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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Às melhores filhas do mundo

A vocês que me desculpam sempre,
que têm um coração puro, sem maldade,
que me sorriem mesmo que tenham dormido mal
e que às vezes têm de levar com as minhas trombas.

A vocês que me vêem chorar
e que assim sabem que sou gente,
e que não faz mal expressarmos as nossas emoções,
que não temos de engolir choros ou ir chorar para longe,
apesar de eu às vezes desejar isso a alguém tão pequenino e indefeso,
só porque estou cansada.

Já te pedi, Isabel, "cala-te por favor!"
Já te disse, Isabel, "não chores mais!"
Já te implorei que parasses.
E agora te digo, Isabel, que ainda bem que falas, interrompes, choras e tens bicho carpinteiro.
Estás viva, estás a aprender, estás a testar, estás a crescer!
Tudo demora o seu tempo.

A vocês, minhas filhas queridas,
que se contentam com tão pouco
com uma careta, um bolo imaginário, uma dança alegre, um colo a três
E que às vezes empanturro com informação e objectos e vozes estridentes
como se fosse preciso um circo montado para preencher a ausência de outros momentos.

Exijo que me ouças à primeira, Isabel, que faças o que te digo
quando nem sempre levanto os olhos do telemóvel quando me interpelam.
"Mãe, estás a ouvir?", perguntaste-me, com dois anos! Dois anos!
E nesse momento levei uma chapada imaginária e caí em mim.
Não, não estava a ouvir. Apesar de ter anuído.

Prometo-vos, minhas filhas,
estar mais, de verdade.
Prometo-vos dar-vos o exemplo, mais vezes,
e não exigir tanto de vós,
quando nem sempre vos dou o que merecem.

Merecem tudo.
Olhares ternos,
ouvidos atentos,
abraços demorados,
colos cheios de empatia.
Porque é isso que gostava que fossem, nas vossas vidas.

Presentes.
Conscientes.
Amáveis.





 
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domingo, 8 de janeiro de 2017

Isto também vos deixa tristes?

Desculpem. Não queria contribuir com algo negativo para o vosso fim-de-semana. Porém, como é mesmo a reflexão que ando a fazer desde há um dia ou dois, não consigo evitar. 


Cada vez julgo menos as mães. É injusto falar "à boca cheia" quando não conheço o contexto. A única coisa que gostaria é que todas nós conseguíssemos ter vontade de ganhar novas ferramentas para, quando chega o momento em que já não conseguimos pensar, conseguirmos optar. Optar por algo mais oportuno para ambas as partes, com menores danos (visíveis ou invisíveis) e com menos culpa e maior eficácia (mesmo que a médio/longo prazo). 

*We heart it 

Estou em vários grupos no Facebook (hoje mais uns 16 graças à Jhuaninha, ahah) e num deles - onde sinto que as mulheres são mesmo muito cruas e onde se criou um espaço de partilha sem cerimónias - fala-se de sexo, traições, inseguranças e até já houve uma menina que eu muito admirei que publicou algo a dizer que se sentia sozinha e que precisava de amigas. 

No meio de tanta partilha (umas que me fazem lembrar aquelas coisas que circulavam por mail nos anos 90 ou assim), encontrei um post que me deixou triste e que me deu vontade de refletir. Por motivos óbvios não digo o grupo, nem vou referir os nomes das participantes. Grupo fechado é fechado e é para respeitar. 

Houve uma rapariga disse "Digam uma frase que a vossa mãe dizia e que mais vos marcou a infância.". Já vai em mais de 600 comentários até ao momento da escrita deste post. Vou transcrever alguns (a mim também me deu vontade de rir de vez em quando na primeira leitura, confesso, mas depois deu-me mais para pensar): 

Nota: estou a seleccionar as mais comuns e as que mais me deixaram triste

"As meninas feias têm de ser simpáticas!"

"Engole o choro!"

"Nem mais um pio!"

"Quando chegar o teu pai vais ver!"

"Já chega de chorar, senão ponho-te a chorar com vontade!"

"Levas uma lamparina que até andas de lado!"

"Para de rir, para, olha que apanhas mais!"

"Se for aí e encontrar levas com ele na cara!"

"Viro-te a cara para onde tens o cú!"

"Vou-te partir o focinho!"

"O primeiro a chorar, leva!"

"Diz a verdade que a mãe não te bate... Pumba!"

Já sei que nem todas pensamos da mesma maneira e que muitas de nós pensam que "uma palmada na hora certa, blá blá". Porém, acho que quando tivermos uns minutos (ou presas no trânsito ou naqueles dias em que podemos ficar mais um minuto ou dois na sanita) podíamos pensar se isto tem tanta graça assim como poderá parecer à primeira vista. O que sentirá a criança em cada uma destas situações (que obviamente, depois de ditas 50 mil vezes, já não devem "furar" mais do que já está "furado")? E o que isto quer dizer de cada mãe em cada situação? 

Ser perfeito é impossível, mas nada nos impede de irmos crescendo também à medida que eles vão crescendo. Aprendi qualquer coisa com este post e queria que vocês também vissem algo especial como eu e que vos ajudasse a pensar, caso achem que precisem. Isto de tentar melhorar diariamente, reconhecendo os nossos erros acaba por ser um desafio engraçado e produtivo. Vemos os resultados diante de nós. É gratificante também. Talvez não seja no próprio dia, mas já não somos nós crianças de querer tudo logo na altura, não é? :) 

Gostei muito de um livro que me ajudou a ganhar algumas ferramentas para contornar (até agora) situações mais complicadas: é este. 


E "oiçam", não sou nenhuma expert, não sou a melhor mãe do mundo, hoje tive duas ou três situações delicadas com a Irene em que estive muito perto de me passar. Numa até me passei um pouco mais do que queria, mas amanhã é um novo dia e estou a fazer tudo o que posso.

Nota2: Às meninas do fabuloso grupo, não duvido que as vossas mães sejam maravilhosas e que tenham dado mundos e fundos para que vocês se tenham tornado nas mulheres que são hoje. O que é importante agora, poderá não ter sido o que era importante na altura e, mais uma vez, não julgo. Quero só propor que façamos melhor. Talvez, se elas fossem mães de crianças nesta altura, também tentariam fazê-lo. :) Ou, se calhar não e vocês virem-me a cara para onde tenho o cú. 


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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Quando é que me esqueci de que ela é pequenina?

Não sei se foi por estar cansada, com o desafio de estar pela primeira vez tantos dias sozinha com as duas, ainda por cima adoentadas e mais carentes (falei sobre isso aqui). Não sei se foi da quadra natalícia, que mexe muito comigo e me deixa um bocadinho triste (falei sobre isso aqui). 

Dei comigo à procura de uma resposta que me fizesse sofrer um bocadinho menos e que me fizesse voltar a olhar para a Isabel com o respeito que lhe tinha quando ela era bebé. Dei comigo a perceber que a ando a tratar com demasiada rigidez e autoridade (não confundir com coerência e disciplina, porque isso acho que é preciso), com brutidade, até, como se ela fosse um adulto a precisar de um abanão e de um puxão de orelhas (e eu acho que nem os adultos devem ser tratados assim...). Dei comigo a ter a certeza de que estou a exigir demasiado dela, a mandá-la calar, a pedir-lhe que pare de fazer birra, vezes sem conta.  

Eu não estou a ser a mãe que quero ser. Nem a mãe que ela precisa que eu seja.  

E, para que possa afastar a culpa de mim, e com ela levar a mágoa e a tristeza de não estar a ser quem quero ser, nem a construir a relação que quero com a minha filha, tive de fazer alguma introspecção e procurei fotografias dela quando ela era bebé. Tentei perceber onde e quando deixei de vê-la como uma bebé e passei a vê-la como alguém que tem perfeita noção do que está a fazer. Quando comecei a vê-la como manipuladora. Quando comecei a gritar com ela, a achá-la chata e até a ter raiva dela (ou de comportamentos dela).

Não tenho ainda respostas para tudo, mas fez-me bem chorar, descomprimir e voltar a apaixonar-me pela minha filha. Andava numa fase de algum desencanto, mesmo que com o coração a transbordar de amor e a ficar surpreendida com a inteligência e sentido de humor dela (o injusto que isto é, quando ela, mesmo com a minha gritaria, me adora a todos os instantes e me desculpa na hora).

Talvez tenha sido quando se começou a expressar melhor, a falar melhor. Talvez tenha sido quando começou a franzir o sobrolho e a dizer frases completas e bem estruturadas, a queixar-se, a zangar-se. Quando começou a fazer birras a sério, a bater e a dizer que não quer, que não gosta. Ela reproduz tudo o que vê, é muito autónoma e está naquela fase em que quer fazer tudo sozinha e diz mil vezes que é crescida e isso fez-me vê-la como alguém realmente muito desenvolvido e crescido. 

