãos dos pequenos, a não ser aquele cotão sujo que teima em aparecer, a sujidade das unhas e das preguinhas das mãos. Vai tudo ao chão.

Por qualquer razão, a avó não antecipou isso. Achou que a menina ia segurar no objecto e entreter-se por tempo indeterminado, e que além do café, a avó conseguia ainda ler a TV Guia e fazer o Euromilhões. Mas não. Ela mandou tudo ao chão, e avó, que tinha a certeza que isso não ia acontecer, irrita-se.

"Estás parva, tu?"

O meu irmão era parvo quando fazia caretas para as fotografias. Eu era parva quando gastava o dinheiro do almoço em rebuçados. A sua neta não é parva, nem está a ser parva, está a tentar dizer-lhe que se quer ir embora.

"És feia. És má".

A sua neta não é feia. É uma menina bonita, loirinha e de olhos azuis, e veste um vestidinho mesmo daqueles só de passeio. Talvez a avó nem queira levá-la a brincar para não sujar o vestido. Não é má, não há qualquer ponta de maldade naquilo que ela está a fazer, há uma necessidade muito básica, ancestral até, de chamar a sua atenção, de dizer que está ali, de mostrar que precisa de ser cuidada. Não é essa afinal a função da avó?

O pão, o banho, o leite, vestir e despir, se calhar qualquer um faz, mas a avó deve cuidar. Devia cuidar.

"Se não paras, vou-te bater"

Aqui a menina já estava a chorar a sério. Lembra-se, avó?

Daqui a uns anos a avó vai ser muito velhinha e vai precisar de cuidados. Se calhar a neta até vai pagar a uma enfermeira, que lhe dê o banho, mude a roupa, trate da casa. Mas a avó não vai querer estar sempre acompanhada por uma pessoa estranha. Vai querer a neta de quem cuidou. 

Na cama onde estiver, de preferência ainda lúcida, a sua neta vai ignorar a sua tentativa de conversa enquanto bebe o seu café. São as suas últimas palavras, mas que importa isso, é só uma velha, não diz coisa com coisa. Se a avó fizer um bocadinho mais de barulho, a neta vai ficar impaciente e mandá-la calar. Se a avó não parar mesmo, a neta vai partir para o insulto. Feia e má não são maus o suficiente, dirá uns nomes piores. E se nada disto resultar, vai ameaçar bater.

Ou então nada disto vai acontecer, porque no caminho da vida a menina vai perceber que não é assim que tratamos as pessoas de quem gostamos.

O respeito é uma relação que se cria, com duas pontas. A avó tem de respeitar a neta, só assim a neta lhe terá respeito. A avó não pode ameaçar bater na neta, senão a neta vai achar que podemos bater nos mais fracos, nos mais pequenos, ou apenas naqueles que não compreendemos. Ou mesmo na própria avó.

Quer a avó, quer a neta têm o direito de ter dias maus. Mas a avó já aprendeu tanto com a vida, será que não aprendeu que não devemos descarregar as nossas frustrações nos outros? Ou vá, pelo menos naqueles de quem gostamos?

Provavelmente a avó pensa que ela própria também levou palmadas e não foi por isso que ficou mal. Bom, avó, o facto de pensar assim comprova precisamente o contrário: ficou mal e quer que os filhos, netos, bisnetos e por aí fora tenham sempre a mão mais preparada para bater do que para abraçar. Algo está seriamente errado nisso.

Respire fundo, avó. Conte até dez. Ignore os olhares das pessoas do café que devem estar a achar que a sua neta é mimada: também eles têm filhos e netos e sabem como é. Quando acabar de contar, explique à neta que são só mais 5 minutos e que depois vão fazer o que ela quer. Ela também lhe está a fazer companhia a si. Ela gosta de si. Aproveite enquanto dura.


Atenciosamente,

Uma mãe que acabou de deixar a sua bebé na creche e que dava o braço direito para ter a avó (a da sua filha e não a senhora, obviamente) a cuidar da filha
Vanessa Borges

A Vanessa, mãe de uma menina de 21 meses, escreveu-nos hoje, dizendo que seguia o nosso blogue, gostava dele e que nos achava graça. Resolveu partilhar o que lhe tinha acontecido hoje de manhã. Disse-nos, com muita piada, que até podíamos usurpar o texto, dizendo que era nosso, num dia em que estivéssemos menos inspiradas. Hoje não estou menos inspirada, mas este texto acertou em cheio na mouche. Esta manhã custou-me particularmente ir levar a Isabel à creche, apeteceu-me prolongar o fim-de-semana de amor, atenção, carinho, gargalhadas, brincadeiras. Estando mais frágil e cheia de saudades da minha filha, li este texto num trago. Custou-me cada palavra. Obrigada pela partilha, Vanessa. JPB

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Afinal Havia Outra (#26) - Às vezes os milagres acontecem aos pares

O meu grande sonho sempre foi ser mãe. Imaginei tantas vezes como seria sentir um bebé a crescer na barriga, estar 9 meses a receber miminhos do marido, família, amigos; cantar, falar e mimar o meu bebé dentro da barriga, ter muitos desejos de doces e não ligar nenhuma à balança, sorrir todos os dias apenas porque ter um bebé nos faz ser melhores, nos faz ser a pessoa mais feliz do mundo, nos faz sonhar, nos faz tanto mas tanto bem. Imaginei muitas vezes a minha gravidez, o meu parto, o meu pós parto, o meu bebé, até o meu possível baby blues… mas nada foi como imaginei. A minha viagem ao mundo da maternidade foi difícil, atribulada, uma autêntica montanha russa de sentimentos e emoções.


Este meu sonho de ser mãe juntou-se ao sonho do meu marido de ser pai e assim resolvemos tentar engravidar. Estava de tal maneira ansiosa que fiz o teste dois ou três dias depois da ausência da menstruação. Quando vi o “grávida” o meu coração parecia que ia rebentar com tanta alegria, o meu marido agarrou-me ao colo e ficámos os dois a aproveitar o momento e a sonhar com o nosso bebé… mas mal sabíamos nós que não era um bebé mas sim dois que estavam a caminho. Estávamos muito longe de imaginar. Na primeira ecografia apenas se via um saquinho e uma sementinha, mas eu juro que via duas, mas como o meu marido (que até é médico) juntamente com a minha Obstetra não comentaram nada eu fiquei caladinha. Passados uns dias a minha barriga crescia a olhos vistos (mais do que o “normal”) e os vómitos e enjoos eram constantes e não conseguia aguentar nada no estômago. Lá se ia o meu sonho de comer muito na gravidez.