Ela nem três anos tem. É a minha bebé, a minha filhota. Está a processar tudo a mil à hora, não tem o cérebro desenvolvido o suficiente para conseguir articular a frustração. Está a conhecer os limites, a testá-los. Ela não nos quer mal, não nos quer chatear. Ela é uma querida. E eu amo aquelas pestanas, aquela gargalhada, aqueles olhinhos de bambi ternurentos. E, no fundo, aquela teimosia ainda lhe vai dar muito jeito no futuro. Espero que saiba valer a sua vontade, debater e argumentar, pela vida fora. Acaba por ser esse o treino agora. 

Via-a tão pequenina naquelas fotografias e no meu colo e vejo-a agora, tão desafiante e tão minha. Quero-a assim, aceito-a assim. E quero ajudar a fazer dela uma miúda e uma mulher segura, carinhosa, feliz.




(Isabel com 6-8meses) <3

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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Ela só pode estar a fazer isto para chamar a minha atenção.

A Irene anda numa de fazer coisas más e de me perguntar a seguir se estou contente ou triste, sabendo perfeitamente que se "portou mal". Quando digo que não, ela fica muito triste e desata a chorar. Tenho tentado diversas abordagens: desde dizer que não fico triste e aproveitar para lhe apresentar outras emoções, mostrar-lhe a minha frustração, ensinar-lhe a diferença entre portar bem e portar mal...

Todas as fases têm os seus desafios, é o que tenho vindo a reparar, mas esta tem-me deixado de pulga atrás da orelha, exactamente por parecer que ela fazer o contrário daquilo que quer como resultado. Se me quer agradar, porque é que se porta mal? 

Ecoou na minha cabeça, numa dessas vezes, a palavra "atenção" - "ela só pode estar a fazer isto para chamar a minha atenção". Claro que, por um lado, poderá sempre ser aquele sentimento de "culpa" por ter feito máquinas de lavar roupa em vez de ter estado a brincar aos cabeleireiros com ela, mas sinto que faz sentido. 

Creio que talvez ainda não nos tenhamos adaptado ao novo registo de ter a Irene na escola. Ela continua a precisar de nós, não é por andar feliz a brincar de um lado para o outro que depois não precisa do olhar da mãe e dos abraços do pai. 

Não gosto que o "castigo" que lhe esteja a dar sejam as minhas emoções. Gostava que ela não fizesse coisas "más" por saber das consequências, mas nem todas as consequências parecem dramáticas o suficiente para que ela as compreenda. Nem tudo é "sujar tudo" ou "queimar" ou "dói-dói". Às vezes é só pedir para ela evitar andar a baloiçar com a colher na mão que ainda está suja de arroz ou que não repita tantas vezes o som de bater com uma caneta na outra.

Sentindo-me perdida, pedi ajuda a uma amiga que é psicóloga. Ela deu-me a perspectiva de que a Irene está a passar por uma fase muito intensa. Deixou de ter os pais 90% disponíveis para ela, para umas curtas horas, depois de passar imenso tempo na escola em que não é filha, mas uma "criança de bibe" (expressão minha). Dantes assistíamos a todas as conquistas dela, reforçávamos, elogiávamos... Agora é diferente. 

Sugeriu que lhe dissesse que a amo em qualquer circunstância e que separarasse as emoções do momento de amor incondicional, dar nomes às emoções (às dela e às minhas) e perguntar-lhe o que podemos fazer quando estamos zangados ou tristes. 

Claro que, dentro de mim, irei chegar às melhores soluções possíveis, mas sinto que tenho uma pessoa pequenina com quem ainda não posso falar como os crescidos e que também já não posso não falar sobre coisas importantes, só por ser pequenina. 

São desafios atrás de desafios. Acima de tudo quero viver isto de forma consciente e estou contente por estar a fazê-lo. A seguir a este desafio, virá outro e nunca serão mais fáceis. 


Ainda hoje de manhã me disse "a mãe depois vai buscar a Necas à escola ao colo?". Quando digo que sim, ela parece ficar mais calma e aceitar melhor que vai para a escola. O colo... 

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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Estive quase a puxar a mão atrás.

Há dias que nos levam ao limite. Há dias em que parece que está tudo organizado para nos lixar a cabeça, para nos deitar abaixo e que nos fazem questionar tudo e mais alguma coisa.

A Irene vem muito sensível e cansada da creche. Estava habituada a fazer três horas de sono à tarde, sem ninguém a perturbar, agora acorda com os outros miúdos (dormem todos na mesma sala, claro), além de passar o dia muito mais ocupada e, por isso, gastar mais energia. 

Agora, por também conviver com outros meninos da idade dela, também aprendeu a ser chafurdona com a comida. Ainda ontem decidiu cuspir a quinoa toda (fui eu a cozinhá-la, pensei que poderia ter toda a razão) e gritar que queria comer a minha massa. Disse que sim, mas que primeiro tinha de comer uma de sopa dela, uma de comida dela e depois uma de massa minha. Dizia que sim, aceitava a quinoa e depois cuspia. Eu dizia que, sendo assim, não havia massa porque além de ser uma porcaria que faz com que ela tenha de limpar o chão, faz com que a mãe fique triste por ela não ter aceitado e, portanto, fique sem vontade de lhe dar a massa.

Ela continuava a agir bem para comer a massa, mas depois cuspia na mesma. Reparei que, à semelhança de outras alturas em que a Irene fica com muito sono, não estava a fazer qualquer sentido. Isto enquanto, à moda antiga, estava louca para lhe mandar três ou quatro berros, ameaçar-lhe com tareia umas duas vezes e ainda pendurar-me nisso para não lhe contar uma história de boa noite. Não. Vi-a como uma criança morta de sono e que queria muito comer a massa e que não estava a gostar de comer a quinoa. Perguntei-lhe: 

- Queres um abraço, Necas? 
- Sim. 


Dei-lhe um abraço. Numa altura em que ela pensaria que eu estaria super desapontada e zangada com ela. Compreendi que também eu, por vezes, tenho sono e não faço sentido. Não adiantaria ninguém ficar zangado comigo ou tentar ensinar-me alguma coisa naquela altura. Olhei para ela como uma mini mulher, meia descompensada por cansaço que também faz com que fique mais sensível. Dei-lhe um abraço de mãe e sentei-a no meu colo.

Comeu a sopa toda e a quinoa, esqueceu-se da massa até que, no final, lhe dei. Deu-me uns quantos beijinhos voluntariamente no braço enquanto jantava. 

E foi tudo pacífico até ir dormir. Com história da Patrulha Pata e tudo. 

Um abraço que mudou tudo. A noite da filha, a noite da mãe e mais uma grande lição para mim. 

Agora vou aprender a cozinhar Quinoa e já volto. 

 


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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

"Anda lá, despacha-te! Não vês que a mãe está com pressa?"


No dia em que se fartarem da minha partilha de aprendizagem com a Irene, digam (que não muda nada, eheh). Gosto mesmo de vos ir mostrando as coisas que vou retirando para que mais aprendamos mais depressa ou então, caso não concordem comigo, ao menos que pensemos todas juntas e sejamos pais (e mães, claro) mais conscientes. Acho que essa é a principal tendência desta nova geração de pais. As coisas estão a mudar (ainda bem) e uma das melhores coisas (com outras negativas que vêm com elas) é que pensamos mais e, muitas vezes, até melhor no exemplo que damos aos nossos filhos e no caminho que queremos percorrer com eles até serem alguém de valor. Damos mais importância à felicidade interior do que, propriamente, a não poderem fazer birras porque têm de se comportar como adultos ainda com 2 anos de idade. Acho que estas mudanças são naturais, tendo em conta a maneira como fomos educados. Muitos de nós estamos a tentar fazer diferente. Não rejeitando tudo aquilo que nos foi transmitido (nem tudo estava mal, credo), mas melhorando as coisas das quais sentimos falta. 

E, por isso, tento estar atenta às coisas que faço e, principalmente, às coisas que impinjo à Irene. 

Lentamente me fui apercebendo que a minha fúria de querer fazer coisas com ela quando chego do trabalho não estava a ser saudável para ambas. Dei por mim a sair todos os dias e a fazer coisas "lá fora" com ela, por ela não sair de casa até eu chegar, mas reparei que há muito tempo que não a sentia nos meus braços sem distracções. Tenho andado a ficar mais tempo em casa, dedicada só a ela, sem piscinas, sem jardins e baloiços. Ouvir o que ela tem para me dizer e vê-la a brincar (brincado com ela também). 

Ainda dentro dessa fúria, reparei que, por querer manter mais ou menos a rotina da Irene, tudo o que tínhamos de fazer era a despachar. Chegava a casa e tentava abreviar a mamada para "termos tempo para ir à piscina". Apressava-a para mudar a fralda, mesmo quando a ela ainda lhe apetecia estar mais um bocadinho deitada... Afinal, quem é que queria ir à piscina? Por quem estava eu apressada? Se a Irene quer demorar mais tempo a fazer as coisas e se, por isso, não formos à piscina... vamos noutro dia. 

Bem sei que isto são problemas de primeiro mundo. "À piscina? São muito finas!". O problema é que a piscina não é nossa e ainda temos de conduzir até lá chegar e voltar, se fosse nossa "não haveria pressa". Estou sempre a apressá-la, porque quero que tenhamos tempo para fazer "tudo". Para quê? 

O melhor é mesmo planear pouca coisa ou "deixar ver". Uma suposta ida à piscina pode ser trocada por uns 20 minutos aos saltos na cama dos pais e as restantes horas a dar papinha à Sara ou ao Martim. 

Eles têm que ter tempo. Eles querem parar para cheirar as flores e nós, por estarmos com pressa (muitas das vezes por causa deles), estamos a abreviar-lhes o dia. 

Vou dizer mais vezes que SIM ao que lhe apetecer fazer. 

Tal como no outro dia. Era tarde. Tínhamos ido jantar fora. A Irene foi-se deitar e já estava escuro (não é costume). Pediu-me para ver a lua e lá fomos. Ela de fralda e eu de pijama, na varanda do quarto dela, vimos a lua durante uns minutos. Se estivesse com pressa, não tínhamos vivido este momento juntas que me comoveu e que ainda hoje ela fala sobre ele.

Pode ir ver a lua, a Necas? 
Pode, Necas. Vamos. 

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quarta-feira, 27 de abril de 2016

Alguém anda com a mão demasiado leve...

A Isabel é uma fofinha, olhos doces, super carinhosa ao ponto de beijar os cães de alto a baixo, toda abraços, mas anda numa de bater. Bate-nos a nós, bate na mesa, bate no que estiver mais à mão nos momentos de contrariedade e frustração. Sei que é normal, que faz parte do crescimento, mas por vezes é-me difícil lidar com a situação.



Não lhe bato de volta porque - já expliquei aqui - não me parece lógico mostrar-lhe o mesmo comportamento, se lhe quero explicar que não se deve bater e porque violência gera violência. Além disso, não me é natural. Apesar de me roer toda por dentro, não quero magoá-la. Tento ajudá-la a passar aquele momento de zanga, mostrando-lhe empatia. "Sei que estás zangada, a mãe percebe, mas não se bate. Tautau nunca. A mãe não bate, o pai não bate, a avó não bate. Ninguém bate. Somos todos amigos. Só beijinhos, festinhas e abraços." Às vezes, só falar, de forma calma, não resulta e digo-lhe que fico triste com a situação, faço cara feia, digo que aquilo me faz dói-dói e que a mãe gosta e fica contente é com beijinhos. Resulta quase sempre num abraço e numa festinha que ela me dá e lá se acalma. Mas não resolve. No dia seguinte, está a fazer o mesmo. O que eu queria mesmo era que ela deixasse de bater efectivamente, mas eles, com dois anos, não estão preparados para processar as emoções, de forma controlada, pelo que vou ter de esperar. Respirar fundo e pedir, aos céus e a mim própria, muita paciência.

Ora, fez-me bem ler este texto do blogue Parentalidade com Apego, que de vez em quando vou espreitando e de que gosto muito, para perceber até as razões fisiológicas para o ato de bater. Adorei a questão da "tampa" no cérebro, o modelo cérebro-mão e de relembrar (como eu adorava as aulas de psicologia do 12º ano!) o córtex e o sistema límbico. A questão do desenvolvimento dos sentimentos mistos é super, super interessante. "Só a partir dos cinco anos de idade é que córtex cerebral começa a desenvolver-se o suficiente para que a criança comece a ser capaz de sentir estas duas coisas opostas e aparentemente contraditórias ao mesmo tempo: detesto-te neste momento mas sei que gosto muito de ti e não te quero magoar. Então tudo que precisamos de fazer é dar-lhes tempo para chegarem até aqui", pode ler-se.

É um texto grande, mas vale mesmo a pena. Caso estejam a passar pelo mesmo, leiam e pode ser que até encontrem alguma ajuda para ultrapassar esta fase. :)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Paizinho, Vírgula!

Já conhecem? Já conhecem? Já conhecem? Como NÃO? :)

Sou fã do Paizinho, Vírgula! e dos vídeos deste pai. Tudo faz sentido para mim. É assim que penso. É este o meu objectivo e modelo de parentalidade. É aquilo que o meu coração de mãe sente e aquilo a que me proponho ser e fazer.


Percam (ganhem!) uns minutinhos a ver alguns vídeos (ainda por cima com sentido de humor). Pode ser que vos ajude a compreender estes seres fantásticos e desafiadores que temos em casa.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Ela não pára de gritar!

Ando sempre a pensar em ideias para posts, em ideias para posts e como é que é possível ter-me falhado o que mais me tem andado a "azucrinar" a cabeça? 


A Irene entrou oficialmente nos terrible twos ou lá o que é (há quem diga que é um mito também - aqui). É uma fase em que eles aprendem a manifestar a sua vontade própria mas que ainda não sabem lidar com a sua frustração, então isso significa birras, gritos, desafios, etc. 

Ela já tinha tido uma fase em que gritava quando era mais nova: houve um dia em que estava a aspirar a casa (sim, que aqui a menina é blogger, mas sabe ligar um aspirador - muahah, brincadeira) e ela tentou falar mais alto que o aspirador e descobriu que aquilo chamava a nossa atenção. Gritou uma semaninha. Decidi ignorá-la. Achei que ao não dar atenção que ela se iria esquecer disso tal como se esquecia de tudo o resto.


Gira a imagem, não é? É assim que a vejo. 


Agora é um pouco mais complicado, não só porque a miúda está em vantagem (visto que utiliza mais % do cérebro que nós), mas também porque se começam a evidenciar as discórdias entre o Frederico e eu relativamente a isto da educação.

O pai é mais "à antiga", é a favor de nunca se bater na Irene mas acha que, às vezes, ela precisa de um "snap out of it" (um... sei lá como chamar... click?) e, então, sobe o tom de voz e abre os olhos. Isto faz com que, quando ela grita, o pai "grita" (fala mais alto, num tom que evidencia autoridade) a dizer que "a bebé não grita, que faz doer nos ouvidos, o pai já disse, blá blá). Ora, instintivamente não era isso que eu queria fazer, porque não me parece certo responder a volume de som com volume de som (lembrem-se da história do aspirador), nem me parece certo dar-lhe a impressão que o pai grita com ela, mas que ela não pode gritar porque faz "dói-dói" nos ouvidos. Porém, cedi à pressão. E sabendo que passaria por passiva (aos olhos do pai da minha filha) ao não dizer nada à séria quando ela gritasse, comecei também (na minha versão) a repreender o comportamento, dizendo (de olhos tão abertos que se tivesse acabado de por o rimel, ficava tudo sujo na pálpebra, mas sem subir o tom de voz - não gosto mesmo): "o pai não grita, a mãe não grita, a bebé não grita". Gritava na mesma. 

Percebo que aqui muitos pais passem para a "sacudidela na fralda" ou "enxota moscas" ou todos os nomes possíveis e imaginários para atenuar o facto de não terem conseguido arranjar uma estratégia mais racional que resolvesse o problema ou para quem se deixe irritar. Não é opção para mim, apesar de, confesso, ser o meu primeiro instinto. Já tive que travar a mão a poucos centímetros do rabo e várias vezes. :(

Levei algumas palmadas em criança, não me fizeram bem algum. Tenho de experimentar outras coisas. 

Experimentei o "somos amigas, a mãe fica triste", o "se a bebé grita, os ouvidos da mãe fazem dói-dói e assim a mãe tem de ir embora" (coisa que ela achou muita graça e começou a gritar e depois a pedir-me para ir embora para "brincar"), etc. Eis senão quando reparei que estava a fazer algo com que não concordava. Esta questão dos gritos estava a tornar-se uma questão importante, mas não porque eu lhe desse importância. Obviamente que não quero criar uma filha que se ponha aos berros em restaurantes, centros comerciais ou, até mesmo, em casa. Porém, acho que tenho de compreender a fase do desenvolvimento em que está e as respostas que dá aos nossos estímulos. 

Ela aprendeu que, se gritar, vê o pai e a mãe chateados. Se estiver aborrecida, faz isso para abanar um pouco as coisas e para ter atenção. Acredito que se ambos tivéssemos ignorado os gritinhos iniciais, pelo menos esta % do problema não teria continuado a existir. Enfim...

Outra: ela fica mesmo muito aborrecida com tudo. Vejo como uma espécie de pós-parto mas infantil. Ela não consegue ter o auto-controlo que nós, mulheres sacanas, temos quando estamos a deitar fumo da cabeça, mas conseguimos, passivamente dizer: "levas tu o lixo porque, se fores bem a ver, eu faço tudo o resto cá em casa e é só um saco do lixo, está bem?". Eles são genuínos ao mais alto nível. Odeiam-nos naquele momento (à situação, vá) e, portanto, é isso que deixam sair e não vêem motivo nenhum para controlar (nem sabem como) essas reacções. Aquilo que nos faz agir "nos conformes" são regras que vamos ensinando e aprendendo com o tempo. Acredito que ela, para já, ainda não tenha idade para compreender o motivo de não poder gritar ou chorar quando está chateada, frustrada ou zangada e, por isso, tenho tentado fazer outras coisas: 

- Dar nomes às emoções. - "ponho-me à altura dela", se ela não estiver num ataque perfeitamente furioso e digo: "estás mesmo zangada/triste/chateada/frustrada", não estás?". Ela, muitas das vezes, abranda o cérebro para dizer que sim e tenta explicar o que queria e, mais calma, consigo explicar-lhe o porquê ou desviar a atenção dela para outra coisa qualquer. 