Finalmente tinha chegado o dia da segunda ecografia e afinal eu tinha razão, as mães nunca se enganam… eram mesmo dois bebés! Fiquei duplamente feliz e duplamente ansiosa. Quando contei às pessoas mais próximas ninguém acreditava pois sempre dissera a brincar que iria ter gémeos, ou melhor, trigémeos! A sorte foi que Deus teve pena de mim e só me deu duas de uma vez, nem quero imaginar como seria com três.

O primeiro trimestre foi vivido com muitas náuseas e vómitos, era quase impossível aumentar de peso, tomava os meus milagrosos comprimidos para o enjoo que me davam um sono horrível, tive de deixar o trabalho e ficar em casa, ou melhor dizendo, no sofá, pois foi esta a minha companhia durante muitos dias. Comecei a sentir os bebés muito cedo, com umas 18 semanas sabia que tinha um ou uma que não parava quieto e outro ou outra mais calmo pois não se mexia tanto. Também as contrações chegaram mais cedo, o que obrigou a mais e mais repouso. A barriga estava a aumentar a olhos vistos e pensava muitas vezes como ia ficar com 38 semanas de gravidez. Estava com alguns receios como é normal de mãe de primeira viagem e ainda por cima logo de duas bebés, mas a alegria superava todos os receios. No dia que soube que iam ser duas meninas foi um dia mágico, sempre quis tanto ter meninas. Engraçado que o meu marido desde o início que disse que eram meninas… mal ele sabia que estava tramado com três mulheres em casa.

A gravidez estava a ser super vigiada, consultas e ecografias semanais, estava longe de imaginar o que iria acontecer. Às 25 semanas de gestação o nosso mundo parou com a notícia de que as meninas podiam nascer a qualquer momento. Da notícia até elas nascerem nem passaram 24 horas, não tive tempo para reagir, para pensar no que estava a acontecer. A alegria deu espaço ao medo ao desespero, à dor, à angústia. E de um momento para o outro, as Marias nasceram. Sem grande aviso, sem preparação. O parto foi complicado pois uma já estava a meio caminho e a outra deitada sem querer sair, foi tudo muito rápido mas para mim foi uma eternidade. Adormeci a olhar para a anestesista e como aquele olhar me tranquilizou e me deu esperança. Não sei explicar mas acreditei sempre. Mas mesmo antes de adormecer falei-lhes em pensamento para terem força e que as amava muito. E quando acordei já tinha um sorriso nervoso do meu marido e umas fotografias das nossas “meio quilo de gente” mais lindas do mundo. Só as pude conhecer no dia seguinte. Tão pequeninas em tamanho e tão grandes no coração, que força de viver… e de repente já estavam elas a ensinar-nos a força e o poder do amor, quando éramos nós que pensávamos que lhes íamos ensinar tudo isso. 



Conheci as minhas filhas tão cedo… ainda não sabiam respirar, tinham os olhos fechados, orelhas mal definidas, pele vermelha (nem sei se podemos chamar pele), tinham uma mini fralda, estavam rodeadas de tubos e eram picadas e aspiradas de hora a hora. Vi o primeiro olhar e o primeiro sorriso, mas o choro só o ouvi ao fim de 26 dias, quando tiraram o ventilador.

Um xixi, um cocó, tudo era uma vitória, e coisas tão banais para a maioria dos bebés, para mim era como ganhar o euromilhões. Era tudo muito lento mas tudo mágico, e apesar de todos os tubos e de estarem a viver numa caixinha mágica (como lhe chamava), estavam rodeadas de tanto mas tanto amor!! O amor cura tudo e curou as nossas princesas!

Olho para trás com alguma tristeza por não ter chegado a viver um terceiro trimestre de gravidez, não ter tido um chá de bebé, mala de maternidade, enxoval, aulas de preparação para o parto, visitas ou mensagens de parabéns no dia em que nasceram, flores ou prendas, sorrisos, até dores pós parto (pois estava ocupada com outras dores maiores). Não tive aquela sensação mágica de tanta felicidade que a maioria das mães refere quando nascem os filhos, mas sim um medo enorme de as perder. Apesar desse medo, sempre acreditei nelas mesmo quando os médicos diziam o contrário. Não pude abraçar as minhas filhas (só ao fim de 26 dias), não era mãe a tempo inteiro, apenas umas horas (e isto doía tanto), tocava nelas apenas quando permitiam, cantava para elas sempre que podia, tirava leite pela bomba numa sala com outras mães à qual chamava sala de partilha da dor, pois ali éramos um pouco mães de todos. Tive duas mastites mas mesmo assim continuei a tirar leite (para o bem delas fazia qualquer coisa). E no fim do dia, regressava a casa, com uma dor horrorosa, uma sensação de vazio, de medo, de angústia, de não querer estar longe delas. Mas ao mesmo tempo sabia que tinha de descansar para estar bem perto delas. Chegava a casa tão triste, tão vazia, uma solidão. Olhava para os berços e não as via, olhava para a barriga e não as sentia, e recordava tudo o que aconteceu novamente, e rezava para conseguir dormir. Tinha a sensação de que estava a viver um sonho ou pesadelo (nem sei bem) e que nunca mais acordava. Tinha pânico que o telefone tocasse, não conseguia ligar para o serviço, não queria chorar perto delas mas também não queria deixá-las quando elas não estavam bem. Mas às vezes bastava olhar para elas para saber se estavam bem ou não. Tantas vezes me senti a desmaiar, sem força, com vontade de desaparecer. Mas o amor salvou-nos aos 4, sempre esteve presente, sempre deu esperança, força, coragem.

As Marias deram-me as maiores lições de vida. Ensinaram-me a amar, acreditar, a sonhar, a ter esperança, a ter fé e a ser uma pessoa melhor.  Lutámos juntos com muito amor, durante 109 dias, e apesar de terem sido dias de uma autêntica montanha russa de emoções, acreditámos sempre!!! 
 