- Deixá-la expressar-se - tento não levar a peito que ela esteja aborrecida por lhe ter negado algo. Dou-lhe um tempinho para se expressar, até porque acho que ela própria, aos poucos pode ganhar capacidade de "voltar a si", principalmente se não for nada de muito relevante. 

- Contar a história do que aconteceu - começo por relatar a situação (depende do grau de frenetismo), dizendo "a Irene estava a adorar brincar com a bola, mas agora são horas de ir dormir. E a Irene adora a bola, não é? Tem muitas cores, pois tem... Que cores tem a bola?. 

- Tirá-la do sítio onde aconteceu o drama - novas visões, novas preocupações. Agora, sempre que chegamos à garagem, ela faz muita questão de ficar sentada no meu lugar a fingir que está a conduzir. A birra que faz quando eu a tiro (depois de a avisar que o vou fazer) é só até ao hall do prédio, quando vê que pode chamar o elevador. 


Estas coisas têm resultado (continua a gritar, por isso "o resultar" aqui é relativo). Sinceramente não me enervo, para já, com os gritos dela e, por isso, consigo fazê-lo. Ela não percebendo porque é que me enervo com os gritos dela, não será mais uma birra minha se a impedir de se expressar quando está triste ou zangada? 

Acho que tudo tem o seu tempo e ainda não é já que vou conseguir que ela compreenda porque é que não se grita, nem vou fazê-lo com palmadas ou enxota (inserir nomes de animais aleatoriamente para suavizar a coisa), nem vou continuar a tentar que ela pare só por sentir medo de mim - não quero que ela sinta medo de mim, sou mãe dela, caramba! Sinto que a palmada poderá não doer fisicamente, mas evidencia uma filosofia menos produtiva de compreender os bebés e deles a nós

Se um dia terei um adulta que se fartará de gritar em todo o lado? Acho que não. 

Têm mais ideias criativas de fazer com que isto pare? Nem é por mim. É mais pelo pai que julgo que sofre por antecipação que faça isto em locais públicos (e as pessoas achem que não a sabemos educar - o quanto me borrifo para essa gente) e porque acho que os gritos o enervam mesmo por serem sons altos. 

Os vossos passaram por isto?

Odeiam-me por achar que não é pela palmada e dizer isto de forma tão clara de maneira a que me vão comentar o post a dizer "isso é porque ainda és nova nisto", "és muito passiva e depois queixa-te", "uma palmada na hora certa"... ? Podia fazer um parágrafo a suavizar a minha opinião para não criar cocó entre nós, mas para quê? É mesmo nisto em que eu acredito agora. 

E soluções nesta onda, mais alguém tem ideias? O que fizeram/fazem vocês?

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

As duas melhores horas.


Aqui a Irene quando ainda não se sabia sentar, tão querida. Apanhei agora esta fotografia no disco externo e quis mesmo partilhar convosco. Parecia ainda não ter ossinhos, o meu franguinho. 

Queria contar-vos uma coisa: para quem já nos acompanha há algum tempo queria só sublinhar a minha aparente bipolaridade. Conheceram-me pessimista, nervosa, irritadiça e etc. e agora, reparo, que ando tão feliz e tão contemplativa que isto já deve enjoar algumas alminhas. Eu sei como é "estarmos noutra onda" e, na mesma, termos de levar com "a cena dos outros". Ainda esta semana aconteceu lá na rádio - tenho colegas mais novas que eu - quando lá foi um artista que deixou uma delas (a minha preferida) toda excitadinha, sem conseguir quase falar e eu estava completamente indiferente. Se não gostasse dela como gosto, ter-me-ia enervado (em tempos) ao ponto de ficar a pensar nisso o dia todo enquanto a ouvia a dar berros histéricos e a dar saltinhos como se tivesse um bocadinho a mais de candidíase. Não sermos felizes dá-nos cabo da cabeça - claro que não é assim tão simples. 

A Irene durante esta semana ficou metade do dia com os avós paternos porque o Frederico teve um trabalho em que teve de se ausentar todas as tardes. Isso fez com que parecesse que o tempo que tinha com a Irene parecesse menor, vá-se lá saber porquê. Hoje, quando cheguei a casa (eles tinham ido ao jardim), aproveitei e, em 10 minutos, fiz o essencial: vestir o pijama, arrumar a loiça suja que tinha trazido do almoço (sou daquelas que leva a comida de casa que não sou rica) e preparar a roupa para o dia seguinte. Pensei: agora não trato de mais nada da casa enquanto a Irene estiver acordada (tive de fazer sopa, pronto). 

Senti que nunca me tinha sentado sem nada para fazer a seguir com ela. Ensinei-lhe imensas coisas. Arranjei festas de aniversário para todos os bebés (nenucos e imitações) que temos cá em casa, cozinhámos imenso na cozinha dela e ela deu maminha a todos antes de irem fazer ó-ó. Também nos divertimos a fazer pipocas e a ouvir músicas. Perdoem-me a expressão mas "caguei" no telemóvel, desliguei a televisão, escondi o ipad e foi excelente. Parece que hoje tive muito mais tempo para ela e que vi o quanto ela cresceu e o quão capaz está de se fazer entender, tudo. 

Sugiro que façam isto também. Borrifem para o telefone um dia destes e para a lida da casa (um dia só) para verem a diferença e depois façam uma escolha informada. Pode mudar a vossa vida. 

Eu adorei e vai ser a repetir. A sério que sim. Sinto que estive presente. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Como lido com as birras?

Sim, "a procissão ainda vai no adro". 
Sim, "vai piorar". 
Sim, "ainda vou morder a língua".
Sim, "tenho de esperar pelos dois anos. E pelos três."
Sim, "vou ver como elas mordem quando vier a irmã."

Sim, admito que ainda não sei nada. Sei pouco. Que cada criança é uma criança. Que cada um gere as crises familiares à sua maneira, de acordo com o que sabe e acha melhor. Mas, assumindo que não tenho experiência nenhuma com uma criança de dois anos e três anos (só tenho a experiência de uma criança de 22 meses), posso dizer-vos como lido com as birras da Isabel.




Não a ignoro.
Não grito.
Não desato à gargalhada. 
Não fico em pânico.
Não fico envergonhada.
Não lhe bato.
Não a imito, a gozar.
Não a ameaço.
Não faço birra.
Não lhe digo que ela é feia, nem má, nem um terror, nem que está impossível.
Não a ponho de castigo.

Respeito-a. Encaro como uma fase normal. Dura, difícil para nós, mas principalmente para eles. Para mim, fazer birras é bom sinal. É um sinal saudável de que ela tem emoções, vontades e necessidades. Está a desenvolver a sua personalidade e não sabe expressar-se de outra forma. O único entrave às vontades dela está a ser colocado pela mãe ou pelo pai. Mandar-se para o chão, chorar, tentar bater, mandar coisas para o chão está a ser a forma - a única que ela conhece - de expressar o seu desagrado. Não é nada contra mim nem contra o pai. É a frustração a falar mais alto. 

Falo com ela de forma calma.
Ponho-me ao nível dela. 
Às vezes dou-lhe festinhas.
Às vezes isso enerva-a mais e eu paro.
Digo-lhe que vai passar.
Tento abraçá-la.
Não lhe faço a vontade. 
Converso com ela. Explico.
Tento desviar-lhe a atenção para outra coisa.

"Filha, não podemos ficar mais a brincar no parque, está a ficar frio. Se apanhamos frio, ficamos com dói-dói e atchim. Em casa, podemos encher a piscina de bolas! Fazer uma chuva de bolas. Também vai ser divertido."
Passou. Às vezes não explico minuciosamente. Digo que não pode ser, mas tento logo canalizar a atenção dela para outra coisa. 
Não ganho nada em alimentar a frustração dela. Se gritar com ela, estou a deitar achas na fogueira. Se bater, estou a destabilizá-la ainda mais. E o que eu quero? Que a estabilidade volte. Que ela se acalme. 

Há quem diga que não temos de explicar tudo. Que "não é não". Mas, para mim, isso é pouco normalmente. Não quero que me veja como autoritária. Quero conquistá-la. Quero que confie em mim. Geralmente dou-lhe exemplos e modelos, que ela, devagarinho, vai compreendendo. Não queres vestir o casaco? A mãe tem um vestido, o pai também e até podemos vestir um ao cão. Tem de ser. Chora um bocadinho, às vezes não chora, às vezes tenho de forçá-la a vestir-se, mas passa. Acaba por passar.