Desde 27 de Junho de 2014 que estamos em casa todos juntos com muitos cuidados extra pois a prematuridade nos primeiros meses após alta requer mais vigilância, mais cuidados com possíveis infeções, menos idas a rua (no inverno quase nenhumas), mínimo de visitas. Mas apesar disso e agora que está a fazer um ano de alta delas, valeu tudo a pena. Este ano que passou foi sem dúvida uma grande aventura. Cuidar de gémeas, pais de primeira viagem e com muito poucas ajudas, pois os nossos familiares estão longe, não tem sido uma tarefa fácil mas prometemos escrever um dia sobre as aventuras e desventuras de pais de duas gémeas. Aliás, vou antes deixar para o pai escrever que ele tem muito mais jeito que eu.


Débora Barroso

Envie-nos a sua história para amaeequesabeblog@gmail.com para nos poupar um bocado os teclados do computador, se faz favor. E porque queremos dar a conhecer histórias diferentes.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Afinal Havia Outra (#25): O momento certo para engravidar?

Quando decidimos ter o primeiro filho contávamos com (ora deixa cá ver) pouco mais de três anos de casamento. Ele trabalhava, eu trabalhava e estudava. Era Dezembro de 2011. Deixei a pílula. Fui ao médico de família e depois ao ginecologista. Queria engravidar logo, há muito tempo que desejava ser mãe. Engravidei em Agosto do ano seguinte mas perdi o meu bebé quatro dias depois de me saber grávida.

Em Dezembro de 2012 engravidei novamente, soube-o em Janeiro de 2013 (há lá melhor maneira de começar um ano?!). Quase 41 semanas depois tive o meu filho nos braços e experimentei uma felicidade que, juro, é indescritível. Resumidamente, foi assim que tudo aconteceu e desde a decisão propriamente dita até sermos, efectivamente, pais passou mais de um ano e meio.

Ambos desejamos ser pais novamente, não sabemos exactamente quando. As dúvidas que, enquanto casal, fomos tendo antes de avançar para o primeiro são, estupidamente, as mesmas, às quais se juntam mais algumas por termos um filho ainda bebé. Estamos como que  a meio da ponte, sem saber para que lado ir. À direita avistamos placas que nos levam a pensar que o ideal era ser já e agora, à esquerda vemos caminhos de espera. E não é que a porcaria do GPS ficou sem bateria, dá para acreditar?! Ok, isto foi só uma graçola para aligeirar a coisa. Bom, vamos lá tentar organizar as ideias: 

A questão profissional/económica: nunca é a altura ideal, isso já não é novidade. Ambos temos trabalho mas a minha empresa vive uma situação complicada e isso assusta-me bastante. Desempregada e com dois filhos é só assim uma visão dramática. Quanto à questão financeira... bem, se esperarmos pelo dia em que vamos estar confortavelmente ricos, sem preocupações deste género, compremos então uma cadeirinha, fazendo jus àquela coisa do "esperar sentado";

A questão do tempo: é bem capaz de ser um dos aspectos que mais temo. Se eu, com um filho, já acho que tenho tempo para nada, como será com dois? Vai daí e penso que se nos organizarmos ainda mais, em família, somos capazes de conseguir dar banho a dois filhos em simultâneo, fazer as refeições, pôr na cama (embalar na "pior" das hipóteses), levar e trazer da creche... Temos dois braços não temos? Ora, aqueles dois multiplicados por mim e pelo marido dá quatro (surpreendido amor, tu que estás sempre a troçar de mim por não saber a tabuada?), o que me parece um número aceitável de braços para dar conta das tarefas todas. Ok, ok, aqueles programinhas que ainda temos feito porque a avó fica com o bebé devem passar a eventos anuais, mas lá para os 40/45 anos já estaremos em condições de retomar a nossa vida social;

A questão da aceitação do irmão: ter um irmão é das melhores coisas do mundo, verdade?. Ter um irmão com pouca diferença de idades, que alinhe nas brincadeiras, que partilhe sorrisos e lágrimas (bom, aqui o cenário já não é assim tão animador) deve ser ainda melhor.
Estou a pintar um cenário cor-de-rosa? Provavelmente, até porque gostaria de ter uma menina.
Queremos ter mais filhos? Queremos. E, se o momento ideal não existe, então que comece a grande aventura!

Clara 


sexta-feira, 22 de maio de 2015

Afinal Havia Outra (#25) O momento certo para engravidar?

Quando decidimos ter o primeiro filho contávamos com (ora deixa cá ver) pouco mais de três anos de casamento. Ele trabalhava, eu trabalhava e estudava. Era Dezembro de 2011. Deixei a pílula. Fui ao médico de família e depois ao ginecologista. Queria engravidar logo, há muito tempo que desejava ser mãe. Engravidei em Agosto do ano seguinte mas perdi o meu bebé quatro dias depois de me saber grávida.


Em Dezembro de 2012 engravidei novamente, soube-o em Janeiro de 2013 (há lá melhor maneira de começar um ano?!). Quase 41 semanas depois tive o meu filho nos braços e experimentei uma felicidade que, juro, é indescritível. Resumidamente, foi assim que tudo aconteceu e desde a decisão propriamente dita até sermos, efectivamente, pais passou mais de um ano e meio.


Ambos desejamos ser pais novamente, não sabemos exactamente quando. As dúvidas que, enquanto casal, fomos tendo antes de avançar para o primeiro são, estupidamente, as mesmas, às quais se juntam mais algumas por termos um filho ainda bebé. Estamos como que  a meio da ponte, sem saber para que lado ir. À direita avistamos placas que nos levam a pensar que o ideal era ser já e agora, à esquerda vemos caminhos de espera. E não é que a porcaria do GPS ficou sem bateria, dá para acreditar?! Ok, isto foi só uma graçola para aligeirar a coisa. Bom, vamos lá tentar organizar as ideias:


A questão profissional/económica: nunca é a altura ideal, isso já não é novidade. Ambos temos trabalho mas a minha empresa vive uma situação complicada e isso assusta-me bastante. Desempregada e com dois filhos é só assim uma visão dramática. Quanto à questão financeira... bem, se esperarmos pelo dia em que vamos estar confortavelmente ricos, sem preocupações deste género, compremos então uma cadeirinha, fazendo jus àquela coisa do "esperar sentado";

A questão do tempo: é bem capaz de ser um dos aspectos que mais temo. Se eu, com um filho, já acho que tenho tempo para nada, como será com dois? Vai daí e penso que se nos organizarmos ainda mais, em família, somos capazes de conseguir dar banho a dois filhos em simultâneo, fazer as refeições, pôr na cama (embalar na "pior" das hipóteses), levar e trazer da creche... Temos dois braços não temos? Ora, aqueles dois multiplicados por mim e pelo marido dá quatro (surpreendido amor, tu que estás sempre a troçar de mim por não saber a tabuada?), o que me parece um número aceitável de braços para dar conta das tarefas todas. Ok, ok, aqueles programinhas que ainda temos feito porque a avó fica com o bebé devem passar a eventos anuais, mas lá para os 40/45 anos já estaremos em condições de retomar a nossa vida social;


A questão da aceitação do irmão: ter um irmão é das melhores coisas do mundo, verdade? Ter um irmão com pouca diferença de idades, que alinhe nas brincadeiras, que partilhe sorrisos e lágrimas (bom, aqui o cenário já não é assim tão animador) deve ser ainda melhor.