No outro dia, perante uma birra da Isabel no cabeleireiro, uma mãe disse-me "ui, a minha comigo não faz farinha". A minha faz. Espero que faça pão, até. Não lhe faço as vontades, não volto com a palavra atrás, mas tento ser paciente. Não ganho nada em ser agressiva. Eles são o reflexo do que vêem e do que sentem. Não vamos juntar à árdua tarefa de crescer os nossos stresses. Nós temos o dever, enquanto adultos, de tentar controlar os nossos nervos. Eles não, estão a aprender a gerir tudo.

Sim, muito provavelmente vai piorar. Sim, muito provavelmente vou morder a língua. Sim, vou descontrolar-me algumas vezes, sou humana. Mas, para já, é assim que tem sido. E, até agora, tem resultado com a Isabel.

Coragem!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

É mesmo isto, caraças!

Chamam-lhe o método da caneta verde. Já explico tudinho.



Lembram-se de levar no caderno, que se calhar até decoravam com florzinhas e faziam sublinhados a cor-de-rosa e verde e todas as cores possíveis, horríveis erros marcados a caneta vermelha?

Eu, perfeccionista desde sempre, odiava. Odiava errar. Odiava não ter tudo lindo e limpo e perfeito. Odiava não ter Satisfaz Plenamente ou Muito Bom. Ou 20, no secundário. Um 18 era como se fosse um 14. Sim, eu era esta pessoa. E talvez tenha muito a ver, além do meu feitio, com o método que utilizaram comigo e que terá também moldado a minha personalidade. Um método que sublinha o que está errado. Que destaca, a vermelho, o que fiz de mal. Até podia ter feito vinte vezes bem, mas se fazia uma mal, o lado bom esfumava-se. Ficava com os erros a pontapearem-me os neurónios. Ainda hoje sou assim. Posso ter um dia do caraças, tudo a correr bem, e basta uma coisa sem grande interesse correr mal, que lhe dou toda a importância do mundo. O que fiz bem, o que correu bem, é como se não tivesse acontecido.

E agora está aqui uma coisa que faz sentido! Os meus olhos brilharam ao olhar para este método.

A mãe desta criança explica: "Consegue ver a diferença? Eu não marcava com caneta vermelha os erros, mas destacava com verde as letras e bolinhas que tinham ficado bonitas. Ela gostava muito disso. Depois de acabar uma linha ela sempre me perguntava: mãe, qual é a mais bonita? E ficava ainda mais feliz quando eu circundava a letra mais bonita com as palavras "muito bem"."

Conseguem ver a diferença para o futuro desta criança? É toda uma estrutura de pensamento que se altera. Esforçarmo-nos para fazer bem, em vez de nos focarmos no que está errado. 

A análise mais alargada deste método neste site

O que vos parece isto?

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Bebé suja, bebé limpa!

Acho que é a melhor maneira de os ensinar a não sujar as coisas que não fazem sentido. É um dos pilares da disciplina positiva (do que percebo, claro): aceitar as consequências naturais dos actos. Suja? Limpa. 


Até porque ela até já andava a dizer que quando se suja, quem limpa é a Paula (nossa empregada) e... não gostamos nada de saber... 


O que acham de os por a limpar? ;)



Um vídeo publicado por Joana Gama (@joanagama) a

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Chamei um miúdo à atenção e o pai dele ouviu...

Estávamos os três no parque . A Isabel subiu, para poder descer no escorrega. Lá em cima, agarrado a uma espécie de volante que gira, estava um miúdo com uns dois anos. Empurrou-a de tal forma que ela caiu e bateu com a cabeça. Começou a chorar daquela forma em que prendem o choro, ficam sem ar, e que nos aperta o coração. Peguei-a logo ao colo e eu e o pai começámos a tentar acalmá-la. 

Disse ao miúdo, de forma calma e sem levantar a voz, encarando-o como se fosse o meu filho mais velho: "Não se empurra, está bem? Depois a bebé cai, faz dói-dói e chora muito. Não se empurra ninguém." 

O pai dele, que estava a ver qualquer coisa no telemóvel, ouviu (não era a minha intenção) e perguntou-me se tinha sido ele. Anui. 

"Vem cá. Não se bate". Palmada. "Não se faz isso. És feio. És mau." Palmada. Miúdo a chorar, Isabel, que já se estava a acalmar, desata a chorar outra vez.
"Olhe - disse-lhe - faz parte desta fase do crescimento deles, são muito egocêntricos, não medem bem as acções, já passou, não foi Isabel?"
"Pois, mas ele é mau. És feio. Vamos embora se não pedes desculpa".
Mais choro.
"Dá uma festinha, pronto Isabel, o menino é amigo".
"Não pedes desculpa, vamos embora."

E foram. 

Não percebi muito bem, fiquei meia perdida no meio daquilo tudo. Palmada para se explicar que não se bate? Sou contra. Ele não é feio, nem mau, teve uma atitude errada, que não se faz, mas que não sei até que ponto ele conseguirá controlar. Haver uma consequência para o acto dele (privá-lo de estar ali), por um lado, não me pareceu totalmente errado, há uma relação causa-efeito no meio de tudo aquilo. Mas, por outro lado, também não me parece que ele tivesse maturidade suficiente para saber pedir desculpa. Acabou por haver ali uma exigência/ameaça que, a meu ver, não lhe dava uma segunda oportunidade. O destino estava traçado, logo não me pareceu justo. Já estava condenado a ir embora do parque. Fiquei tristonha por ele, confesso, e por momentos até me arrependi de o ter repreendido. Mas serviu, pelo menos, para uma coisa: debater o assunto com o pai da Isabel.

O que acham vocês de tudo isto? "A família é que sabe", já sei! Mas sou chatinha e gosto de debater estes assuntos, estejam vocês perto da minha linha de pensamento ou no extremo oposto. Aprendo com todas as opiniões e experiências. Vá, digam lá o que fariam.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Não gosto, pá!

Sabem quando, ao vermos as outras pessoas, nos apercebemos de coisas que fazemos e não gostamos? Eis coisas que me tenho apercebido e que não gosto e, portanto, vou evitar fazer. Sogra e mãe, sim, algumas são inspiradas em vocês. É normal, são vocês que convivem connosco, está bem? 



- Falar de morte desnecessariamente. 

Não gosto. Passei a ser super sensível a isso. Dizer que que o boneco morreu por estar estendido no chão não me parece saudável, não entendo porquê. Claro que a morte é algo natural e que os miúdos devem saber do que se trata, mas andar a lidar com o luto dos bonecos 10 vezes ao dia, não me parece uma coisa agradável. 

- "Fez dói-dói? Ahh! Cadeira má! Dá tau-tau na cadeira!".

Não. Não se dá tau-tau em ninguém. Muito menos na cadeira que estava lá antes e que foi a bebé que não prestou atenção. Fez dói-dói, dá miminho e é seguir em frente sem violência. Um dia será a mãe que lhe faz dói-dói sem querer e depois leva meio tabefe que até anda de lado.

- "Não come mais? Menina feia! És feia, não gosto de ti!". 

Não. Ninguém é feio por não ter apetite. Nem se deve deixar de gostar de alguém por não o conseguirmos obrigar a comer. E ser feio não devia ser um castigo e muito menos estar ligado ao afecto que temos por essa pessoa. 

- "Olha, Olha, vem ali um memé, olha" 

Se não vier nenhum memé, se não vier nenhum pássaro, não se diz que sim. É errado mentir. É errado criar expectativas. A não ser achemos mesmo que possa vir um. A confiança é algo que se constrói. Estas técnicas depois deixam de funcionar e não ensinam grande coisa. A mim, se me disserem "é hoje que cai o salário na tua conta" e depois não cair, fico furiosa. 

- "Quer comer mais mulão? Mumiu bem? Vamos apertar o passato?"

Bom. Culpadíssima. Faço este reparo à minha mãe e sogra e ainda hoje lhe perguntei se ela queria comer mais uma tóta (tosta). É tentador, sim senhora, mas não é bom. A Irene, ainda por cima, consegue aprender facilmente palavras e ensiná-las mal é um desperdício e até confuso. 

- "Vá, a gente depois toma ali banho. Vamos já."

Mais uma vez, prometer coisas que não se cumpre só porque achamos que eles têm a memória curta. Podem não ficar a pensar nesta, mas ficarão ou ficaram noutra. Não é bom e não estamos a aprender a funcionar com eles. Só a mentir. 

- "Não."

Não gosto. Só não, não. 



Pronto. Foi isto que vocês sentiram. "Então, é isto? É não e pronto? E não explica?".


- "Ehhhhhhhh, festa!!!! Palminhas!!!!"