Estou a pintar um cenário cor-de-rosa? Provavelmente, até porque gostaria de ter uma menina.

Queremos ter mais filhos? Queremos. E, se o momento ideal não existe, então que comece a grande aventura!

Clara

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Afinal Havia Outra (#24) - O dilúvio

Pois bem, todas nós (a grande maioria, vá) das mulheres já passou, passa atualmente ou irá passar um dia esta maravilhosa fase da vida que é a maternidade, mais nos vale saber de tudo e encarar tudo com a maior naturalidade. Se possível, rir-nos dos momentos mais estranhos ou sensíveis. No fundo, não levar isto demasiado a sério e não se desfazer em ranhos porque, para nós, ser mãe não é tão bonito e glamoroso como se lê na maioria dos livros ou se vê nos mais bonitos e delicados blogues.
A minha gravidez foi um mar de rosas, eu fui aquela grávida que evangeliza todas à sua volta para fazerem o mesmo! Relatada por mim, a gravidez era o tal estado maravilhoso, em que inchamos um pouco, mas estamos lindas de morrer, porque estamos a fabricar um ser fofinho. Tiramos fotos lindas, e mesmo que não estejamos muito bem, não faz mal, porque toda a gente vai adorar e dizer que estamos super bem e vamos ter mil likes onde quer que publiquemos a foto.


No meu caso, como vivo em Edimburgo, na Escócia, era ainda mais fácil de fazer a todos os amigos em Portugal acreditar que era tudo lindo e maravilhoso.
E a verdade é que era.
Enjoos? Nada.
Pés inchados? Nunca tive.
Aumento de apetite? Também não (mas não quero que me odeiem já. Nunca fui magra e no meu caso a barriga fofinha a quem sempre carinhosamente chamei de pipo, até serviu para me disfarçar aquelas gordurinhas típicas da zona lombar. Pneu! )

A única coisa que tinha eram de facto, algumas dores de costas, mas convenhamos, temos uma mini pessoa a levedar dentro do nosso corpo! Acho que é o mínimo que temos que sentir!

Tudo corria realmente impecável, até ao dia em que completei 27 semanas (6 meses em tempo de gente normal).
Estava no sofá com o marido, depois de decidirmos faltar a uma festa de aniversário em prol de um documentário sobre o 11 de Setembro (foi a 13 de Setembro) quando senti que se me escapava algo líquido. 
“JÁ?” –pensei eu, lembrando alguns textos lindos sobre perder o controlo dos músculos vaginais ao espirrar ou tossir no final da gravidez. Era um pouco cedo, mas se calhar já estaria em tal estado cachalote que já não me segurava.
Discretamente me levantei (tão discreta quanto pode ser uma pessoa redonda, em modo pino de bowling) e fui ao quarto de banho, não querendo por nada deste mundo partilhar tão belo momento com o marido.
Sento-me de novo e de novo um pequeno geiser. Neste momento a minha vontade de chorar já era bastante, mas controlei-me pois visto estar a perder liquido por outros meios, estava obviamente preocupada com uma desidratação.
A verdade é que o controlo de choro de uma grávida é tão resistente como um guarda chuva dos pequenos num dia de vento extremo. Virou.
Lembro-me de, entre baba e ranho, divagar sobre como iria conseguir sair de casa nos três meses que faltavam, naquele estado de incontinência grave. O marido, coitado, tentava de tudo para me acalmar. Em vão, claro está!
Preparamo-nos para ir ao hospital, e nos entretantos, eu já tinha molhado dois pijamas, umas calças de ganga e ensopado duas toalhas de banho. Das grandes.

A verdade é que aos 6 meses de gravidez, rebentaram-me as águas. Nem queria acreditar no que diziam os médicos e enfermeiros. Foi o maior susto das nossas vidas e estávamos sozinhos, noutro país.
Não foi fácil, mas correu tudo bem! Acho que nestas situações o melhor é seguir em frente e ter esperança!
O bebé era pequenino, mas estava bem e felizmente não achou que era hora de nascer. Fiquei de repouso e aguentamos assim mais um mês.
Fiz tricot para me entreter, apesar de não me ter entretido muito, pois a única peça que teve vida não serve nem para cachecol do puto. E olhem que o puto é bem pequeno!
Aos 7 meses (ou 31 semanas) nasceu o Vasco, com 1,530kg e uns bons 38cm. Um pequeno campeão.
Apesar de todo o perigo inerente a esta situação, ele esteve 1 dia no ventilador (apenas 1, ainda há quem não acredite), 15 dias na incubadora e 24 na Unidade Neonatal.
Até agora, não teve problema nenhum e é um bebé relativamente calminho e bastante fofinho.
Tem olhos azuis, o que é estranho pois nem eu nem o pai dele os tem, e começa agora, depois dos 3 meses, a ficar um pequeno buda e a encher os refegos das pernas, como se quer!
É uma alegria passear com ele na rua, e explicar que não, ele não acabou de nascer e sua mãe inconsciente anda já a arrastá-lo pelo frio escocês. É sim, um prematuro de 3 meses e meio que até nunca esteve doente. É só mais compacto que o normal, uma pocket version.

Ou então às tantas digo que sim, nasceu há duas semanas e eu é que já recuperei dos 15kg que ganhei.
Era capaz de não fazer muitas amizades!!!

Elsa Maria Gomes
mãe do Vasco

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Afinal Havia Outra (#23) - O meu parto durou 40 dias.

Nem gosto muito de escrever, mas gosto tanto do vosso blog que quis contar a minha/nossa história.
Tive uma primeira gravidez, mas o coraçãozinho da nossa estrelinha deixou de bater às 10 semanas e tive que ser internada para fazer um aborto com direito a raspagem, crises, asmas, muitas infecções, mas sempre com esperança que, dali a um ano, estaria naquele mesmo hospital de barriga grande para ter o meu bebé.