É comum. Eu provavelmente também o faria se não passasse tanto tempo com a Irene como passo, mas não entendo a necessidade de excitar os miúdos sem motivo. Estarem eles a andar, a explorar e estar a alguém a dizer BEM ALTO "olha isto, olha aquilo!". Tenho vindo a aprender um novo modo de apreciar as coisas que é: observando. Conhecendo-os. Para além disso, faz-me confusão fazer "festa" por nada. Se ela conseguir fazer algo, sim! Se vir algo que a deixa feliz, compreendo que queiramos partilhar esse momento, mas... por nada? 


- "Maminha??? Outra vez??"

A Irene anda numa fase em que mama de 3 em 3 minutos. Salto de desenvolvimento, dores de dentes, não sei. É aborrecido? É. É normal? É. Recriminar a miúda não está certo. Ela tem essa necessidade, que lhe faz SÓ bem. E este foi um erro meu. Sempre que ela pedia eu dizia "que chatice" para ela perceber que a mãe queria fazer coisas e... ela passou a dizer "que chatice" sempre que vem mamar. Já lhe passou, claro. Agora tento ensinar-lhe a frase "mas que belas e firmes mamas que tens" para que ela diga antes de se servir. 

- "Não fez nada dói-dói, não seja maricas!". 

Não tratamos a miúda por você mas, às vezes, pela 3ª pessoa do singular. É querido, pronto. Da mesma maneira que não gostamos que alguém negue os nossos sentimentos, não neguemos os deles. Se eles choram, ou ficaram magoados ou apanharam um grande susto. Validemos isso que é já metade da ajuda para tudo passar. 


Estas são as que têm andado na minha cabeça para reflexão. E vocês? Há alguma destas com a qual concordem? Outras que queiram sugerir?

sábado, 29 de agosto de 2015

Era um par de palmadas no rabo

Nas férias, caso vamos para um sítio com piscina partilhada com dezenas de famílias e para a praia, convivemos com dezenas de crianças e com as respectivas famílias.

Vemos as dinâmicas familiares, crianças mais ou menos extrovertidas, mais ou menos birrentas, e com pais mais ou menos compreensivos, mais ou menos relaxados.

É ponto assente que ir de férias com miúdos não é a coisa mais fácil do mundo, não é. Mas é quando supostamente estamos com mais disponibilidade para eles, para as coisas deles. É quando supostamente não temos a cabeça ocupada com outros problemas e quando conseguimos fugir à rotina. É quando supostamente temos uma(s) hora(s) da sesta deles para nós e não para a casa, nem para a roupa, nem para os emails de trabalho. É quando arranjamos uns minutos para respirar fundo ou ler quatro páginas de um livro. Ou de uma revista cor-de-rosa. É quando podemos "jogar conversa fora", perder tempo com coisas leves, brincar e conversar mais.

Eu sou daquelas chatas que mete conversa com outras mães e outros pais na praia e na piscina. Gosto de conhecer gente. É como regressar à infância, quando não tínhamos vergonha de meter conversa com os meninos na praia. Eu, pelo menos, era assim. Fazia amigos em todo o lado. Agora, a Isabel é um excelente desbloqueador de conversas. Conheci os pais da Marta, os pais da Francisca, os pais do Afonso. Sempre que revíamos os pais da Marta e a Marta, que tinha 5 anos se bem me lembro, ficávamos um bocadinho a conversar. A Isabel adora miúdas mais velhas. Com os pais do Afonso, de 23 meses, só falei numa manhã, quando estávamos todos a jogar à bola na relva da piscina.

Simpatizei muito com a Francisca, de 9 meses, e com os pais dela. Uma bebé linda, morena, de olhos grandes e pestanudos, vestida de xadrez cor-de-rosa. A Isabel foi às toalhas deles dizer olá e lá ficámos a conversar, sentadas.

Gosto. Gosto de saber como gerem as férias. Se fazem comida, se eles comem ou não sopa, como fazem as sestas, que gracinhas já fazem ou faziam com a idade da Isabel.

Por outro lado, é por ali que vejo também coisas com as quais não concordo, mas que tenho de engolir a seco, porque nisto da educação de um filho, cada um sabe dos seus. Um pai que bateu num filho só porque este estava a despir os calções com a ajuda dos pés. Uma mãe que disse: "se cais mais alguma vez, levas na cara". Enfim... já sabem como eu sou adepta da disciplina positiva e tento praticá-la sempre com a minha filha, pelo que as ameaças e as palmadas não fazem parte do nosso dia-a-dia. Para mim, a haver palmadas no rabo, não seriam os filhos a recebê-las.

Bem sei que tenho de aprender a não meter o bedelho onde não sou chamada, mas se conseguir despertar a curiosidade a mais alguns pais para isto da disciplina positiva (não confundir com permissividade), já me sinto contente.

Boas férias para quem ainda não foi! E respirem fundo!!! :)


sábado, 8 de agosto de 2015

Crianças Felizes, o livro de Magda Gomes Dias.



A especialista em blogues aqui do nosso estaminé é a outra, a Joana Paixão Brás. Ela é que sabe quem são as pessoas, sobre o que escrevem, etc. Eu não faço a mínima. Desde que temos aqui o a Mãe é que sabe tenho feito um esforço, por achar que tenho de estar a par "do meio", mas somos mais que as mães e confesso que nem sempre sei distingui-las. Tenho o mesmo problema com celebridades. Confundo-me com todas. 

Bom, isto para dizer que não conhecia o blogue da Magda. E até me convém dizer isto pelo nome do nosso blogue ser parecido com o dela. Por acaso, na altura, nenhuma das 5 a quem propus o nome se lembrou disso, por isso foi mesmo por acharmos que fazia algum sentido. 

Tomei contacto com o trabalho da Magda num programa de televisão. Acho que foi na Grande Tarde da SIC (nem podia eu dizer que era de outro canal porque a Joana trabalha nesse). Fiquei um bocadinho de pé atrás por ser um pouco preconceituosa com pessoas que dêem palestras, façam coaching ou "sessões de aconselhamento". É um problema meu. Associo muito isso a cultos, seitas. Não sei se sempre convidarão as pessoas a reflectir ou se apenas é para criar um grupo de seguidores fazendo alguns trocos (se calhar vi muito a série The Following). 

É óbvio que a Magda faz dinheiro com o que faz, é o trabalho dela e acho muito bem. É como as pessoas que julgam as bloggers que recebem dinheiro para fazer publicidade... Toda a gente deve ser paga pelo trabalho que faz. Toda a gente. 

Mudo, muitas vezes, de opinião em relação aos livros, assim que me vou informando. Tal como mudei em relação aos livros do pediatra Mário Cordeiro. Quando não sabia nada, quando ainda não pensava muito e só absorvia informação sem espírito crítico, parecia-me a última Spur Cola no deserto, mas rapidamente me vim a aperceber que não me identificava com várias questões. Um dia falarei sobre isso. Tenho é de arranjar uma maneira elegante de dizer que não concordo com muita coisa que o "pediatra em que os portugueses mais confiam" e nem sempre é fácil porque mexe com questões estruturais da minha pessoa e da vossa, claro. Se nos cingirmos àquilo que perguntaríamos a um pediatra e que um pediatra estuda, sim senhora, acho eu que não sou médica, claro.

O prefácio ser do Dr. Mário Cordeiro deixou-me muito de pé atrás. Como escolher para um livro de parentalidade positiva um homem que advoga a palmada e também que "quando os miúdos choram a comer, veja pelo lado positivo que até abrem mais a boca para comer" (algo do género). Depois pensei: okay, assim é capaz de chegar às mesmas pessoas que confiam no Dr. e lhes faça pensar de maneira diferente. É uma jogada de marketing penso ou, então, até uma provocação para o Dr. pensar diferente. Não sei. Tentei ignorar "a capa" e julgar pelo conteúdo. 

Li ontem o livro quase todo. Faltam-me 4 páginas porque, quando dei por mim já tinha os óculos no bigode e já estava a babar-me toda. E adorei. Mais o livro do que me babar toda. 

É um livro que convida a fazer diferente e identifiquei-me muito com ele. Como pessoa que já está curiosa o suficiente por esta nova "escola de educação" (praticamente a oposta da maior parte dos nossos pais") sinto que este livro compila de forma muito eficaz as várias teorias e pontos a que devemos dar mais atenção se quisermos criar uma relação de respeito mútuo com os nossos filhos e de cooperação em vez de incutir medo para serem obedientes, sem compreenderem por que é que lhes estamos a mandar. Nisso do medo estão incluídos os gritos por sistema, os castigos, as palmadas.

A verdade é que muitos de nós queremos fazer diferente dos nossos pais mas não sabemos exactamente como fazer. A Magda dá óptimas sugestões. Explicando-nos o propósito de cada uma e dando exemplos. Já estou a ler o livro há uma semana. No dia seguinte a ler umas folhas, aplicava sempre algo à Irene e resultava. Não são coisas que a Magda inventou, são coisas que ela aprendeu, compilou e arranjou uma maneira simples de explicar a pessoas que não sejam neurologistas, psicólogos, etc. Até tem um capítulo em que explica de forma muito sucinta (mas tão eficaz) o cérebro dos nossos filhos. Gostei. 

É uma óptima introdução a todos os temas que temos de aperfeiçoar caso queiramos criar o tipo de relação que falei ali em cima. Há pessoas que o fazem naturalmente por terem crescido em famílias que o fazem assim inconscientemente ou conscientemente e estes livros são apenas uma descrição do que já sabem. No meu caso são ideias, são sugestões, são chamadas de atenção e tudo isso sem termos técnicos puxados, sem estar sempre a cuspir nomes de autores. 

Quem quiser saber mais terá de ler mais, mas para quem nada saiba ou pouco sobre esta área é, até agora, um óptimo livro em português para começar e perceber a necessidade que temos de sermos pais duma forma mais consciente e presente. Até esta temática muito na moda do "mindfullness" (apesar de ser tão estupidamente antiga) é subtilmente abordada. 

Tem também algo que me vai dar muito jeito quando a Irene for para a creche que são algumas dicas para sairmos de casa a horas e sem discussões de manhã. Dicas óptimas que demoraria muitos meses a lá chegar, visto que tenho o pior dos feitios de manhã e não ser a pessoa mais paciente. 

Para terminar, acho mesmo que o título do livro é justo. É um amuse-bouche para criar crianças mais felizes, verdade. O resto terá de ser feito por nós. Tudo o resto. Somos nós os pais.


Conceitos que irei aprofundar depois deste livro: criação com apêgo, parentalidade positiva, disciplina positiva, comunicação não violenta, escuta activa, mindfullness. 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Mas... o que é isso da Disciplina Positiva?

Comecei a tomar contacto com "isto" da Disciplina Positiva através duma amiga minha (obrigada CP), juntei-me a um grupo sobre isso no Facebook, fiquei mais curiosa ainda e comecei a ler um livro sobre isso. Algum tempo depois apareceu a Natália, fundadora inicial desse grupo, que além de bastante solícita, sempre muito informada nas respostas que dá a todas. Achei que poderia ser interessante para todas nós. 


Por que é que estou a entrevistá-la sobre Disciplina Positiva, Natália? Porquê a si? Vá, isto é uma maneira pseudo-discreta para pedir que se apresente e para dar motivos às outras mães para confiarem em si.

Imagino que me esteja a entrevistar porque leu algo que escrevi em resposta a alguma questão sobre educação ou porque mais recentemente ouviu algo que disse num vídeo ou num áudio que publiquei. E, além disso, imagino que outra razão  possa ser o facto de eu ser mãe de 4 filhos e de ter adquirido algum conhecimento sobre Disciplina Positiva e outras abordagens que podem fazer sentido às pessoas, mesmo sem saber o que significam ao certo. A curiosidade e a vontade de educar os filhos para um mundo melhor poderia ser igualmente uma razão. Não sei como é que as pessoas me encontram, mas espero que seja útil e, se gostarem da minha forma de estar e de não julgar, se calhar até ficam com uma ou outra ideia de como poder alcançar o sonho de educar os filhos da forma como idealizam em vez de cair em padrões de como foram educadas e que, no fundo, não querem repetir.

Sei que a Natália não acredita em "certificados", mas pode mencioná-los? Assim talvez consigamos chegar a mais mães que leiam a sua conversa com mais atenção. O que me diz?

As minhas qualificações mais importantes são os meus 4 filhos, o meu marido e outras pessoas chegadas que me ensinam a manter uma relação com eles de forma autêntica e compassiva, sempre que me é possível. E, provavelmente, os mais de 11 anos de parentalidade e comunicação não-violenta que tenho estudado na "escola da vida". Além disso, "formei-me" (são formações para  voluntariado e sem reconhecimento oficial de alguma "autoridade", acho eu :)) para ser moderadora da Attachment Parenting International (mais recentemente chamam isso de Parentalidade por Apego em Portugal, mas há anos dizíamos Educação Intuitiva) e  também da Liga La Leche. Também tenho estudado e vivido isto da comunicação não-violenta (com a BayNVC e com a "minha" professora Sarah Peyton www.empathybrain.com). Sou também educadora parental de Disciplina Positiva e estudei um ano num seminário avançado com o autor do livro Playful Parenting (Educar a brincar). Fiz mais coisas, mas enumerá-las, a meu ver, não prova nada. Por isso, comecei a fazer recentemente áudios e vídeos para que as pessoas me possam ver e ouvir, decidir se gostam de mim e das coisinhas que tenho para dizer. No fundo, quero que as pessoas descubram por elas próprias se aquilo que eu lhes apresento faz algum sentido.




Por que é que as pessoas associam a disciplina positiva àqueles "hippies que mesmo que mesmo que a filha bata, dizem que está tudo bem, apesar dela continuar a bater" (a frase é de alguém que nunca leu sobre isto)?

Na minha opinião, é pelo  desconhecido nos causar, muitas vezes, desconforto que resistimos essas coisas, por não sabemos o tipo de problemas que poderia causar. As pessoas tendem a associar a palavra "disciplina" a coisas más (eu associo à  imagem de um militar que grita para um grupo de soldados ;)) e, frequentemente, essas associações estão relacionadas com "algo que tem que ser aprendido de forma dura" e com a disciplina física (a tal palmada que não faz mal a ninguém por ex). No mundo da parentalidade parece haver muitos "extremistas": há os que defendem a não-violência e há os outros que acreditam que só com violência é que se chega ao destino.. Sendoo destino um adulto funcional e inserido na sociedade, digo eu.

O que é, afinal, a disciplina positiva? E por oposição a quê?

A Disciplina Positiva é uma abordagem que combina a amabilidade com a firmeza e que se baseia no respeito mútuo, no envolvimento das crianças na resolução de problemas e que se foca no desenvolvimento de pessoas capazes.

A Jane Nelsen (que escreveu grande parte do livros sobre a Disciplina Positiva, alguns em conjunto com a  Lynn Lott) fala em 3 abordagens principais de parentalidade. A Severidade que é o controlo excessivo, a Permissividade que significa a ausência de limites e a Disciplina Positiva baseia-se na firmeza com dignidade e respeito.





Todos os pais conseguem por em prática os pilares da disciplina positiva? Mesmo os mais enervados? Mesmo os mais cansados? Mesmo os que trabalham muito? É só uma questão de querer muito?

Bem, eu quero muito acreditar que sim,  que mesmo em circunstâncias difíceis é possível aplicar os conceitos da Disciplina Positiva. Digo isso porque a Disciplina Positiva protege os pais do cansaço extremo e permite guardarmos os nossos escassos recursos para quando forem mesmo necessários. A Disciplina Positiva defende que as crianças devem ser autónomas e encorajadas a contribuir para o bem-estar da família e para terem consideração por outros seres e também para com o planeta, diria.

Vejo a DP como um conjunto de linhas orientadoras e ferramentas que facilitam a vida à todos. Ajudam os mais enervados manterem a calma (por gritarem e ralharem menos), aos cansados permite encorajar os filhos a ajudar e fazerem o que sabem fazer sozinhos, aos que trabalham muito dá umas ferramentas valiosas para que possam aproveitar o tempo que têm de forma positiva (porque oferece boas ferramentas de gestão de tarefas e de conflitos e ensina  cooperação e o respeito mútuo). Quanto a ser uma questão de "só querer muito" não tenho bem a certeza, porque  acredito que, para atingirmos algo, às vezes é necessário orientação, suporte e dedicação, mas para isso estou cá eu e imagino outras pessoas que possam ajudar a manter o foco naquilo que queremos atingir. 

Contudo, o primeiro passo terá que ser dado pelos pais e depois sim poderá tornar-se numa viagem em conjunto com outros pais e com a minha ajuda da minha, se for desejado.

Falhar não é fracasso, certo? Na disciplina positiva pode-se pedir desculpa e tentar de novo, certo?

Na Disciplina Positiva vemos os erros como oportunidades de aprendizagem, focamo-nos numa possível solução em vez de apontar o dedo e procurar o culpado. Aliás, reconhecer perante os nossos filhos que erramos, ensina-lhes muita coisa importante, como por exemplo que os adultos não são perfeitos e que, muitas vezes, temos o poder de emendar os nossos erros, assumindo responsabilidade pelos nossos actos e aprender com isso.

Pode dar alguns exemplos de como aplicar a disciplina positiva para resolver as seguintes situações? Claro que tudo depende da idade das crianças.





- A criança que, no supermercado, não para de apontar para tudo e fazer birra caso a mãe não lhe dê as coisas para a mão.