​Finalmente fico grávida novame​nte, mas até às 12 semanas não vivi a gravidez. Tive algumas perdas de sangue e andava sempre a ouvir o coração do bebé. Pensava eu que depois das 12 semanas é que ia andar tranquila. Errado.
Depois das 12 semanas começaram umas dores difíceis de explicar, parecia que estava com cólicas de período, daquelas em que temos vontade de nos deitarmos no chão, mas não o fazemos com vergonha... Várias idas à GO, às urgências, nada de contracções, bebé a evoluir bem, análises óptimas, só poderiam ser os músculos que estava a custar esticarem. Apesar do meu trabalho ser sedentário, às 20 semanas fico de baixa, mas como as dores não passavam, nem todo dia deitada na cama, a minha GO internou-me, por precaução, no dia antes das 23 semanas.

No dia a seguir, nova equipa médica, e vamos lá dar alta à menina, que isto não é um hotel e ela só tem umas dorzinhas, nada de especial. Mas pelo sim pelo não decidiram fazer uma ecografia antes de ir, por descarga de consciência... Ligam o aparelho e os dois médicos gelam, ficam brancos mesmo. Vi logo que algo se passava. Antes de dizerem uma palavra, ligaram o som para ouvir o coração, mas nem o som forte de um coração a bater conseguiu quebrar aquele gelo. Pouco depois, diz um para outro: "vamos dar já as injecções de maturação de pulmões". Resposta do outro médico: "és louca, o bebé só tem 300 gramas, 23 semanas, é impossível sobreviver". Não sei como mantive a calma e não desci pela cadeira...
Nesse instante viraram o monitor para mim e explicam-me que o bebé está bem, mas a bolsa está a descer pelo canal vaginal e pode rebentar a qualquer segundo e o bebé nascer, sendo que, com aquelas semanas, estou a ter um aborto. Nem consigo explicar os sentimentos que tive...
Disseram que não havia nada a fazer e que era esperar por um milagre. Se não rebentasse, seria mesmo milagre, pois a bolsa estava a sofrer pressão, como se fosse um balão cheio de ar a ser esmagado...
Perante tal cenário, fui novamente para o quarto, a acreditar que ia haver um milagre e ele ia aguentar assim até, no mínimo, às 35 semanas (muito positiva, eu). Fui para o quarto, fiquei deitada, pernas erguidas ao máximo, não me podia mexer nem para comer, não podia rir, necessidades era deitada e cocó era rezar para que não tivesse que fazer força...

Acaba a hora das visitas e o marido tem que ir embora. Estávamos sem chão. Eis que, pouco depois, sinto um balão a rebentar dentro de mim e fico toda molhada.
No dia em que fazia as 23 semanas, no dia em que fazia um ano que eu tinha estado naquele mesmo hospital para fazer um aborto retido, foi o dia em que a bolsa rompeu. Irónica, a vida. Lembrei-me do que tinha dito um ano antes: "daqui a um ano estarei aqui novamente para ter o meu bebé", mas, naquele momento, era tudo o que eu não queria...
Toquei a campainha e veio logo um batalhão de médicos e enfermeiros. Estava a ter um aborto e iríamos deixar o corpo fazer o trabalho dele. Fiquei a soro. Mas teimoso como o meu rapaz é, passou um dia, passou outro, e entre análises e medicação, cheguei às 24 semanas com a bolsa rota e o seu coração forte a bater.

Nesse dia, se nascesse, já teriam que investir nele. Deram-me as injecções para maturação de pulmões e enviaram-nos para o hospital distrital, que tinha neonatologia. Lá fomos nós na ambulância de cuidados intensivos, com toda a equipa que nos acompanhou nervosa, com medo que o bebé nascesse ali...
Chegámos ao hospital, nova ecografia. O bebé nem 400 gramas teria, e veio outra realidade, as estatísticas: o nosso tão desejado bebé só teria 0.01% de sobreviver e 99.9% de ficar vegetal. Só tinha líquido amniótico à volta da cara (que foi o que o ajudou a não sufocar).
Ficando na barriga a probabilidade era morrer sufocado, mas se nascesse, também teria morte certa, pois nem nos limiares de sobrevivência estava.
Então, como estava tudo perdido, iria ficar 100% acamada, com as pernas erguidas o mais possível e aguardar um milagre...
Lá fui para o quarto: pernas erguidas, davam-me de comer, banho à gato, punham-me a fazer xixi, análises ao sangue uma a duas vezes ao dia, soro sempre a correr, várias injeções (que nem sei para que eram), ecografias diárias, cintas várias vezes ao dia, vários comprimidos com vitaminas, 2 antibióticos para prevenir infecções e as horas foram passando. Três litros de água diária, músculos todos a atrofiar (já não tinha músculos nas pernas, parecia os braços de uma velhinha), dores de cabeça da mesma posição, sempre toda molhada mesmo com pensos enormes, pois todo o líquido amniótico que repunha, perdia. O pouco que o bebé se mexia doía horrores pois, sem líquido, não tinha o amortecedor nem espaço para ele se mover à vontade...

Milagrosamente lá fomos aguentando, até que numa das análises ao sangue, foi detectada uma bactéria. Teria que fazer uma cesariana, pois não era viável nascer de parto normal, mas nesse dia não podia ser, pois não havia incubadoras. Teriam que aguardar pelo dia seguinte para conseguirem uma. No dia seguinte, novas análises e os níveis da bactéria baixaram, por isso iríamos adiar mais um dia, por falta de incubadoras...
Na madrugada seguinte comecei com dores, mas fui aguentando e não disse nada. De manhã, vem o médico com o resultado das novas análises, com valores mais baixos, por isso iríamos aguardar mais um dia. Fez uma ecografia muito rápida e o peso estimado era igual ao do dia anterior, cerca de 800g. Eu digo-lhe que tinha a sensação que desse dia não passava, pois estava a ter umas dores que eram contrações, apesar do aparelho não marcar. Ele responde que era de estar acamada. As dores não passavam, até que deixaram de ser suportáveis. Não conseguia recuperar de uma, pois tinha outra seguida. Toco a campainha, vem a enfermeira com uma médica, e eis que estava já com a dilatação feita, mas teria que ser cesariana para o meu bebé não apanhar nenhum bicho... Foi uma verdadeira correria depois, cesariana de urgência, ninguém estava à espera, tinha que fazer força para apertar as pernas para o bebé não nascer por baixo e ligaram para a neo para preparem a incubadora...

E eis que, passadas duas horas, nasce o nosso herói M., às 27 semanas e 6 dias, muito inchado, com 1100g (quando o previsto eram 800g). O nosso milagre nasceu vivo e chorou, tipo gatinho, muito baixinho mesmo, mas a melhor das melodias. Não o toquei, não o beijei, não o cheirei. Só o vi de touquinha branca a sair num castelo de cristal...

Depois daquele dia tivemos ainda três longos meses de batalhas e vitórias, mas hoje o herói M., como gostamos de lhe chamar, tem 21 meses e é feliz, cheio de energia e com uma evolução fantástica!

Ana Ferreira

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Afinal Havia Outra - A tia do meu bebé

Esta tia vive longe e não pode aparecer de vez em quando para um café.

Ela está sempre lá, mesmo não estando perto, mesmo quando trabalha, mesmo quando não tem tempo nem para almoçar.

Ela preocupa-se. A sério. Com o sobrinho, com a mãe. Com a distância. Com o facto de não poder acompanhar todas as conquistas do pequenino a cada dia.

Ela quer saber. De tudo. Dos sorrisos, dos amigos, das gracinhas, das febres que não vão embora, de todos os dói-dóis.

Ela acha que o sobrinho é o bebé mais lindo do mundo. (Nesta parte eu, nada suspeita, até concordo).

Ela vê uma foto do bebé a dormir e reconhece que não há coisa mais fofa.

Ela tem muita vontade de mostrar o mundo ao sobrinho. Acorda com vontade de lhe oferecer viagens e de lhe dar a conhecer esta terra onde vivemos. 

Ela não está sempre cá para nos ajudar. Mas valem muito todas as palavras de conforto e todos os colinhos que são dados à distância. 

Ela tem saudades. Eu sei que tem. Tantas, tantas.

E vem de longe abraçar num fim-de-semana, os xis <3 perdidos de tantos dias. 

Ser Tia é ser a namorada do Tio, mas poderia bem ser uma irmã.

Esta é a tia Raquel. 


A Márcia quis surpreender a tia Raquel Godinho, que hoje faz anos. Apesar de não termos a rubrica Discos Pedidos, não conseguimos negar fazer-lhe esta surpresa, tão cheia de amor. 
Que sorte os nossos bebés terem tias assim!

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Afinal Havia Outra (#22) - Tive o meu filho numa banheira

Há um ano e meio mudamo-nos para a Escócia. Passados poucos meses, assim como tínhamos planeado, foi com grande felicidade e entusiasmo que descobrimos que estava grávida. O tão esperado momento havia chegado!

Tive uma gravidez tranquila, sempre acompanhada com excelentes profissionais de saúde, que me transmitiam a cada consulta uma confiança que qualquer mãe de primeira viagem precisa.

Não hesitei assim que soube que na maternidade onde o meu filho ia nascer, havia a hipótese de que o parto fosse na água.

Às 38 semanas e 3 dias, pela manhã ao acordar, as águas rebentaram. Mantive-me sempre calma e liguei para o hospital, duas horas depois tive a visita da parteira em casa. Ainda não tinha contracções e recebi alguns conselhos para tentar acelerar o trabalho de parto.
Liguei para o meu marido que estava já pronto para deixar o trabalho a qualquer momento para me acompanhar. Almoçamos juntos e logo a seguir ao almoço, sentamos-nos no sofá. De repente deu-me um click: "Não posso ficar aqui parada!" Saltei do sofá e comecei a seguir todos os conselhos da parteira. Ao longo do dia foram vários os banhos de imersão com o chuveiro a apontar para a barriga, subir e descer escadas, alguns squats e ao fim de uma longa caminhada com o meu marido, já as contracções faziam prever que estava mesmo quase o momento que tanto ansiavamos.

Dei entrada no hospital às 19h, já com dilatação e contrações muito próximas. Só tive tempo de pedir para encherem a banheira e baixar as luzes. Aguardei que o meu marido viesse com as malas do carro para entrar na água. A música que tocava era da rádio. Entrei na água devagar e tentava relaxar entre as contracções. Cá fora, tinha de um lado a parteira, do outro lado um pai ansioso e aflito. A cada contracção dávamos a mãos e o olhar de um e outro reconfortava-me e dava-me energia para quando fosse a hora de fazer força. Num momento de dor e algum desespero perguntei à parteira o que devia fazer, ela olhou-me nos olhos e disse apenas para seguir os meus instintos. São momentos em que nos tornamos animais, agi de forma puramente instintiva, movia o meu corpo livremente na água, e por vezes de forma brusca pois assim tinha que ser. A temperatura era medida regularmente e ao meu lado tinha uma botija de gás nitroso que inalava entre as contracções, pois ajudava a relaxar os músculos e atenuar as dores. Não tive epidural por opção. Entre voltas e reviravoltas na água, pude levantar-me e consegui ter controle total sobre o meu corpo. O momento estava cada vez mais perto. A parteira usava um espelho debaixo de água para ver os avanços. Algum tempo depois já era possível ver a cabeça. Fui convidada por ela a tocar na cabecinha bem cabeluda do meu filho. Foi uma sensação única e indiscritível tocar naquele cabelinho tão macio e sedoso debaixo de água. Na verdade acho que foi isso que me ajudou a fazer o “push” que o meu filho aguardava para vir para os meus braços.

Foi às 22:31 que o meu maior tesouro emergiu da água, o cordão estava enrolado no pescoço o que lhe deu um tom roxinho. Com saudáveis 3,110kg foi directamente para o meu colo e ali ficou por 15 minutos. Foi a única exigência que referi na parte do livro da grávida, em que teria que preencher os espaços relacionados com as espectativas e desejos para o parto. “Quero ter o meu filho ao peito o máximo de tempo quanto possível antes de sairmos da água”. E assim foi. O pai do lado de fora, molhava o seu corpinho enrugado para manter a temperatura e esperava ansioso a hora de também poder pegar no filho. Pudemos juntos sentir o pulsar do cordão e apreciar o milagre da vida. Foram minutos mágicos e muito especiais. O cordão foi cordado pelas mãos do pai que logo de seguida tirou a blusa para pegar no filho “skin to skin”. A expulsão da placenta deu-se ainda na banheira, já sem água. Ao sair, fui logo examinada e permaneci em repouso na cama. Ali ao meu lado foram feitos os primeiros procedimentos ao bebé e nem por um momento o meu filho foi levado para longe do meu campo de visão. O pai acompanhava atento os passos da enfermeira e eu aguardava para voltar a ter o meu filho nos braços. A primeira vez em que ele mamou ainda com poucos minutos de vida, foi um momento indiscritível.