Aconselho a ferramenta chamada "Escolha limitada". Pode dizer à criança que pode escolher entre duas coisas: ou brincar com o brinquedo ou ler o livrinho que trouxe (não se esqueça de ir prevenida). Às vezes deixava que os meus filhoa vissem fotos no telemóvel, durante as compras. Se os filhos querem ajudar nas compras, acho que é algo a encorajar, de forma adequada à idade. Quando uma criança pede coisas que não estão na lista, isso pode ser uma boa justificação. Ex.: a criança quer gomas, nós olhamos para a lista e dizemos "Ohhh não tenho aqui gomas na minha lista, eu acho que só compramos essas gomas para as festas de aniversário...e quando é que fazes anos? Ah já só faltam 3 meses e quantos anos fazes...". Com alguma sorte a criança ficou distraída ;)

Também quero chamar à atenção para o facto de que o tipo de relação que pais e filhos têm, tem muito a ver com este tipo de comportamento. Por isso, se quer mudar algumas coisas mais enraizadas na sua dinâmica familiar, mais vale pensar em investir um tempinho para participar num workshops ou num curso virtual para aprender algumas ferramentas novas e receber eventualmente orientação personalizada para que a mudança seja duradoura e à medida da sua família.

- A criança que não empresta os brinquedos a ninguém e que "tira os brinquedos de todos os outros".

Conheço poucos adultos que me fossem emprestar o portátil ou telemóvel, muito menos num parque público ou numa instituição (digamos no hospital ou na sala de espera nas finanças) ;).

Há muitas formas de lidar com uma situação destas, depende um pouco da personalidade do adulto e se o mesmo se sente capaz de optar por uma brincadeira ou se está numa situação desconfortável - pode estar rodeado de pessoas estranhas e querer ficar bem-visto. Aos olhos da Disciplina Positiva a partilha não é algo que se deva esperar antes dos 3 anos de idade e meso depois a aprendizagem da partilha é complexa e exige tempo e passos pequenos. Podemos modelar a partilha (e se pensar bem não é algo que as crianças observem com muita frequência) por exemplo na mesa ou durante o dia com outros membros da nossa família.

Também pode ajudar ter brinquedos que são para partilhar e outros que claramente que não. É igualmente importante aprender a respeitar que algo pertence a alguém e que não o podemos ter tal como é valioso saber partilhar. Mas tudo ao seu tempo e com a devida e necessária maturidade. Partilhar é um conceito complexo e podem-se partilhar mais coisas do que só brinquedos, não se esqueça de ensinar ao seu filho a partilhar sentimentos ou acontecimentos.


- A criança que não quer dar beijinhos aos outros familiares quando os vê.

Aconselho a ferramenta de oferecer uma alternativa (eu pessoalmente acho importante ensinar aos meus filhos que eles são donos do seu corpo e não têm que deixar, à partida, ninguém fazer nada que não queiram...e convido-o a pensar uns anos mais à frente quando, por exemplo, a sua filha já é uma adolescente e um rapaz pede beijos ou algo que ela no fundo não quer dar/fazer). Podia dizer, por exemplo, "Não precisas de dar beijinhos, mas podias dar uma festinha ou dizer olá (agora imagino familiares e amigos a derreterem-se igualmente com uma festinha do que com um beijinho). Forçar não me parece ser uma opção, por isso resta-nos pedir para a criança cooperar ou oferecer alternativas aceitáveis.


- A criança que não pára de chamar pela mãe enquanto a mãe não lhe responder e vai subindo o volume.

Dependendo da verdadeira disponibilidade da mãe, que tal prestar atenção ao que a criança precisa e depois continuar a fazer o que estava a fazer? Se for um problema constante ou muito recorrente aconselho a olhar para a razão deste tipo de comportamento e observar mais de perto a dinâmica familiar.


- A criança que não quer ir dormir e que faz uma birra enorme.

Agora teria que saber mais detalhes... Por exemplo, será que a criança está com muito sono e passou da hora de deitar? Será que a criança tem medo e não quer ficar sozinha? Geralmente há ferramentas que facilitam as rotinas, mas muito depende da idade e do tipo de desafios.



No entender da Disciplina Positiva, o que são birras?

A meu ver, uma birra é a expressão de frustração, de uma maneira algo infeliz. Na Disciplina Positiva defende-se que qualquer comportamento é, no fundo, um pedido para ser amado. Por isso, da próxima vez que o seu filho faça uma "birra" imagine que ele vestido tenha uma t-shirt a dizer, em letras grandes  "Só quero ser amado!"

Por que é que o castigo não funciona?

O castigo funciona (geralmente a curto prazo, porque a longo prazo causa danos indesejáveis para a maior parte dos pais), mas vem a com um preço que nem toda gente está disposta a pagar. O preço do castigo a curto prazo é uma disrupção imediata da proximidade e de diminuir ou até eliminar a vontade de cooperar por parte da criança. Qualquer bom comportamento que venha a seguir a uma palmada ou um castigo está baseado em medo de violência ou de retirada do amor parental. A mensagem dada a curto e a longo prazo é a de que o comportamento é mais importante do que a relação e que não queremos saber o que se passa com a criança, mas sim que só queremos que se porte bem. Assim, ensinamos valores que a curto, médio e longo prazo causam mais problemas do que resolvem.



O que faz uma palmada? Mesmo os "enxota pó" das fraldas são de evitar ou dar-lhes um incentivo para se desfocarem das situações é aceitável?

Uma palmada pode fazer muita coisa, dependendo do tipo de relação que existe entre o palmador e o palmado ;). E também importa se é a primeira palmada ou a milésima. Eu acho que a pergunta "O que vai aprender com esta palmada?" mais interessante para ser sincera, mas também sei que quando estamos sem recursos (exaustas e sem paciência), não é disso de que nos vamos lembrar.  Se calhar, podemos antes pensar a) o que podemos fazer se não queremos dar palmadas ou incentivos e b) o que podemos fazer se o fazemos na mesma? Neste caso eu ia responder que ter ideias e ferramentas para saber como lidar com situações difíceis sem recorrer a palmadas e incentivos exige alguma aprendizagem e estudo.  Mas vale a pena porque são ferramentas que ajudam a fomentar relações duradouras e saudáveis que se baseiam em respeito mútuo e assim tornam-se num modelo de estar na vida para os nossos filhos. Quanto aos casos em que já aconteceu, temos a oportunidade de aprender (e ensinar) como ser responsável pelos nossos próprios actos e em vez de dizer "A culpa de te ter dado uma palmada foi tua porque te portaste mal", podemos dizer "Peço desculpa por ter te dado uma palmada, no fundo nem acredito que isto melhora a situação e também não quero que aches que não te amo. Estou cansada e está calor e se calhar preciso um copo de água e duma uma pausa, podes ajudar-me?"

Não sou amiga de incentivos, pelo simples facto de colocar a motivação no exterior em vez desta ser interna. Isto é obviamente  um assunto complexo, mas de forma resumida pode se comparar ao "fazer algo de bom porque queremos fazer isso" ou se "fazer algo de bom porque queremos receber algo em troca". Eu prefiro que as pessoas actuem de forma genuína, sem quererem algo em troca.

O que devem os pais fazer para conseguir implementar as sugestões da Disciplina Positiva? O que pensar quando se erra?

O primeiro passo, no meu entender, é ter noção daquilo que é a Disciplina Positiva. Aprender os critérios e as ferramentas que a mesma oferece. Infelizmente o livro da Jane Nelsen - Disciplina Positiva está esgotado em Portugal e não me parece que vai ser re-editado tão cedo. 

Quando se erra, o melhor, digo eu, é  assumir a responsabilidade. Por isso,  procurar alguém que não nos julgue para poder expressar os nosso sentimentos e depois disso pensar numa maneira de aprender com o sucedido, pode contribuir para uma aprendizagem. Isto pode ser num grupo onde haja algum conhecimento sobre as ferramentas da Disciplina Positiva ou falando comigo, por exemplo.



Vai haver um encontro em breve, onde a Natália irá dar as suas dicas. Quer falar-nos nos detalhes e nos conteúdos? Estamos todas convidadas?

Vai haver dois eventos no mês de Julho, um é virtual no dia 18 de Julho e o outro vai ser em Oeiras no dia 26 de Julho. Vou falar dos critérios da Disciplina Positiva e de algumas ferramentas. Estarei disponível para perguntas e abordaremos situações que tenham surgido na vida das pessoas.

Estão convidados. No evento virtual há 25 lugares, mas quem não conseguir entrar pode ouvir a gravação. Em Oeiras não coloquei limite de vagas porque quero que as pessoas tenham a oportunidade de encontrar outras pessoas igualmente interessadas na Disciplina Positiva. Podem ver os detalhes dos eventos aqui.

Para além da disciplina positiva, que outras "correntes" sugere que as mães se informem ou tenham atenção?

A resposta mais sincera que posso dar é: "Investiguem SEM FALTA ;) o Educar a brincar (Playful Parenting)!"

Quer recomendar alguns livros para ler?

Infelizmente não há muitos livros em português que eu tenha lido acerca desses assuntos, eu leio muito em inglês e às vezes em alemão.


As nossas leitoras podem deixar dúvidas nos comentários que a Natália depois vem cá dar uma ajudinha? Ou, o que recomenda para que elas tenham ajuda quando precisarem?

Venho cá com todo o gosto responder aos comentários e para terem ajuda podem juntar-se ao grupo da Disciplina Positiva no facebook aqui e para ficarem informadas podem subscrever a minha newsletter aqui.