Numa só palavra a experiência de ter sido Mãe na água foi fantástica!

Desde que entrei na água até ter o meu filho nos braços foram apenas 3 horas, as mais intensas da minha vida!

Tivemos alta ao meio dia, do dia seguinte e nos primeiros 15 dias recebemos visitas diárias das enfermeiras/parteiras para sermos examinados. Ajudaram-nos a tirar dúvidas e mais uma vez recebemos a cada visita, aquela dose de confiança que tanto precisávamos.

Os primeiros banhos do meu filho foram no meu colo no chuveiro, dormia sempre relaxado e aninhado a mim. Continuamos assim a ter uma relação muito especial com a água.


Bruna Viegas
Mãe do William

terça-feira, 21 de abril de 2015

Afinal Havia Outra (#21) - Primeiro mês: manual de instruções.

Apesar de nos sentirmos mães durante a gravidez, a verdade só chega com o nascimento. Comigo foi a 11 de fevereiro. Já lá vão 2 meses e sobrevivi sem manual de instruções, como todos os pais. Ajudam as conversas com outras mães e é nessas conversas que percebo que, afinal, eles são iguais. Os nossos filhos são iguais! Afinal quase todos passam pelo mesmo. Afinal podia haver um livro de instruções para o primeiro mês. Ou estarão as mães com quem troco impressões a mentir? Não me parece e por isso decido avançar com uma espécie de "manual de instruções para o primeiro mês". O que acham? É que para quem passa por isto pela primeira vez é bom saber que é mesmo assim. Que podes fazer isto ou aquilo e até saber que pode ou não resultar mas, caramba, se são todos iguais, se passam todos pelo mesmo, então porque não alertar para este mês inaugural em que somos lançados às feras? Vou fazer a minha tentativa e digam-me se não são todos iguais. E acrescentem se me esquecer de alguma coisa.

Capítulo 1: Ai que trocaram o bebé
A felicidade de sair da maternidade esgota-se logo na primeira noite em casa. Chegamos felizes, mostramos a casa ao bebé (pelo menos eu fiz uma espécie de visita guiada) até que à noite tudo se transforma e parece que nos trocaram o bebé. "Mas lá não chorava". "Dormia tão bem". "O que se passa?" "Deve ser do berço". "Ou terá frio? Ou calor?". Etc. Não sei se é a nossa insegurança de já não ter a campainha para pedir ajuda, mas a verdade é que é uma choradeira pegada, da bebé e da mãe. Se vos acontecer… é normal.

Capítulo 2: Afinal são cólicas
O choro é estridente. Tentamos acalmar. No colo. No berço. De lado. De barriga para baixo. Assemelhamos o ambiente ao útero com muito aconchego e o famoso “shhhh”. Até pode acalmar, mas por pouco tempo. As pernas esticam até não poder mais e o choro parece gritado. Por vezes a barriga está rija. Outras vezes se batermos com a mão sentimos que está oca.  Lá percebemos que são cólicas. Há massagens diárias para fazer. Há o saquinho de água quente na barriga para aliviar a dor. Há a alimentação da mãe que tem de ir fazendo experiências. Há chá de funcho e camomila. Há leites para ir variando para quem não amamenta. Há probióticos e medicamentos. Há quem use o tubinho do bebe gel vazio para sair ar. Pois nós temos tentado de tudo. É preciso fazer experiências (falando com o pediatra, claro). Mas é preciso é paciência porque é normal e se as experiências não resultarem, o tempo curará. Nada de grave para o bebé mas muito sofrimento para todos. Mesmo.

Capítulo 3: Os picos

- os picos de crescimento
O bebé chora sem parar. Mamou há 1h30. Vamos ver todos os outros sintomas do choro. Nenhum corresponde. Só se cala na mama. "Bolas está a ficar mal habituado" ou "terei leite suficiente?" Tudo normal. É um pico de crescimento. No meu caso aconteceu na primeira e na sétima/oitava semanas. É de loucos. Questionamos tudo. Temos medo que a partir de agora seja sempre assim. Queremos dormir. Mas não! Acaba por passar. Por isso é dar mama ou biberão quando pede, porque é normal. Ah! Normalmente o sono fica mais perturbado. (Pelo menos foi assim com a Alice).

- os picos no berço
Pois que chega a dada altura que o berço ganha picos. É verdade! O bebé está ferradinho no nosso colo e assim que toca no berço desperta. Preparem-se para imagináveis malabarismos. Preparem-se para entrarem no berço. Preparem-se para passar o testemunho ao pai em estado de desespero, porque a meio da noite e à terceira tentativa ninguém aguenta. Mas dizem as mães com quem falei que também passaram por isso. Não é do berço. Não são vocês que o habituaram mal. Tem dias e é normal! Há-de passar!

- os picos de choro 
Nas mil pesquisas pela internet li que lhe chamam “a hora da bruxa”. Pois eu não acredito nelas, mas a verdade é que houve ali uns tempos em que a Alice começava a chorar por volta das 23h até às 2h. Mudámos a hora do banho e tudo, mas nada a fazer. Ferradíssima. Quarto calmo. Os pais a aproveitar para descansar. E há um despertador diário. Nessas horas há muito instabilidade. Ora chora, ora parece que adormece, ora volta a chorar… e passam-se as horas nisto. Já sabem, é normal e passa. A Alice já passou essa fase.

Capítulo 4: O peso
Ui o peso! Semana a semana há uma balança e há uma tabela a cumprir. E há uma série de pessoas a perguntar “mama bem?”; “tens leite?” (principalmente com mamas pequeninas como eu); “se calhar precisa de suplemento”; etc. Há uns que ganham peso e há outros que perdem.  (Atenção que na primeira semana todos perdem). Mas tudo tem solução e todos crescem. É só ver matulões e matulonas que não ganhavam peso. O meu conselho é descomplicar. O chichi é um sinal que está bem de saúde. E se a experiência de pesar não for das melhores, (pela espera; pelos comentários que ouvimos; porque o bebé chora, etc.) arranjem uma solução que vos tranquilize. Há balanças self service nalguns centros. Ou podem sempre alugar ou comprar que também não é muito caro. Ou ir à farmácia e pesar com roupa e dar o desconto. É mesmo bom não complicar. Apesar de ser algo bastante importante para o bebé, acho que colocam demasiada pressão nos pais. Portanto, é normal se se sentirem muito preocupados em saber se estará a aumentar. Todos passamos por isso. Ah! E confiem na vossa intuição nos comentários menos positivos. 

Capítulo 5: O cocó  (sejamos diretos)
Neste primeiro mês vale tudo! No início, altura do colostro, é uma pasta meio verde. Dura que se cola ao rabinho. A partir da subida do leite é amarelo ou verde e muito pouco consistente. Aviso já que passei a trocar a fralda de lado depois de ter sido atingida por dois repuxos. E a fraldinha sempre em posição de escudo para travar qualquer acidente. Mas voltando ao que interessa, não se preocupem com a quantidade. O bebé pode fazer 8 vezes por dia, 3, ou mesmo nenhuma. É tudo normal neste primeiro mês.

Capítulo 6: O animal
Minhas queridas não vão levar apenas um bebé para casa. Não. Levam também um animal. Mas muito querido. Vão estranhar os rugidos que saem da boca do vosso bebé na hora do sono, mas também é normal. Aqui a Alice às vezes parece um cão a rosnar (mas em modo querido, claro), outras vezes assusto-me e penso que é um gato (é que tenho medo). Às vezes parece que ressona. Ou ressona mesmo? Coitadinha! Esta é também a fase dos espasmos e dos tremelicos. Tudo normal. Animem-se.

Capítulo 7: A mãe.

- As maminhas
Dediquem-se às maminhas por favor (quem amamentar, é claro). Mesmo com boa pega é normal que no início sofram um bocadinho. É até calejar, como diz aqui a JPB. Atenção à subida do leite por volta dos 5 dias. Pode ser muito chato, podem não dar por nada, pode ser apenas ligeiro com febres e as aminhas doridas. No meu caso ajudou o Purelan no início (comecei ainda na gravidez). Independente do creme o importante é hidratar e ter um creme para as fissuras caso aconteça. Depois, ajudaram as massagens no banho e uns saquinhos com gel que comprei que tanto dão para o frio (depois da mamada) como para o calor (antes da mamada). Ah! E andar com as maminhas ao léu também alivia no início!

- As lágrimas
Não são as lágrimas do bebé, não! São as nossas! Ui como correm! As minhas correram durante um mês. É normal. Mas nós por mais que tenhamos ouvido falar do babyblues não achávamos que seria assim. São as hormonas aos saltos. Pensem que é normal. Não compliquem. Abracem o pai ou a mãe ou a irmã. Quem estiver convosco. Digam como se sentem. Sem problemas. Vão ouvir que é normal. E vão acalmar. Vai voltar. Várias vezes. Vão achar ridículo. Vão questionar coisas. Vão pensar que vai ser sempre assim. Vão sentir que não se reconhecem. Vão ter medo que seja depressão pós-parto. Mas depois passa. Passa mesmo. É normal!

- O saco de boxe
Preparem-se para descarregar no pai. Vão andar às turras. Vão embirrar com ele. Acho que coincide mais ou menos com a fase em que o babyblues vai desaparecendo e o pai vai trabalhar. Deve ser inveja! Também é consequência da falta de sono. Mais uma vez, é normal e por isso refilem e reclamem e depois abracem-se e descompliquem, porque é uma fase e passará. Não vale a pena alimentar as turras do sono. Não sei se já vos disse mas… É normal!

Usem e abusem da palavra “normal” porque é mesmo assim! No pior drama, porque temos momentos destes, é pensar que faz parte. Lembrem-se que há uma espécie de manual e que o primeiro mês (mais coisa menos coisa) passa.

Célia Alves

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Afinal Havia Outra (#20) - Birras: sabem como lidar com elas?

Quatro anos e duas filhas depois, eu continuo sem saber lidar com as birras. Pensavam que iam encontrar respostas neste texto, não é verdade? Mas não - daí o ponto de interrogação no título…

Sempre que uma delas dá início a uma birra, a primeira coisa que eu faço – depois de respirar fundo, muito fundo – é pensar na injustiça da situação. “A sério?! Estás a começar uma birra e ainda agora estávamos aqui tão bem a brincar?” Ou então vou ainda mais ao detalhe: “Acabei de te comprar mais uma camisola da Elsa do Frozen e ontem deixei-te comer um ovo kinder e tu fazes-me isto?!” No fundo, a uma birra delas eu respondo com uma minha, ainda que a minha se desenvolva ao estilo Ally McBeal, no interior da minha cabeça e quase sempre com muitos resmungos, gestos e alguns palavrões à mistura.

E depois penso em todos os conselhos que já me deram até hoje: “Sem público não há espetáculo… conta até dez e respira fundo… já disseste que não, por isso é não até ao fim… coerência é segurança… pensa em coisas boas… bahhhh!” Um verdadeiro desatino!

Eu sei que as birras fazem parte do crescimento das crianças e são fundamentais para o desenvolvimento da personalidade delas. Mais do que isso, são uma forma de expressarem a frustração que sentem perante alguma situação. Mas conseguem partir de coisas muito estúpidas mesmo. “Mãe, não queria o pão partido em três, era em dois” ou então fazerem um espetáculo de todo o tamanho porque queriam carregar no botão do elevador e eu já tinha carregado…

As birras conseguem ser momentos terríveis para nós, pais, aos quais é preciso sobreviver – e por “sobreviver” quero dizer não nos passarmos (muito) da marmita, tentar que a coisa dure o mínimo de tempo possível e passarmos alguma mensagem de jeito às miúdas. Confesso que já tive de pedir um “desconto de tempo” à minha filha para subir a escada, entrar no meu quarto, fechar a porta, mandar um berro valente, respirar fundo e voltar a descer a escada para terminar a conversa. 

Tenho para mim que, no final de uma birra, a coisa até não correu mal se eu mantive a minha posição desde o início, se ela percebeu porque é que não podia fazer ou ter aquela coisa naquele momento, se não dei por mim aos berros e se acabámos por dar um abracinho. Mas nem sempre é assim. E a única certeza que temos é que, tal como as ondas do mar, depois desta há-de vir outra. Mais cedo ou mais tarde, dependendo da maré…

Catarina Raminhos, mãe da Maria Rita e da Maria Inês